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Aristóteles Ética a Nicômaco

Caeiro (EN10-11) – princípio da ação

Apresentação do tradutor

sábado 5 de fevereiro de 2022, por Cardoso de Castro

ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. Trad. António Caeiro. Lisboa: Quetzal, 2015, p. 10-11

O sentido da palavra «perícia» é equívoco. «Perícia» pode ser um ofício ou uma profissão. Mas tem também o sentido de produção artística, arte. Em ambos os casos a língua grega faz pensar, de fato, numa fabricação, numa produção. O operador fundamental da perícia é o domínio de uma competência (artístico-técnica), a qual pode ser adquirida por aprendizagem. Para perceber de uma determinada perícia é necessário exercê-la, pô-la em prática, por assim dizer. Saber é fazer.

Ora é precisamente aqui que reside a diferença entre o agir e o produzir. O agir não admite perícia. Assim, se considerarmos, a respeito da produção, distintamente cada uma das partes envolvidas no seu processo, isto é, o produzir, o produtor (o perito ou o técnico) e o produto enquanto resultado da sua aplicação, percebemos a natureza da relação entre cada uma delas. Os entes produzidos por perícia (άπό τέχνης) existem, de fato, apenas sob a dependência e ação direta do Humano. Ou seja, sem perícia ou perito não existem apetrechos nem obras de arte. Contudo, os produtos de uma perícia são-lhe extrínsecos quando acabados.

Na ação não é assim. Quer dizer, não há aqui distinção entre ato, agente ou o resultado da ação. Agir enquanto tal alberga a priori tanto o seu princípio como o seu próprio fim. Por outro lado, agir e produzir têm em comum a natureza do horizonte em que acontecem. Trata-se de um horizonte que admite alteração. Depende do Humano enquanto o seu princípio e fundamento para existir. Mas é o agir, mais do que o produzir, que exprime o Humano enquanto Humano. O Humano enquanto prático é princípio da ação. É ele também que é tido em vista como o seu fim. É no agir que o Humano se pode cumprir na sua possibilidade extrema, como ser ético. A ação é a produção humana enquanto tal em sentido estrito.

A análise de Aristóteles permite-nos, assim, uma recondução do horizonte concreto da ação ao seu princípio. Contudo, o princípio da ação não está ao alcance de uma detecção cognitiva e puramente teórica. Na verdade, há uma distância abissal entre conhecer o princípio da ação e exprimi-lo no agir. O saber prático é adquirido apenas quando se converte em ação realizada. Isto é, não importa saber apenas qual é a possibilidade extrema do Humano, mas saber como ser-se essa possibilidade, existir nela, de acordo com ela, em vista dela. A possibilidade extrema do Humano é a de ele se tornar excelente. Saber o que fazer não é suficiente. Tem de se agir.