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A CONDIÇÃO HUMANA

Arendt (CH:Cap11) – produção

11 “O trabalho de nosso corpo e a obra de nossas mãos”

sábado 5 de fevereiro de 2022, por Cardoso de Castro

    

Roberto Raposo

À primeira vista, porém, é surpreendente que a era moderna – tendo invertido todas as tradições, tanto a posição   tradicional da ação e da contemplação   como a tradicional hierarquia dentro da vita   activa, com sua glorificação do trabalho   como fonte de todos os valores e sua elevação do animal   laborans à posição tradicionalmente ocupada pelo animal rationale – não tenha engendrado uma única teoria que distinguisse claramente entre o animal laborans e o homo faber, entre “o trabalho do nosso corpo e a obra de nossas mãos” Ao invés disso, encontramos primeiro a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo, e, um pouco mais tarde, a diferenciação entre obra qualificada e não qualificada, e, finalmente, sobrepondo-se a ambas, por ser aparentemente de significação mais fundamental, a divisão   de todas as atividades em trabalho manual e intelectual. Das três, porém, somente a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo vai ao fundo da questão, e não foi por acaso que os dois   grandes teóricos nesse campo  , Adam   Smith e Karl Marx  , basearam nela toda a estrutura   da sua argumentação. O motivo da promoção do trabalho na era moderna foi a sua “produtividade”; e a noção   aparentemente blasfema de Marx de que o trabalho (e não Deus  ) criou o homem  , ou de que o trabalho (e não a razão  ) distingue o homem dos outros animais, era apenas a formulação mais radical e consistente de algo com que toda a era moderna concordava. [v. animal laborans]

Ademais, tanto Smith quanto Marx estavam de acordo com a opinião   pública moderna quando menosprezavam o trabalho improdutivo, por considerá-lo parasitário, realmente uma espécie de perversão do trabalho, como se fosse indigna desse nome toda atividade   que não enriquecesse o mundo. Marx certamente compartilhava do desprezo de Smith pelos “criados domésticos” que, como “hóspedes preguiçosos (...), nada deixam atrás de si em troca do que consomem” [A riqueza   das nações (Ed. Everyman), II, 302]. No entanto, todas as eras anteriores à era moderna, ao identificarem a condição do trabalhador com a escravidão, tinham em mente   precisamente esses criados domésticos, esses habitantes do lar, oiketai ou familiares, que trabalhavam em vista da mera subsistência e eram necessários para o consumo isento de esforço, e não para a produção. O que eles deixaram atrás de si em troca do que consumiam foi nada mais nada menos que a liberdade, ou, na linguagem moderna, a produtividade potencial de seus senhores.

Em outras palavras, a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo contém, embora eivada de preconceito, a distinção mais fundamental entre obra e trabalho. [1] Realmente, é típico de todo trabalho nada deixar atrás de si, que o resultado do seu esforço seja consumido quase tão depressa quanto o esforço é despendido. E, no entanto, esse esforço, a despeito de sua futilidade, decorre de uma enorme premência e é motivado por um impulso mais poderoso que qualquer outro, pois a própria vida depende dele. A era moderna em geral e Karl Marx em particular, fascinados, por assim dizer, pela atual produtividade sem precedentes da humanidade ocidental, tendiam quase irresistivelmente a considerar todo trabalho como obra e a falar do animal laborans em termos muito mais adequados ao homo faber, como a esperar que faltasse apenas um passo para eliminar totalmente o trabalho e a necessidade  . [2]

Sem dúvida, a evolução histórica que tirou o trabalho de sua ocultação e o guindou ao domínio   público, onde pôde ser organizado e “dividido” [3] constituiu poderoso argumento   no desenvolvimento dessas teorias. Contudo, um fato ainda mais significativo nesse particular, já pressentido pelos economistas clássicos e claramente descoberto e enunciado por Karl Marx, é que a própria atividade   do trabalho, independentemente de circunstâncias   históricas e de sua localização no domínio privado ou no domínio público, possui realmente uma “produtividade” própria, por mais fúteis ou não duráveis que sejam os seus produtos. Essa produtividade não reside em qualquer um dos produtos do trabalho, mas na “força” humana, cujo vigor não se esgota depois que ela produz os meios de sua subsistência e sobrevivência, mas é capaz de produzir um “excedente” isto é, mais que o necessário à sua própria “reprodução” Uma vez que não é o próprio trabalho, mas o excedente da “força de trabalho” humana (Arbeitskraft), que explica a produtividade do trabalho, a introdução desse termo por Marx, como Engels observou corretamente, constitui o elemento   mais original e mais revolucionário de todo o seu sistema. [4] Ao contrário da produtividade da obra, que acrescenta novos objetos ao artifício humano, a produtividade da força de trabalho só incidentalmente produz objetos e preocupa-se fundamentalmente com os meios de sua própria reprodução; além disso, como a sua força não se extingue quando sua reprodução já está assegurada, ela pode ser utilizada para a reprodução de mais de um processo vital, mas nunca “produz” outra coisa senão “vida” [5]. Mediante violenta opressão   em uma sociedade de escravos, ou mediante a exploração na sociedade capitalista da época de Marx, essa produtividade pode ser canalizada de tal forma que o trabalho de alguns é bastante para a vida de todos.

Original

It is surprising at first glance, however, that the modern age—with its reversal of all traditions, the traditional rank of action and contemplation no less than the traditional hierarchy within the vita activa itself, with its glorification of labor as the source of all values and its elevation of the animal laborans to the position traditionally held by the animal rationale—should not have brought forth a single theory in which animal laborans and homo faber, “the labour of our body and the work of our hands,” are clearly distinguished. Instead, we find first the distinction between productive and unproductive labor, then somewhat later the differentiation between skilled and unskilled work, and, finally, outranking both because seemingly of more elementary significance, the division of all activities into manual and intellectual labor. Of the three, however, only the distinction between productive and unproductive labor goes   to the heart of the matter, and it is no accident that the two greatest theorists in the field, Adam Smith and Karl Marx, based the whole structure of their argument upon it. The very reason for the elevation of labor in the modern age was its “productivity,” and the seemingly blasphemous notion of Marx that labor (and not God) created man or that labor (and not reason) distinguished man from the other animals was only the most radical and consistent formulation of something upon which the whole modern age was agreed.

Moreover, both Smith and Marx were in agreement with modern public opinion when they despised unproductive labor as parasitical, actually a kind of perversion of labor, as though nothing were worthy of this name which did not enrich the world. Marx certainly shared Smith’s contempt for the “menial servants” who like “idle guests . . . leave nothing behind them in return for their consumption.” Yet it was precisely these menial servants, these household inmates, oiketai or familiares, laboring for sheer subsistence and needed for effortless consumption rather than for production, whom all ages prior to the modern had in mind when they identified the laboring condition with slavery. What they left behind them in return for their consumption was nothing more or less than their masters’ freedom or, in modern language, their masters’ potential productivity.

In other words, the distinction between productive and unproductive labor contains, albeit in a prejudicial manner, the more fundamental distinction between work and labor. It is indeed the mark of all laboring that it leaves nothing behind, that the result of its effort is almost as quickly consumed as the effort is spent. And yet this effort, despite its futility, is born of a great urgency and motivated by a more powerful drive than anything else, because life itself depends upon it. The modern age in general and Karl Marx in particular, overwhelmed, as it were, by the unprecedented actual productivity of Western mankind, had an almost irresistible tendency to look upon all labor as work and to speak of the animal laborans in terms much more fitting for homo faber, hoping all the time that only one more step was needed to eliminate labor and necessity altogether.

No doubt the actual historical development that brought labor out of hiding and into the public realm, where it could be organized and “divided,” constituted a powerful argument in the development of these theories. Yet an even more significant fact in this respect, already sensed by the classical economists and clearly discovered and articulated by Karl Marx, is that the laboring activity itself, regardless of historical circumstances and independent of its location in the private or the public realm, possesses indeed a “productivity” of its own, no matter how futile and non-durable its products may be. This productivity does not lie in any of labor’s products but in the human “power,” whose strength is not exhausted when it has produced the means of its own subsistence and survival but is capable of producing a “surplus,” that is, more than is necessary for its own “reproduction.” It is because not labor itself but the surplus of human “labor power” (Arbeitskraft) explains labor’s productivity that Marx’s introduction of this term, as Engels rightly remarked, constituted the most original and revolutionary element of his whole system. Unlike the productivity of work, which adds new objects to the human artifice, the productivity of labor power produces objects only incidentally and is primarily concerned with the means of its own reproduction; since its power is not exhausted when its own reproduction has been secured, it can be used for the reproduction of more than one life process, but it never “produces” anything but life. Through violent oppression in a slave society or exploitation in the capitalist society of Marx’s own time, it can be channeled in such a way that the labor of some suffices for the life of all.


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[1A distinção entre trabalho produtivo e improdutivo se deve aos fisiocratas, que diferenciavam entre classes produtoras, proprietárias e estéreis. Como afirmavam que a fonte original de toda produtividade residia nas forças naturais da terra, o critério de produtividade que adotavam tinha a ver com a criação de novos objetos, e não com as necessidades e carências dos homens. Assim, o marquês de Mirabeau, pai do famoso orador, chama de estéril “la classe d’ouvriers dont les travaux, quoique nécessaires aux besoins des hommes et utiles à la société, ne sont pas néanmoins productifs”, e exemplifica sua distinção entre obra estéril e produtiva comparando-a à diferença entre cortar uma pedra e produzi-la (cf. Jean Dautry, “La notion de travail chez Saint-Simon et Fourier”. Journal de psychologie normale et pathologique, v. LII, n. 1, jan./mar. 1955).

[2Essa esperança acompanhou Marx do princípio ao fim. Já a encontramos na Deutsche Ideologie: “Es handelt sich nicht darum die Arbeit zu befreien, sondern sie aufzuheben” (Gesamtausgabe, Parte I, v. 3, p. 185) e, muitas décadas depois, no terceiro volume de Das Kapital, Capítulo 48: “Das Reich der Freiheit beginnt in der Tat erst da, wo das Arbeiten (...) aufhört” (Marx-Engels Gesamtausgabe, Parte II [Zurique, 1933], p. 873).

[3Em sua introdução ao segundo livro de A riqueza das nações (Ed. Everyman, I, p. 241 ss.), Adam Smith destaca que a produtividade se deve antes à divisão do trabalho que ao próprio trabalho.

[4Cf. a Introdução de Engels ao “Wage, labour and capital”, de Marx (em Marx & Engels, Selected works, Londres, 1950, I, 384), no qual Marx introduzira o novo termo com certa ênfase.

[5Marx sempre ressaltou, especialmente em sua juventude, que a principal função do trabalho era a “produção da vida” e, portanto, considerava o trabalho em conjunto com a procriação (cf. Deutsche Ideologie, p. 19, e “Wage, labour and capital”, p. 77).