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A arete como possibilidade extrema do humano

Caeiro (Arete:104-105) – retórica

§18. Excurso: a reprodução poética (μίμησις ποιητική) como retórica (ῥητορική).

quinta-feira 3 de fevereiro de 2022, por Cardoso de Castro

CAEIRO, António de Castro  . A arete como possibilidade extrema do humano. Fenomenologia da práxis em Platão e Aristóteles. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002, p. 104-105

A tematização das situações humanas levadas a cabo pela reprodução imitadora (μίμησις [mimesis]) faz, por conseguinte, abstração, ou seja, exerce uma epoché (ἐποχή [epoche]) sobre o sentido da excelência (ἀρετή [arete]) e da perversão (κακία [kakia]), ou então, reduz estes sentidos respectivamente ao prazer e ao sofrimento. A reprodução imitadora (μίμησις) seleciona apenas o que é agradável (ἡδύ [hedu]), rejeitando o que é desagradável (ἀηδές [andes]), e, por isso mesmo, deixa fora de jogo o horizonte estrutural balizado pelos limites perversão-excelência (κακία-ἀρετή).

A possibilidade de tematizar este horizonte é dada, todavia, porquanto ele se encontra sempre co-presente. Quando somos confrontados com as mais diversas situações e com o modo como os homens se relacionam entre si ou com aquilo que lhes acontece, há sempre uma melhor forma de agir e uma maneira melhor de ser que destacamos de um agir mal. Pela tematização do modo como a reprodução (μίμησις) abre sobre estes acontecimentos da vida, podemos [104] perceber o defeito de que padece, na medida em que exacerba um mundo patalógico, interpretando as possibilidades extremas da ação humana — a de, tendo em vista o que lhe é autêntico, apropriar-se das suas verdadeiras possibilidades ou de deixar-se destruir —, como sendo, respectivamente, prazer e sofrimento.

Esta perspectiva é a da retórica. Tanto a tragédia como a retórica só fazem surtir o seu efeito «na multidão» [1]. Ambas procuram agradar, dar prazer, fazer que o prazer pareça ser o melhor de tudo. O seu único intuito é seduzir e provocar prazer, mesmo quando está em causa um espetáculo de situações terríveis como a injustificação: a adversidade do destino, o incesto, a loucura, o assassínio, a traição, o adultério, a morte, a impossibilidade, etc. Como é que estas situações nos podem fazer regozijar? Como, se já na compreensão natural as interpretamos como más? [CaeiroArete:104-105]


[1Gór., 502c9. Esta situação é precisamente aquela de que partem os sofistas. (República, 493a7).