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De Anima

Aristóteles (A:3.2, 425b26-426a26) – percepção e percebido

quinta-feira 27 de janeiro de 2022, por Cardoso de Castro

    

Gomes dos Reis

425b26. A atividade   do objeto perceptível e da percepção sensível   são uma e a mesma, embora para elas o ser   não seja o mesmo (quer dizer, o som   em atividade   e a audição em atividade, por exemplo). Pois é possível o que tem audição não estar ouvindo, e o que tem som nem sempre soa. Mas quando o que pode ouvir está em atividade e o que pode soar soa, então a audição em atividade ocorre simultaneamente ao som em atividade (e uma delas podería ser chamada de ato de ouvir e a outra de sonância). Se o movimento   — a saber, a produção [e a afecção  ] — se dá naquele em que é produzido, há necessidade   de dar-se na audição em potência tanto o som como a audição em atividade. Pois a atividade do capaz de produzir e de mover ocorre naquele que é afetado, pelo que não há necessidade de mover-se o que faz mover. A atividade do capaz de soar, então, é som ou sonância, e a do capaz de ouvir é audição ou ato de ouvir; pois há a audição de dois   modos  , bem como o som. O mesmo argumento   se aplica no caso dos demais sentidos e objetos perceptíveis. Pois tal como a produção e a afecção ocorrem no que é afetado e não no que produz, assim também a atividade do objeto perceptível e do capaz de perceber dá-se no capaz de perceber. Mas, em alguns casos, há denominação própria (por exemplo, sonância e audição), em outros não há denominação; pois a atividade dos olhos é chamada de visão  , ao passo que a da cor não tem nome; e é chamada de gustação a do que é capaz de degustar, mas tampouco tem nome a atividade do sabor  .

426a15. Já que a atividade do perceptível e a do capaz de perceber são uma única, embora o ser seja diverso, há necessidade de simultaneamente destruírem-se ou conservarem-se o som e a audição ditos daquele modo, o sabor e a gustação e assim por diante. Mas enquanto ditos em potência, não há necessidade. Os antigos fisiólogos não enunciaram isso bem ao supor que não há nada — nem branco, nem preto — sem a visão, tampouco sabor sem a gustação. Por um lado, enunciaram corretamente, mas, por outro, não. Pois como de dois modos se diz a percepção sensível [106] e o objeto perceptível — em potência e em atividade —, o enunciado procede no segundo caso, mas não no primeiro. Eles enunciaram de maneira simples o que não se enuncia de maneira simples.

Alan Lacey

The actuality of what is perceived and of perception is one and the same but their being is not the same. I mean, e.g., actual sound and actual hearing; for it is possible to have [the faculty of] hearing without [actually] hearing, and what has [the capacity to make a] sound is not always sounding, but when what can hear is actually doing so, and what can sound is sounding, then actual hearing (akoe) occurs at the same time as the actual sound and one could call one of them [the act of] hearing (akousis) and the other sounding. If moreover change (both the action (poiesis  ) and its result (pathos)) are in the thing acted on, the sound and the actual [124] hearing (akoe) must be in the potential [hearing]. For the actualisation of the agent (poietikos) and of change occurs in what is changed, which is why what is [actively] changing [i.e. causing change], need not be changed. Now the actualisation of the sounder is sound or sounding, and that of the hearer is hearing (akoe) or audition (akousis); for hearing (akoe) has a double sense, and so does sound.

[426a8] And the same story (logos  ) holds for the other senses (aistheseis) and sensibles. For as acting and being acted on both occur in what is acted on and not in what acts, so the actualisation both of the perceived and of the perceiver [occurs] in the perceiver. But in some cases it has a name, as with ‘sounding’ and ‘audition’, while in others one term has no name; for the actuality of sight is called ‘seeing’ but that of colour has no name, and that of [the faculty of] taste [is called] ‘tasting’, but that of flavour has no name. And since the actuality of the perceived and of the perceiver is one, though their being is different, what is in this way called hearing (akoe) and sound must perish or be preserved together, and [so must] flavour and tasting, and similarly in the other cases; but [this is] not necessary with things spoken of potentially. But the earlier philosophers of nature (phusi-ologoi) did not speak well   here, thinking nothing was white or black without sight, nor a flavour without tasting, for they spoke rightly in one way but not rightly in another. For since ‘perception’ and ‘perceived’ are said in two ways, in some cases in potentiality and in others in actuality, what they said holds of the latter cases but not of the former. But they spoke in a simple way (haplos) of things which are not spoken of in a simple way.