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RELER PLATÃO

Mesquita (RP:64-66) – eidos - idea

quarta-feira 26 de janeiro de 2022, por Cardoso de Castro

A hipertrofia destes termos [ἰδέα/εἶδος], como marcas designativas de toda a ontologia platônica, é aliás, muito provavelmente, de origem aristotélica (cf. Metaph., A, 5, 987b7-8, b32), embora possa ser reconduzida a algumas formulações clássicas do próprio Platão [...].

Todavia, como é geralmente notado, as preocupações de Platão com a terminologia são, em regra, marginais, o que explica uma razoável flutuação vocabular, agravado no caso dos dois termos em presença pelo facto de o uso platônico ser já importado do léxico corrente na sua época, ao qual ele dá um tratamento filosófico, mercê da integração no seu pensar.

Tal acarreta que a rigidez conceitual e concomitante centralidade com que estes vocábulos se perfilam na audição posterior da doutrina platônica não corresponda a uma semelhante fixidez e importância no contexto da própria terminologia original. Com efeito, desinseridos de um uso propriamente técnico, tais vocábulos nem sempre ocorrem onde em linguagem moderna os esperaríamos encontrar e, inversamente, surgem frequentemente em locais e com sentidos que antecipadamente não seria possível suspeitar; e isto significa, em concreto, que o seu uso não tem rigorosamente a mesma extensão do que qualquer das versões escolhidas para registar a sua acepção central.

Perante esta situação, torna-se extremamente difícil definir uma versão constante para o par ἰδέα/εἶδος, ainda que apenas para as ocorrências estritas e técnicas, como é o caso das referências acima apontadas, e principalmente se nos cingirmos às duas possibilidades habitualmente postas à disposição, a saber, a tradicional tradução por «ideia» e a mais recente opção por «forma».

Três fatores, de algum modo já aludidos, concorrem para isso: 1 — o facto de ἰδέα e εἶδος intervirem em muitos contextos em que é manifestamente impossível vertê-los por qualquer daquelas duas hipóteses e por vezes mesmo precedendo ou sucedendo um uso claramente técnico; 2 — a circunstância de, para este sentido técnico de ἰδέα/εἶδος, Platão convocar também outras expressões, tais como γένος, τύπος, σχῆμα, παράδειγμα, e também οὐσία, φύσις, ἀρχή e αἰτία; 3 — o fato de a reivindicação platônica expressa dos termos ἰδέα/εἶδος, a que assistimos nas referências citadas, ser também acompanhada pela reivindicação, igualmente expressa e enfática, de outras expressões, como sejam: αὐτὸ καθ’ αὐτό («em si e por si mesmo»; cf. Ti., 51b) e ὅ ἔστιν ou αὐτὸ ὅ ἔστιν («o que é», «o que propriamente é»; cf. Phd., 75cd, 92d; R., VII, 531c-532b, 533ab 28).

Por outro lado, de entre as restantes alternativas disponíveis, traduções como «espécie» e «caráter», de uma parte, e «aspecto», de outra, levantam os mesmos problemas de ideia e forma, i. e., não logram cobrir a totalidade das ocorrências, quer por acentuarem uma vertente tardia ou mesmo aristotelizante do platonismo, quer por constituírem opções demasiado vagas e fracas, pese embora a sua potencial generalidade.

A ambiguidade mantém-se, portanto, e mantém-se porque está no âmago mesmo da linguagem e do pensamento platônicos. Resta, pois, na impossibilidade de decidir, optar por aquela tradução que, perante determinados critérios, pareça mais apropriada.

Ora, a nosso ver, tal opção coloca-se entre manter deliberadamente a ambiguidade que encontrámos em ἰδέα/εἶδος ou escolher uma expressão que, cobrindo eventualmente um maior número de casos, possua outrossim um sentido mais determinado: e tal é justamente a opção que se coloca entre ideia e forma.