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Platão: O Cosmo, o Homem e a Cidade

Gazolla de Andrade: Alma do Mundo

Um Estudo Sobre a Alma

quinta-feira 13 de janeiro de 2022

GAZOLLA DE ANDRADE, Rachel. Platão: O Cosmo, o Homem e a Cidade. Um Estudo Sobre a Alma. Petrópolis: Vozes, 1994.

Platão expõe nesse diálogo mítico [Timeu  ] a forma?ção do cosmo?, iniciando? sua reflexão com uma primeira? divisão fundamental através da pergunta?: qual é o ser que é sempre (to ón aei?) e não nasce nunca, e qual aquele que, nascendo sempre, nunca é (28a)? A partir dessa indagação que anuncia o dualismo? platônico de princípios, seguiremos passo a passo esse? primeiro movimento? do diálogo, uma vez? que o filósofo irá apresentar dois começos na sua lógica argumentativa sobre a gênese do cosmo. O primeiro, que corresponde ao nascimento da Alma? do Mundo?, e o segundo que, projetado? no primeiro, explica o nascimento do Corpo? do Mundo pela introdução da noção de chora?. Como há, necessariamente, diz ele, uma causa para o que nasce, o cosmo teria uma causa primeira tecnicamente apresentada através da figura? mítica do demiurgo?, art?ífice perfeito? que, olhando para o ser que não nasce (ser eterno, inengendrado), imita-o na medida? do possível. O mundo, portanto, é uma cópia do ser eterno, jamais podendo tornar-se o modelo?, e sua beleza? advém da ordem? estabelecida através dessa ação imitadora que trabalha uma "massa? desordenada", visível e tangível (30a). A noção de "massa desordenada" é embaraçosa, e Platão, sem explicá-la, voltará a ela quando do nascimento dos corpos. Passa a narrar o nascimento da alma, tendo deixado claro que o engendrado é sempre fruto de uma techne?, questão que tem consequências na sua própria visão de filosofia? e do filósofo.

Nessa exposição de configuração técnica, como é constituída a alma? Se ela foi considerada, anteriormente, uma realidade? imortal?, autônoma, causa do movimento de todas as coisas? e diretora delas, como harmonizá-la com a necessidade? demiúrgica de ordenação do todo, da alma inclusive que precisará nascer de modo? ordenado? O primeiro movimento do Timeu   serve a Platão para que especifique o Cosmo participante do belo e do bom, porque feito à imagem? daquilo que é objeto? de intelecção e de reflexão (prós tó lógô kaíphronései) (29a). O filósofo estrutura? os princípios para a construção da "Alma do Mundo?".

A alma constitui-se como um ser advindo da mistura? das substâncias primeiras (do ser eterno e do que devem), a serem harmonizadas pelo demiurgo. Num momento? posterior, quando o filósofo se vê obrigado a expor o papel? da necessidade (ananke?) nesse cosmo, seu logos? abre-se para duas vertentes: a do inteligível e a da necessidade. Constituída a alma no primeiro momento, isto a sinaliza como um ser exterior? à Necessidade. Quanto à segunda geração, é preciso seguir a reflexão platônica e aguardar o momento de esclarecê-la. Acompanhemos de perto sua exposição.

Na "fabricação" da alma, a ação demiúrgica é sua causa, o que parece contrariar sua afirmação como causa primeira das coisas geradas, exposta nas Leis?, e que indica a concepção física mais ampla do filósofo. Diz ele a respeito? do que nasce:

"...É preciso que o que nasce seja corpóreo (somatoeides), logo, visível e tangível..." (31b).

É claro que Platão fala?, nesse trecho, da gênese dos corpos, mas o Cosmo é mais que o conjunto de corpos e guarda? duas gêneses. A tradução de somatoeides como corpo será repensada no momento oportuno. Por ora, aceitemos que essa expressão seja o visível e o tangível. Todavia, sabemos que a alma não é visível nem tangível, portanto Platão não está usando a mesma ideia? de geração corpórea para a gênese da alma. Anterior às coisas corpóreas e causa de seu movimento, ela é também cópia de um modelo inteligível anterior à physis? enquanto totalidade? de corpos sujeitos à geração e corrupção, e sua invisibilidade e intangibilidade provêm, miticamente, de um artífice divino? que trabalha com invisíveis-inteligíveis (as ideias?). Edificam-se três níveis ontológicos: os princípios modelares, a alma e os corpóreos. É necessário compreender? suas mútuas relações, parte? explicitadas no Timeu  , parte nos diálogos que elegemos para esse trabalho?.

No primeiro momento do Timeu  , o demiurgo fez o cosmo inteligente? e com alma, colocando a Inteligência na Alma e esta no Corpo, nessa sequência, portanto, não esqueçamos que os corpos ordenados e vivos que compõem o mundo são posteriores ao noûs, às ideias e à Alma. A noção de physis entendida agora? na amplitude? que lhe deu Platão, transcende o conjunto dos corpos ditos? físicos e abarca o incorpóreo "psíquico". Desse modo, a "massa desordenada" tangível e visível de que fala Platão nesse início, está separada da alma. Sendo? principal, ele se vê obrigado a citá-la, mas só a explicar?á posteriormente. E sendo uma das archai? do Cosmo, é anterior à alma, apesar de? esta não participar? daquela.

Ao discorrer sobre o nascimento da alma, Platão coloca-a num tipo? de geração muito específico, a geração a partir das ousiai primordiais. A geração da alma apresenta-se enquanto vir-a-ser metafísico e não cronológico, daí o auxílio da narração mítica, pois, como ele mesmo? afirma no início, há certas coisas de difícil acesso? para a boa explicação em palavras?.

Pela ação demiúrgica, a alma é uma mistura de duas características pertinentes aos dois seres primordiais, numa clara alusão à geração dos gene, no Sofista  : o indivisível do ser que é sempre, denominado Mesmo, e o divisível do ser que sempre devem, denominado Outro. A harmonização de realidades contrárias não se faz sem esforço. O demiurgo obriga a união do Mesmo e do Outro formando uma terceira realidade, e une a esta terceira as duas primeiras, formando outra, que é a alma. Portanto, uma primeira definição da alma no Timeu  , quanto aos seus princípios, é a de ser uma ousia? derivada de uma mistura primordial antagônica, uma síntese de contrários, como também disse Pitágoras: M + O = M } M + O + MO = PSYCHE. O indivisível e o divisível (ou como Platão dirá no Filebo  , o péras e o ápeiron) acompanharão a alma em todas as suas manifestações, em graus diversos [1]. Comportar-se segundo o Mesmo é para a alma aproximar-se do ser que é sempre, isto sendo expresso segundo explicita o Fedro  , na potência que ela tem de pensar?. Guardando, também, o divisível referido ao ser que devêm, a alma tem movimento e formas diversas que podem ter maior ou menor semelhança com a permanência do ser, que é sempre ou de seu contrário, dependendo da maior ou menor proximidade? da alma com o múltiplo, ou está com o uno?.

Para que a plasticidade da alma possa ser representada na sua ligação com o tangível e sens?ível, o demiurgo tem que unir naturezas diversas, ainda uma vez, quando da implantação da Alma do Mundo no Corpo do Mundo, isto sendo feito na medida do possível, ou seja, até onde a Necessidade puder ser dominada, afirma Platão sem ainda esclarecer tão importante noção.

Seguindo o próprio ritmo? platônico, essas afirmações sobre o nascimento da alma têm consequências difíceis: se a alma é engendrada e implantada no corpóreo segundo determinação demiúrgica, há um soma? primordial sem alma que ele nomeia "massa desordenada" ou Necessidade? Para responder tal questão, é preciso compreender a noção de matéria, diferenciada, a nosso ver?, da noção de corpóreo, e à relação de ambos, matéria e corpóreo, com a alma.


[1Outro modo de expressar a composição da Alma é, segundo acredita F. Wolf (cf. conversas que agradeço), aquela exposta por L. Brisson em obra recente a que não tivemos acesso (Timeu/Crítias): 1) mistura-ser indivisível, ser divisível, mesmo indivisível, mesmo divisível, outro indivisível, outro divisível; 2) mistura-ser intermediário, mesmo intermediário, outro intermediário; resultado: a alma do mundo. No texto de Platão, no entanto, não há como explicitar essa grade que pode estar corretamente ampliada pelo seu autor, por sugestão do texto platônico.