Página inicial > Modernidade > LusoSofia > Vicente Ferreira da Silva (1916-1963) > Ferreira da Silva (TM:76-78) — imaginação

TRANSCENDÊNCIA DO MUNDO

Ferreira da Silva (TM:76-78) — imaginação

Liberdade e Imaginação

sexta-feira 7 de janeiro de 2022

FERREIRA DA SILVA  , Vicente. Transcendência do Mundo. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 176-178

Em todos os campos? das forma?ções culturais?, assistimos a essa transfiguração do simplesmente dado? a uma livre? transformação do material? encontrado. Não só, entretanto, nas produções objetivas da cultura deparamos com esse? trabalho? da fantasia?, mas, no mesmo? grau?, vislumbramos esse poder? na vida? psicossomática. O nosso corpo?, enquanto aparato expressivo fisionômico, o que é senão o teatro? de uma contínua atividade? imaginativa?

As mãos e o rosto oferecem a esse respeito? oportunidades para desenvolvimentos? dramáticos e expressivos, os mais surpreendentes. A fantasia das mãos e do rosto, a fantasia coreográfica do nosso corpo, constitui a livre disponibilidade? para comunicações sociais e culturais inacessíveis a outros tipos? de linguagem?. Podemos dizer em princípio que nada? se furta à profunda operação formativa da imaginação, constituindo essa o poder soberano da exist?ência. O que denominamos liberdade, a noção e a realidade? de autodeterminação da consciência, está essencialmente? ligada à facultas imaginandi. É, no fundo, a imaginação que desdobra diante de nós as diversas alternativas de uma dada situação, o território opcional onde pode aprofundar-se a nossa escolha?. O domínio de jogo? das nossas possibilidades de ação nasce da prospecção operada pela consciência e pela fantasia das diversas fases e aspectos de uma dada conjuntura. Ninguém pode ser livre enquanto simples? coisa? solidária e consecutiva em relação ao conjunto do dado. Ser livre significa um ir-além-de-si-mesmo, um dépassement do conjunto do já realizado e do já dado. Ora, esse dépassement nasce da estrutura? projetivo-imaginativa da consciência ou, como afirma Herman Glockener, da “idealidade?” ou da referência aos possíveis do nosso “Eu?”. [1] O próprio conhecimento? [176] das coisas? que nos rodeiam, a própria percepção ou representação dos objetos? circundantes nos remete a uma contínua abertura de virtualidades de conhecimentos e ação, na prospecção imaginativa das ações possíveis que se estampam e delineiam no perfil do percebido?. Nesse sentido? as próprias coisas já são “imagens?” enquanto nos devolvem continuamente, como imagens refletidas e na forma de meios e utensílios, às potencialidades dormentes de uma ação; e quem diz ação na escala humana refere-se ao cumprimento de finalidades ou teleologias bosquejadas pelo Eu cultural. A potência criadora da imaginação que transforma o nosso corpo num aparato semântico, transforma uma acepção universal? e total, o universo? das coisas ou pré-coisas, num universo apropriado? e possuído pelo Espírito?. A imaginação é nesse sentido um processo? de transcendência e ação. “Todo o nosso desenvolvimento”, afirma Nietzsche  , “é percebido por uma imagem ideal?, produto de nossa imaginação; a evolução verdadeira é-nos desconhecida. Nós somos constrangidos a traçar? essa imagem”. [2] Na concatenação profunda do pensamento? de Nietzsche  , a potência da imaginação criadora representa um papel? filosófico primordial. A vontade? de poder, realidade última das coisas, “fato? último ao qual nós podemos aceder”, é para ele uma vontade de plasmação art?ística, é um aperfeiçoamento total das coisas pela vis poetica, pela subjetividade? artístico-metafísica.

Essa força não é para ele um apanágio humano?, não está centrado no homem, como podemos depreender desses enunciados? do filósofo: “A subjetividade do universo não é uma subjetividade antropomórfica, mas cósmica, nós somos os personagens que passam no sonho? de um deus? e que se tornam o que ele sonha”. Essa subjetividade não poderia ser, segundo Nietzsche  , vinculada ao eu humano, desde que o próprio sujeito?, o Ego, a alma?, não são para ele senão ficções, criações, representações fluidas no vir a ser? histórico. Para Nietzsche   o [177] próprio Eu (Ich?, Selbst) é posto pelo pensamento ou imaginação macroscópica que interpreta e projeta o mundo?.


[1Cf. “Zum Freiheits Problem, Meditationen.” ln: Zeitschrifffur Philosophische Forschung, Band XIV, Heft 4, oktober-dezember 1960, p. 553-570. (N. A.)

[2Nietzsche, La Volonté de Puissance: I. Texto de F. Wurzbach. Trad. de G. Bianquis. Paris, Gallimard, 1942. (N. A.)

2 visiteurs en ce moment