Página inicial > Modernidade > Marc Bloch: o presente e o passado

Apologie pour l’Histoire

Marc Bloch: o presente e o passado

Métier d’Historien

quarta-feira 22 de dezembro de 2021, por Cardoso de Castro

      

Marc Bloch, Apologie   pour l’Histoire ou Métier d’Historien, 1949, pp. 11-14

      

O homem   passa o tempo   a montar mecanismos de que se torna depois prisioneiro mais ou menos voluntário  . Que observador, percorrendo as províncias francesas do Norte, se não impressionou com o estranho desenho dos seus campos? A despeito das atenuações que as vicissitudes da propriedade trouxeram, no decurso das idades, ao esquema primitivo, o espetáculo   dessas fitas, desmesuradamente estreitas e alongadas, que dividem o solo arável num número   prodigioso de parcelas ainda hoje é de molde   a confundir o agrônomo. Não pode contestar-se a dissipação de esforços causada por tal disposição   das terras, nem os incômodos que impõe aos cultivadores. Como explicá-lo? Pelo Código Civil e seus inevitáveis efeitos, responderam publicistas apressados em demasia. Modificai, portanto, as leis sobre herança, acrescentavam eles, e suprimireis assim todo o mal. Se soubessem mais história, se tivessem também interrogado melhor uma mentalidade camponesa formada por séculos de empirismo, haveriam de julgar o remédio menos fácil. Com efeito, essa estrutura   remonta a origens tão recuadas que nenhum sábio  , até agora, a explicou de modo satisfatório; provavelmente é maior a responsabilidade   dos arroteadores da época dos dólmens do que a dos legistas do Primeiro Império. Como o erro   sobre a causa se continua, como acontece quase necessariamente, em erro   de terapêutica, a ignorância do passado   não se limita a prejudicar o conhecimento do presente; compromete, no presente, a própria ação. [...]

A incompreensão do presente nasce fatalmente da ignorância do passado. Mas não é talvez coisa menos vã consumirmo-nos a compreender o passado, se nada sabemos do presente. Já contei algures a anedota: acompanhava, em Estocolmo, Henri Pirenne; mal chegamos, diz-me ele: «Que vamos nós ver primeiro? Parece que há uma Câmara Municipal construída há pouco. Comecemos por ela.» Depois, como se quisesse prevenir a minha surpresa, acrescentou: «Se fosse antiquário, teria apenas olhos para as coisas velhas. Mas sou   historiador. Por isso eu amo a vida.» É essa qualidade   de apreensão   do vivo, efetivamente, a qualidade mestra do historiador. Não nos deixemos iludir por certas friezas de estilo; os maiores de entre nós todos a possuíram: Fustel ou Maitland, à sua maneira, que era mais austera, não menos que Michelet. E talvez ela seja, na sua raiz, um dom de fada, que ninguém conseguirá alcançar se não a trouxe do berço. Mas nem por isso deverá deixar de ser constantemente exercitada e desenvolvida. Mas como, se não pelo modo de que o próprio   Pirenne dava exemplo, por um perpétuo contato com o presente?

Porque o frêmito de vida humana, que só todo um duro   esforço de imaginação   restitui aos velhos textos, é aqui diretamente perceptível pelos nossos sentidos. Muita vez eu lera, muita vez contara narrativas de guerra   e de batalhas. Mas conhecia eu verdadeiramente, no pleno   sentido do verbo conhecer, conhecia eu por dentro, antes de ter experimentado a náusea atroz, o que são o cerco para um exército, a derrota para um povo? Antes de eu próprio ter respirado, no Estio e no Outono de 1918, a alegria   da vitória — esperando, creio bem, encher dela outra vez os meus pulmões: mas o perfume, ai de mim!, não será precisamente o mesmo [Oficial do Estado-Maior do exército francês, prisioneiro dos Alemães e fuzilado em 16 de Junho de 1944, Marc Bloch não chegou a conhecer a «alegria da vitória».] —, sabia eu verdadeiramente o que contém essa bela palavra? Na verdade  , conscientemente ou não, é sempre às nossas experiências quotidianas, matizando-as, onde for preciso, de novas tintas, que vamos buscar, em última análise, os elementos   que nos servem para reconstituir o passado: os próprios nomes de que usamos para caraterizar os estados de alma   desaparecidos, as formas sociais desvanecidas, que sentido teriam para nós se não tivéssemos visto primeiro viver   os homens? Mais vale mil vezes substituir   essa impregnação instintiva por uma observação   voluntária e controlada. Um grande matemático não será menos grande, suponho, por ter atravessado de olhos fechados o mundo em que vive. Mas o erudito que não tem o gosto   de olhar em torno de si nem os homens, nem as coisas, nem os acontecimentos, merecerá talvez, como dizia Pirenne, o nome de um útil   antiquário. Mas será obra de sensatez   renunciar ao de historiador.