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CARTAS

Platão (Carta VII:340b-344d) — seriedade filosófica

Carta VII

quinta-feira 16 de dezembro de 2021, por Cardoso de Castro

      

Tradução brasileira de A. Pinto de Carvalho, RBF, volume   XII, fasc. 48, Outubro-Dezembro de 1962

      

Pinto de Carvalho

À minha chegada, pensei que devia, antes de mais nada, certificar-me se Dionísio estava na verdade   enamorado da filosofia, ou se era destituído de fundamento tudo quanto me havia sido dito em Atenas. Ora, para obter a prova disto, existe um método não destituído de valor   e sumamente eficaz a quem tem de enfrentar tiranos, principalmente quando estes estão cheios de expressões filosóficas mal compreendidas; e este era o caso de Dionísio, como tive ocasião de verificar logo após minha chegada. A pessoas desta categoria   é preciso mostrar-lhes quão vasta seja a filosofia, qual o seu caráter, as dificuldades que apresenta e o trabalho   que exige. Se o ouvinte é genuíno filósofo, apto   para esta ciência e digno dela porque dotado para tal pela divindade  , maravilhosa se lhe afigura a senda mostrada, e persuade-se que tem de enveredar por ela imediatamente, e que lhe não é possível seguir outro gênero   de vida. Redobrando então de esforços e estimulando seu guia  , não pára antes de haver alcançado a meta ou adquirido força bastante para em sua conduta poder prescindir do auxílio do instrutor. É nesta disposição   de espírito   que tal homem   vive: aplica-se decerto a suas ações quotidianas, mas sempre e em tudo se mantém afeiçoado à filosofia, àquele teor de vida que, mercê da sobriedade   que observa em seu comportamento  , lhe confere maior capacidade de aprender  , de reter e de raciocinar. E qualquer outro modo de proceder só lhe inspira repugnância. Mas os que não são genuínos filósofos e se contentam com um verniz de opiniões superficiais, como as pessoas cujo corpo é tostado pelo sol, ao verem quantas coisas precisam de aprender, quanto têm de labutar, e que este regime de vida quotidiano é o único adequado a semelhante objetivo, acham que este estudo é árduo e impossível para eles, tornando-se assim incapazes de o cultivar, e alguns chegam a persuadir-se que já conhecem suficientemente a doutrina que se lhes ensina e que não precisa mais de se afadigar estudando-a. Esta é uma experiência clara e seguríssima para avaliar pessoas dadas aos prazeres e incapazes de se esforçarem. Assim sendo, só a si, e não aos mestres, podem acusar, se não logram praticar tudo aquilo que é necessário à filosofia.

Foi, valendo-me deste processo, que falei então a Dionísio. Contudo não esgotei o assunto, nem Dionísio deu azo a que eu o fizesse, visto dar a impressão   de ser pessoa   que possuía vastos conhecimentos dos mais sublimes, e que os possuía cabalmente, por tê-los ouvido a outros. Fui informado que, mais tarde, escreveu sobre estas questões então aprendidas por ele, um tratado, apresentando-o como obra de sua lavra, e não como reprodução do que aprendera. Mas ignoro até que ponto seja exata a informação. Outros, bem o sei, escreveram sobre estas mesmas matérias. Simplesmente, que juízo   podemos formar de pessoas que a si próprias não se conhecem? Em todo caso, uma coisa há que posso afirmar   daqueles que escreveram ou escreverão e se julgam competentes naquilo que constitui o objeto de minhas preocupações, quer tenham sido ensinados por mim ou por outrem, quer o tenham descoberto por seu trabalho pessoal: em meu entender, é impossível que eles compreendam alguma coisa do assunto. De minha autoria, ao menos, não há nem haverá certamente, qualquer escrito sobre tais matérias, dada a impossibilidade de as traduzir em fórmulas, como sucede com as demais ciências; só após longa meditação   destes problemas, o íntimo convívio com os mesmos, a verdade jorra de súbito   na alma  , do mesmo modo que a luz   brota do fogo  , e só então cresce por si. Sei todavia que, se mister fosse expor minha doutrina por escrito ou de viva voz, eu o faria da melhor maneira possível; mas sei igualmente que, se a redação saísse defeituosa, ninguém mais do que eu sofreria por isso. Houvesse pensado que tais disciplinas devessem ser versadas por escrito e oralmente de sorte que o povo as compreendesse de modo cabal, que coisa mais bela teria eu podido realizar na vida do que manifestar ensinamentos tão profícuos à humanidade e esclarecer a todos sobre a verdadeira natureza das coisas? Não creio, todavia, que seja bom para os homens instituir, como se diz, uma argumentação, a não ser tratando-se de reduzido escol, ao qual bastam umas quantas indicações para que por si descubra a verdade. Quanto aos demais, ou lhes incutiríamos um injusto desprezo da filosofia o que seria grave inconveniente, ou a soberba   e vã esperança   de haverem adquirido conhecimentos sublimes. Aliás cogito em me ocupar mais demoradamente sobre o assunto, e presumivelmente algum dos pontos por mim tratados lucre em clareza  , quando me houver explicado. Existe, de fato, uma razão   poderosa, capaz de deter quem se abalance a escrever   o que quer que seja sobre tais matérias, razão já por várias vezes por mim apontada, mas que penso dever   repetir agora.

Em todos os seres há três elementos   indispensáveis a quem queira obter a ciência dos mesmos; a ciência constitui o quarto elemento; mas precisamos de admitir, como quinto elemento, o que é cognoscível e realmente existente. O primeiro elemento é o nome; o segundo, a definição; o terceiro, a imagem; o quarto, a ciência. Para bem compreender o que acabo de dizer, tomemos um exemplo e apliquemo-lo, em seguida, a tudo o mais. Há uma coisa que se chama círculo  , que tem por nome o vocábulo que acabo de proferir. Há, em segundo lugar, uma definição do círculo, composta de nomes e de verbos: aquilo cujas extremidades estão a uma distância perfeitamente igual do centro. Esta, a definição do que se chama redondo, circunferência, círculo. Em terceiro lugar, temos o objeto que se desenha e se apaga, que se constrói em redor e se destrói; ao passo que círculo em si, ao qual se referem todas estas representações, é alheio a tais vicissitudes, algo mais diferente delas. Em quarto lugar, vem a ciência, a inteligência e a opinião   verdadeira, relativas a estes objetos: constituem elas, por assim dizer, um todo, e não residem nem nos sons proferidos, nem nas figurais materiais, mas nas almas; donde, é óbvio que são de natureza diferente do círculo real   e das três coisas anteriormente mencionadas. Destes elementos, a inteligência é o que, por afinidade e semelhança  , mais se aproxima do quinto elemento; os outros afastam-se mais.

Idênticas distinções se aplicam respectivamente às figuras retilíneas ou esféricas, às cores, ao bom, ao belo, ao justo, aos corpos manufaturados ou naturais, ao fogo, à água e a todas as substâncias deste gênero, a toda a sorte de seres vivos, às qualidades da alma, às ações e às paixões de toda a espécie. Não havendo possibilidade de aprender, de uma maneira ou de outra, estes quatro elementos, nunca se logrará obter o conhecimento exato do quinto elemento. Tudo isto, aliás, tenta exprimir não só a qualidade como essência   de cada objeto, devido à fraqueza   inerente à linguagem; pelo que nenhuma pessoa sensata se arriscará a confiar seus pensamentos a semelhante veículo, principalmente quando este é algo de congelado como os caracteres escritos.

Insistamos, porém, no que há pouco dizíamos, pois importa compreendê-lo cabalmente. Todo círculo desenhado geometricamente ou fabricado ao torno está cheio daquilo que se opõe ao quinto elemento, pois confina, em todas as suas partes, com a linha reta, ao passo que o círculo em si, repetimos, não contém nenhum elemento, pequeno ou grande, da natureza contrária à sua. O nome desta figura, dizemos ainda, não apresenta nada de fixo, e nada impede que denominemos retas as que presentemente chamamos esféricas, e vice-versa. Nem por isso o valor significativo do nome diminui em fixidez, depois de lhe termos modificado o sentido. Outro tanto se diga da definição, visto ser composta de nomes e de verbos e, portanto, não apresentar absoluta fixidez. Inúmeras razões provam a incerteza destes quatro elementos, sendo a mais convincente delas a que, há pouco, indicamos: dos dois   principais, a essência e a qualidade, a alma procura conhecer, não a qualidade, senão a essência. Ora cada um dos quatro elementos apresenta à alma, nos raciocínios e nos fatos, aquilo que ela não busca, e, como cada objeto descrito ou mostrado é sempre facilmente refutado pelos sentidos, ninguém há, por assim dizer, que não se encontre num beco sem saída, cheio de dúvidas e de incertezas. Pelo que, quando por efeito de má educação, nos falece o entusiasmo   na pesquisa da verdade, e nos contentamos com a primeira imagem que se nos antolha, podemos interrogar e responder uns aos outros sem cairmos no ridículo, dado que nos encontramos em condições de desfazer e de refutar esses quatro elementos. Mas quando exigimos que se responda pelo quinto elemento e que o expliquem, basta que quem seja hábil em refutar o queira, para sair vencedor e mostrar à maioria dos ouvintes que aquele que explica por discursos, escritos ou respostas, nada percebe daquilo que tenta escrever ou dizer: de fato, às vezes ignora-se que o que se refuta não é tanto a mente   do escritor ou do orador quanto a natureza de cada um dos quatro elementos, essencialmente defeituosa. Mas, à força de os manipular a todos, subindo e descendo de um a outro, consegue-se a custo criar ciência, quando o objeto e o espírito   são ambos de boa qualidade. Se, ao invés, as disposições naturais não são boas, como, via de regra   sucede com a maior parte das almas em relação à ciência ou àquilo a que se dá o nome de costumes, neste caso nem Linceu conseguiria dar a tais pessoas olhos para ver. Em suma, nem a facilidade de aprender nem a memória serão capazes de outorgar o dom de visão   a quem não sinta afinidade pelo objeto, pois que ele não pode radicar-se de maneira nenhuma em natureza estranha. Donde, tanto os que não sentem inclinação   para o justo e para o belo nem afinidade com estas virtudes, embora dotados de facilidade de aprender e de reter uns, umas coisas, outros, outras, como os que, possuindo essa afinidade, experimentam dificuldade   em aprender e são desprovidos de memória, nem uns nem outros chegarão jamais a conhecer, sobre a verdade e sobre o vício, tudo quanto é possível aprender. Com efeito, é indispensável aprender, a um tempo  , ambas as coisas, o falso e o verdadeiro de toda a essência, à custa de muito trabalho e de tempo, como ao princípio disse. Só depois de ter friccionado uns contra os outros, nomes, definições, percepções visuais e impressões sensitivas, só depois de muitas discussões pacíficas em que as perguntas e as respostas não sejam ditadas pela inveja  , é que sobre o objeto estudado começa a brilhar a luz da sabedoria   e da inteligência com a intensidade capaz de ser suportada pelas forças humanas. Por tal motivo, todo homem sério  , que trate de assuntos realmente sérios, acautelar-se-á de escrever e de expor, por esse meio, suas ideias à inveja e à incompreensão da multidão. Daqui se deve tirar a seguinte conclusão: quando vemos composições escritas, quer por um legislador sobre as leis, quer por outrem sobre qualquer assunto, devemos asseverar que o autor não tomou a coisa a sério, se é que dá mostras de seriedade  , e que seu pensamento permanece encerrado na parte mais bela de seu ânimo. Mas se se verifica o caso de realmente haver consignado por escrito suas reflexões, como coisas de suma importância, isso significaria que não os deuses, mas sim os mortais   fizessem que ele desarrazoasse.

Cousin

[340b] Quand je fus arrivé auprès de lui, la première chose que je crus devoir faire fut de m’assurer si réellement il avait de l’amour pour la philosophie, ou si le bruit qui en avait couru à Athènes était sans fondement. Il y a une excellente méthode pour faire cette expérience, quand on a affaire à des tyrans et surtout à des tyrans imbus de fausses doctrines comme l’était Denys, à ce que j’avais compris dès mon arrivée. Il faut lui montrer tout ce qu’est la philosophie, quels travaux exige [340c] et quelles peines elle donne. Après quoi, s’il aime la philosophie sincèrement, s’il est digne de la connaître, et pour cela il faut avoir une âme presque divine, il admire la route qu’on lui trace, il croit qu’il faut la poursuivre sans relâche, et qu’autrement on est indigne de vivre. Puis, s’y précipitant avec ardeur, il entraîne après lui son guide même, et ne s’arrête pas avant d’être parvenu au terme ou au moins à un point assez avancé pour atteindre désormais le but sans autre guide que lui-même. [340d] Dans cette disposition, quelles que soient les situations où un tel homme se trouve, il règle sa vie sur les principes de la philosophie, il s’habitue à un régime qui conserve ses facultés, sa mémoire et sa raison, et prend en horreur toute autre conduite. Mais ceux qui ne sont pas véritablement philosophes, et qui, semblables à ceux dont le soleil a bruni le corps, n’ont pour ainsi dire qu’une couleur   de philosophie, quand ils entrevoient tant de science à acquérir, tant de travaux, [340e] un régime, un ordre si sévère, une telle carrière leur paraît trop difficile, impossible même à parcourir, et ils n’ont pas même la [341a] force de la commencer. Quelques-uns s’imaginent bientôt avoir tout suffisamment entendu, et qu’ils n’ont plus besoin de nouvelles connaissances. C’est là l’épreuve la plus sûre et la plus décisive à laquelle on puisse soumettre les hommes amis des plaisirs et incapables de travailler. Après cet essai, un homme ne peut accuser que lui, et jamais son maître, de l’impuissance où il est de faire ce que la chose exige. Ce fut la méthode que j’employai avec Denys, et je n’eus pas même besoin [341b] avec lui de la pousser jusqu’au bout. Il croyait avoir appris les choses les plus importantes des philosophes qu’il avait écoutés, et j’ai su depuis qu’il avait dans la suite écrit tout ce qu’il avait entendu alors, en le donnant comme une œuvre qui lui était propre et non le résultat des leçons qu’il avait reçues : cependant je ne sais rien de certain là-dessus ; mais je sais très positivement qu’il a paru d’autres écrits sur le même sujet, dont les auteurs ne se comprennent point eux-mêmes. Pour ceux qui ont écrit ou [341c] écriront ce qu’ils croient être mes véritables principes, qu’ils prétendent les avoir appris de moi-même ou d’autres, ou même les avoir découverts par leurs propres efforts, je déclare qu’à mon avis ils n’en peuvent savoir un mot. Je n’ai jamais rien écrit et je n’écrirai jamais rien sur ces mati  ères. Cette science ne s’enseigne pas comme les autres avec des mots ; mais, après un long commerce, une vie passée ensemble dans la méditation de ces mêmes choses, elle jaillit tout-à-coup comme une étincelle [341d], et devient pour l’âme un aliment qui la soutient à lui seul, sans autre secours. Je sais bien que mes écrits ou mes paroles ne seraient pas sans mérite ; s’ils étaient mauvais, j’en aurais un grand chagrin. Si j’avais cru qu’il était bon de livrer cette science au peuple par mes écrits ou par mes paroles, qu’aurais-je pu faire de mieux dans ma vie que d’écrire une chose si utile aux hommes, et de faire connaître [341e] à tous les merveilles de la nature ? Mais je crois que de tels enseignements ne conviennent qu’au petit nombre d’hommes qui, sur de premières indications, savent eux-mêmes découvrir la vérité. Quant aux autres, on ne ferait que leur inspirer un fâcheux mépris, ou les remplir de la vaine et superbe confiance [342a] qu’ils ont acquis les plus sublimes connaissances. Je veux m’arrêter davantage sur ce sujet, et ce que je viens de vous dire vous paraîtra plus clair. Il y a en effet une raison qui réprime la témérité de ceux qui veulent écrire sur quelqu’une de ces matières : cette raison, je l’ai souvent exposée, et, à ce qu’il me semble, il faut la répéter encore.

Il y a dans tout être trois choses qui sont les conditions de la science : en quatrième lieu vient la science elle-même, et en cinquième lieu [342b] il faut mettre ce qu’il s’agit de connaître, la vérité. La première chose est le nom, la seconde la définition, la troisième l’image ; la science est la quatrième. Si on veut comprendre ce que je viens de dire, il n’y a qu’à choisir un exemple ; il servira pour tout le reste. Prenons le cercle. D’abord il a un nom, celui même que je viens de prononcer. Puis il a une définition composée de noms et de verbes ; en effet, ce dont les extrémités sont également distantes du centre, telle est la définition de ce qu’on appelle sphère, circonférence, [342c] cercle. Mais ce cercle est encore un dessin qu’on efface, une figure matérielle qui se brise ; tandis que le cercle lui-même auquel tout cela se rapporte ne souffre pourtant rien de tout cela, parce qu’il en est essentiellement différent. Vient ensuite la science, l’intelligence, l’opinion vraie sur ce que nous venons de dire ; considérées collectivement, voilà un nouvel élément qui n’est ni dans les noms, ni dans les figures des corps, mais dans les âmes ; d’où il est clair que sa nature diffère de celle du cercle même [342d] et des trois choses dont nous avons parlé. De ces quatre éléments, l’intelligence est celui qui, par ses ressemblances et son affinité naturelle, se rapproche le plus du cinquième : les autres en diffèrent beaucoup plus. On peut faire les mêmes observations sur les ligues droites ou courbes, sur les couleurs, sur le bon, le beau, le juste, sur les objets que l’homme fait ou sur les corps naturels, comme le feu, l’eau   et tant d’autres, sur tout animal  , sur toute qualité de l’âme, sur les actions et les passions en général. Si l’on ne possède parfaitement [342e] ces quatre premiers éléments, on n’aura jamais la connaissance exacte du cinquième. De plus, l’homme n’est pas moins ambitieux de connaître les qualités des choses que leur existence, [343a] à travers l’insuffisance de la raison. C’est cette même insuffisance qui empêchera toujours un homme sensé d’avoir la témérité d’ordonner ici ses pensées en une théorie, et encore en une théorie inflexible, comme cela peut avoir lieu pour des images sensibles. Mais revenons aux figures dont nous parlions. Chacun des cercles dessinés ou tournés, dont on se sert dans la pratique, est plein de contradictions avec le cinquième élément : car dans toutes ses parties on retrouve la ligne droite ; or, le cercle véritable ne peut avoir en lui-même, ni en petite ni en grande quantité, rien de contraire à sa nature. Nous disons aussi que le nom de ces figures [343b] n’est nullement invariable, et que rien n’empêche de nommer droit ce que nous appelons sphérique, et sphérique ce que nous appelons droit, et que, ce changement une fois fait en sens contraire de l’usage actuel, le nom nouveau ne serait pas moins fixe que le premier. Il faut en dire autant de la définition : elle ne peut rien avoir d’absolument invariable, puisqu’elle est composée de noms et de verbes très variables. Il y a donc mille preuves pour une que chacun des quatre éléments est fort incertain ; mais la plus frappante, c’est que des deux choses que nous venons de distinguer, l’être et les qualités, [343c] quand l’âme cherche à connaître l’être et non les qualités, nos quatre éléments ne lui offrent en théorie et en réalité que ce qu’elle ne cherche point, c’est-à-dire ce qui, tombant aisément sous les contradictions des sens, des mots et des images, ne remplit l’esprit de tout homme que de doutes et d’obscurités. Aussi, dans les choses pour lesquelles notre éducation ne nous a malheureusement pas donné l’habitude de rechercher la vérité, et où nous nous contentons des premières apparences, nous ne semblons pas ridicules les uns aux autres, parce que nous sommes [343d] toujours capables de discuter et de réfuter ces quatre principes. Mais quand nous exigeons qu’on raisonne sur le cinquième et qu’on le prouve, l’homme capable de réfuter n’a qu’à le vouloir pour vaincre, et faire croire aux auditeurs que celui qui expose ses doctrines dans ses discours, ses écrits ou ses conversations, ne sait absolument rien des choses qu’il entreprend de dire ou d’écrire ; car on ignore quelquefois que ce n’est pas l’esprit de l’écrivain ou de l’orateur qu’on réfute, mais le vice inné des quatre principes dont nous parlions. [343e] Un raisonnement exact, appuyé sur eux tous, et qui conduit et ramène à chacun d’eux, est à peine capable de produire la science ; et pour cela il faut que les choses soient naturellement bien disposées, et qu’elles tombent dans un esprit bien disposé lui-même. Mais ceux qui ont naturellement de mauvaises dispositions pour les sciences et la vertu, [344a] et l’âme de bien des hommes est dans ce triste état, ceux-là ne sauraient voir même avec les yeux de Lyncée[7]. En un mot, quand un homme n’a aucune affinité avec la chose dont il s’agit, ni la pénétration ni la mémoire n’y feront rien ; car rien ne vient sur un sol étranger. Aussi ceux qui n’ont ni affinité ni rapport avec le juste et tout ce qui est bien, quelles que soient la promptitude de leur esprit et la facilité de leur mémoire, pas plus que ceux chez qui cette affinité avec le beau et le bien s’allie à un esprit lent et à une mémoire rebelle, ne parviendront jamais à connaître toute la vérité sur la vertu [344b] et le vice ; car il faut connaître l’un et l’autre, et c’est avec beaucoup de temps et de peines qu’on peut acquérir la double science de ce qu’il y a de vrai et de ce qu’il y a de faux dans tout être, comme j’ai dit en commençant. C’est quand on a bien examiné, en les éclairant les uns par les autres, les noms et les définitions, et les sensations de toute espèce, dans des discussions paisibles où l’envie n’aigrit ni les demandes ni les réponses, c’est alors seulement que la lumière de la science et de l’intelligence se répand sur les objets et nous guide vers la perfection [344c] que la nature humaine peut atteindre. Concluons que tout homme sérieusement occupé de choses aussi sérieuses doit se garder de les traiter dans des écrits destinés au public, pour exciter l’envie et se jeter dans l’embarras. Et tout cela doit nous prouver, quand il nous tombe entre les mains le livre d’un législateur sur les lois, ou de tout autre écrivain sur d’autres matières, que l’auteur n’a pas parlé sérieusement s’il est lui-même un homme sérieux, et qu’il s’est renfermé dans la plus belle partie de lui-même. S’il avait mis par écrit ce qu’il avait de sérieux dans l’âme, [344d] c’est alors qu’il faudrait dire : ce ne sont pas les dieux, ce sont les hommes qui lui ont ôté la raison.

Jowett

On my arrival, I thought that first I must put to the test the question whether Dionysios had really been kindled with the fire of philosophy, or whether all the reports which had come to Athens were empty rumours. Now there is a way of putting such things to the test which is not to be despised and is well   suited to monarchs, especially to those who have got their heads full of erroneous teaching, which immediately my arrival I found to be very much the case with Dionysios. One should show such men what philosophy is in all its extent ; what their range of studies is by which it is approached, and how much labour it involves. For the man who has heard this, if he has the true philosophic spirit and that godlike temperament which makes him a kin to philosophy and worthy of it, thinks that he has been told of a marvellous road lying before him, that he must forthwith press on with all his strength, and that life is not worth living if he does anything else. After this he uses to the full his own powers and those of his guide in the path, and relaxes not his efforts, till he has either reached the end of the whole course of study or gained such power that he is not incapable of directing his steps without the aid of a guide. This is the spirit and these are the thoughts by which such a man guides his life, carrying out his work, whatever his occupation may be, but throughout it all ever cleaving to philosophy and to such rules of diet in his daily life as will give him inward sobriety and therewith quickness in learning, a good memory, and reasoning power ; the kind of life which is opposed to this he consistently hates. Those who have not the true philosophic temper, but a mere surface colouring of opinions penetrating, like sunburn, only skin deep, when they see how great the range of studies is, how much labour is involved in it, and how necessary to the pursuit it is to have an orderly regulation of the daily life, come to the conclusion that the thing is difficult and impossible for them, and are actually incapable of carrying out the course of study ; while some of them persuade themselves that they have sufficiently studied the whole matter and have no need of any further effort. This is the sure test and is the safest one to apply to those who live in luxury and are incapable of continuous effort ; it ensures that such a man shall not throw the blame upon his teacher but on himself, because he cannot bring to the pursuit all the qualities necessary to it. Thus it came about that I said to Dionysios what I did say on that occasion.

I did not, however, give a complete exposition, nor did Dionysios ask for one. For he professed to know many, and those the most important, points, and to have a sufficient hold of them through instruction given by others.

I hear also that he has since written about what he heard from me, composing what professes to be his own handbook, very different, so he says, from the doctrines which he heard from me ; but of its contents I know nothing ; I know indeed that others have written on the same subjects ; but who they are, is more than they know themselves. Thus much at least, I can say about all writers, past or future, who say they know the things to which I devote myself, whether by hearing the teaching of me or of others, or by their own discoveries — that according to my view it is not possible for them to have any real skill in the matter. There neither is nor ever will be a treatise of mine on the subject. For it does not admit of exposition like other branches of knowledge ; but after much converse about the matter itself and a life lived together, suddenly a light, as it were, is kindled in one soul by a flame that leaps to it from another, and thereafter sustains itself. Yet this much I know — that if the things were written or put into words, it would be done best by me, and that, if they were written badly, I should be the person most pained. Again, if they had appeared to me to admit adequately of writing and exposition, what task in life could I have performed nobler than this, to write what is of great service to mankind and to bring the nature of things into the light for all to see ? But I do not think it a good thing for men that there should be a disquisition, as it is called, on this topic — except for some few, who are able with a little teaching to find it out for themselves. As for the rest, it would fill some of them quite illogically with a mistaken feeling of contempt, and others with lofty and vain-glorious expectations, as though they had learnt something high and mighty.

On this point I intend to speak a little more at length ; for perhaps, when I have done so, things will be clearer with regard to my present subject. There is an argument which holds good against the man ventures to put anything whatever into writing on questions of this nature ; it has often before been stated by me, and it seems suitable to the present occasion.

For everything that exists there are three instruments by which the knowledge of it is necessarily imparted ; fourth, there is the knowledge itself, and, as fifth, we must count the thing itself which is known and truly exists. The first is the name, the, second the definition, the third. the image, and the fourth the knowledge. If you wish to learn what I mean, take these in the case of one instance, and so understand them in the case of all. A circle is a thing spoken of, and its name is that very word which we have just uttered. The second thing belonging to it is its definition, made up names and verbal forms. For that which has the name “round,” “annular,” or, “circle,” might be defined as that which has the distance from its circumference to its centre everywhere equal. Third, comes that which is drawn and rubbed out again, or turned on a lathe   and broken up — none of which things can happen to the circle itself — to which the other things, mentioned have reference ; for it is something of a different order from them. Fourth, comes knowledge, intelligence and right opinion about these things. Under this one head we must group everything which has its existence, not in words nor in bodily shapes, but in souls — from which it is dear that it is something different from the nature of the circle itself and from the three things mentioned before. Of these things intelligence comes closest in kinship and likeness to the fifth, and the others are farther distant.

The same applies to straight as well as to circular form, to colours, to the good, the, beautiful, the just, to all bodies whether manufactured or coming into being in the course of nature, to fire, water, and all such things, to every living being, to character in souls, and to all things done and suffered. For in the case of all these, no one, if he has not some how or other got hold of the four things first mentioned, can ever be completely a partaker of knowledge of the fifth. Further, on account of the weakness of language, these (i.e., the four) attempt to show what each thing is like, not less than what each thing is. For this reason no man of intelligence will venture to express his philosophical views in language, especially not in language that is unchangeable, which is true of that which is set down in written characters.

Again you must learn the point which comes next. Every circle, of those which are by the act of man drawn or even turned on a lathe, is full of that which is opposite to the fifth thing. For everywhere it has contact with the straight. But the circle itself, we say, has nothing in either smaller or greater, of that which is its opposite. We say also that the name is not a thing of permanence for any of them, and that nothing prevents the things now called round from being called straight, and the straight things round ; for those who make changes and call things by opposite names, nothing will be less permanent (than a name). Again with regard to the definition, if it is made up of names and verbal forms, the same remark holds that there is no sufficiently durable permanence in it. And there is no end to the instances of the ambiguity from which each of the four suffers ; but the greatest of them is that which we mentioned a little earlier, that, whereas there are two things, that which has real being, and that which is only a quality, when the soul is seeking to know, not the quality, but the essence, each of the four, presenting to the soul by word and in act that which it is not seeking (i.e., the quality), a thing open to refutation by the senses, being merely the thing presented to the soul in each particular case whether by statement or the act of showing, fills, one may say, every man with puzzlement and perplexity.

Now in subjects in which, by reason of our defective education, we have not been accustomed even to search for the truth, but are satisfied with whatever images are presented to us, we are not held up to ridicule by one another, the questioned by questioners, who can pull to pieces and criticise the four things. But in subjects where we try to compel a man to give a clear answer about the fifth, any one of those who are capable of overthrowing an antagonist gets the better of us, and makes the man, who gives an exposition in speech or writing or in replies to questions, appear to most of his hearers to know nothing of the things on which he is attempting to write or speak ; for they are sometimes not aware that it is not the mind   of the writer or speaker which is proved to be at fault, but the defective nature of each of the four instruments. The process however of dealing with all of these, as the mind moves up and down to each in turn, does after much effort give birth in a well-constituted mind to knowledge of that which is well constituted. But if a man is ill-constituted by nature (as the state of the soul is naturally in the majority both in its capacity for learning and in what is called moral character) — or it may have become so by deterioration — not even Lynceus could endow such men with the power of sight.

In one word, the man who has no natural kinship with this matter cannot be made akin to it by quickness of learning or memory ; for it cannot be engendered at all in natures which are foreign to it. Therefore, if men are not by nature kinship allied to justice and all other things that are honourable, though they may be good at learning and remembering other knowledge of various kinds — or if they have the kinship but are slow learners and have no memory — none of all these will ever learn to the full the truth about virtue and vice. For both must be learnt together ; and together also must be learnt, by complete and long continued study, as I said at the beginning, the true and the false about all that has real being. After much effort, as names, definitions, sights, and other data of sense  , are brought into contact and friction one with another, in the course of scrutiny and kindly testing by men who proceed by question and answer without ill will, with a sudden flash there shines forth understanding about every problem, and an intelligence whose efforts reach the furthest limits of human powers. Therefore every man of worth, when dealing with matters of worth, will be far from exposing them to ill feeling and misunderstanding among men by committing them to writing. In one word, then, it may be known from this that, if one sees written treatises composed by anyone, either the laws of a lawgiver, or in any other form whatever, these are not for that man the things of most worth, if he is a man of worth, but that his treasures are laid up in the fairest spot that he possesses. But if these things were worked at by him as things of real worth, and committed to writing, then surely, not gods, but men “have themselves bereft him of his wits.”


Ver online : The collected dialogues of Plato, including the letters (Edith Hamilton ed.)