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FEDRO

Platão (Fedro:257b-259d) — Crítica sobre a forma do discurso de Lysias

SEGUNDA PARTE

quinta-feira 9 de dezembro de 2021, por Cardoso de Castro

      
    • Introdução (257b-259d)
      • reprovou-se Lysias de ser um logógrafo
      • o problema: falar bem ou mal, escreve bem ou mal
      • necessidade   de tratar o problema: o mito   das cigarras
      

Nunes

FEDRO  : - Junto minha prece   à tua, caro Sócrates  , para que isso se realize. Quanto a teu discurso, ele me causa   admiração  , e tanto mais quanto sua beleza ultrapassa a do primeiro. Receio que Lísias se mostre impotente, caso queira escrever   outro discurso para rivalizar com esse. Foi bem por causa disso, meu amigo, que um dos nossos políticos censurou a Lísias. Disse que ele escrevia demais, que era um “logógrafo”, um “escritor de discursos”. É bem possível até que Lísias, por amor próprio  , desista de escrever.

SÓCRATES: - Que ideia singular, rapaz! Conheces muito mal o teu amigo se julgas que ele se incomoda de ser repreendido. Pensas também que esse crítico falou seriamente?

FEDRO: - Mostrava grande convicção  , caro Sócrates. Além disso, sabes tão bem quanto eu que os homens mais poderosos e mais eminentes num Estado   receiam escrever discursos e deixá-los à posteridade: temem que as gerações seguintes os taxem de sofistas.

SÓCRATES: - Tu pareces entender muito pouco das vicissitudes devidas à vaidade  ; além disso não percebes que os nossos políticos mais orgulhosos são os que mais adoram fazer discursos e deixá-los à posteridade. Quando confiam sua eloquência ao papel, mostram tanta afeição   aos seus elogiadores que os mencionam um por um.

FEDRO: - Que queres dizer? Não te entendo.

SÓCRATES: - Será novidade para ti que, nos escritos de um político, vem em primeiro lugar o nome daquele que o elogia?

FEDRO: - Como assim?

SÓCRATES: - Diz, por exemplo: “o conselho decretou” ou “o povo decretou”, e, por vezes, “o conselho e o povo decretaram”. Segue-se o nome de quem falou, e nesta altura o autor fala solenemente de si, louvando-se, ostentando sua sabedoria   aos que são do seu partido, às vezes com grande abundância   de palavras. Consideras um livro desse gênero   algo diferente de um discurso escrito?

FEDRO: - Por certo que não.

SÓCRATES: - Ora, quando a coisa é aprovada, o autor sai do teatro   muito satisfeito, mas quando a proposta é rejeitada falta-lhe pretexto para publicar o seu discurso, e este parece indigno de registro, de modo que tanto ele como seus partidários se entristecem.

FEDRO: - Perfeitamente.

SÓCRATES: - E é claro que se entristecem não porque desprezem esse costume  , mas porque o admiram.

FEDRO: - Sim, é claro.

SÓCRATES: - Pensa também nisto: quando um rei é bastante hábil, quando tem o poder de um Licurgo, de um Sólon ou de um Dario para se tornar o imortal autor de discursos políticos, não considera ele a si próprio, em vida, como semelhante a um deus  ? E os pósteros, lendo-lhe as obras, não têm a mesma opinião   a seu respeito?

FEDRO: - Exatamente.

SÓCRATES: - Acreditas que um homem   dessa espécie, sendo inimigo   de Lísias, o censure simplesmente porque ele escreve discursos?

FEDRO: - Aceitando teu argumento  , isso não é provável; tal homem estaria repreendendo a si mesmo  .

SÓCRATES: - Ora, é evidente   para todos que a ocupação   de escrever discursos, em si, não é coisa desonesta.

FEDRO: - Pois claro!

SÓCRATES: - Além disso, que é escrever bem e escrever mal? Meu querido

FEDRO: deveremos consultar Lísias e outros homens competentes sobre esta questão? Será necessário seu parecer para cada um que escreveu ou escreverá, quer sua atividade   literária se relacione à política, quer à vista   particular, quer ele escreva ritmicamente como poeta, quer em prosa como qualquer outro?

FEDRO: - Me perguntas se devemos fazer isso? Mas teríamos uma razão   para viver   se não fosse para esse prazer? É certo que tais prazeres não são de ordem dos que vêm precedidos de uma dor  , indispensável ao prazer. Ora, esse é o caráter de todos os prazeres que estão ligados ao corpo, e por isso os chamam de servis.

SÓCRATES: - Creio que ainda temos tempo  . Entretanto, parece-me que as cigarras, que no meio do dia costumam cantar e chiar acima de nossas cabeças, estão nos olhando. Se elas nos vissem a esta hora cochilando como homens comuns e sem assunto, como se o cansaço embotasse o nosso pensar, teriam o direito de rir de nós, e considerar-nos-iam como escravos que tivessem vindo visitá-las e procuraram este bonito lugar apenas para dormir   à hora da canícula, como as ovelhas junto a uma fonte  . Vendo, porém, que conversamos e prosseguimos nossa viagem   sem nos deixarmos cativar, pelo seu canto   de sereias, talvez se admirem e nos deem, de bom grado, o presente   honorífico que receberam como favor dos deuses, a fim de conferi-lo aos homens.

FEDRO: - Elas possuem tal coisa? Não me parece que já tenha ouvido falar nisso.

O mito   das cigarras

SÓCRATES: - Para um homem tão amigo das Musas   não convém ignorá-lo. Dizem que as cigarras foram homens outrora, homens que viveram antes de terem nascido as Musas. Quando estas vieram ao mundo e tiveram início as canções, alguns daqueles homens deixaram-se cativar de tal modo que, embevecidos nelas, esqueceram-se de comer e de beber, até que morreram sem mesmo se dar conta. Desses homens provém o gênero das cigarras, que recebeu das Musas o honroso privilégio de não precisar de alimento   durante sua vida; sendo capazes de cantar, do nascimento à morte, sem comer nem beber. Vão elas ter com as Musas e lhes indicam os homens que aqui na terra   lhes prestam culto. A Terpsícore dizem o nome dos que as honram dançando nos coros, e os tornam mais estimados por ela; a Erato apontam os que as exaltam com poesias amorosas, e assim a todas as outras, de acordo   com a arte que presidem. À mais velha Musa, porém, a Calíope, e a Urânia, que nasceu depois dela, as cigarras dizem quais são os homens que se dedicam à filosofia e exercem a arte por elas protegida; pois essas duas cantam melodias mais belas do que todas as outras Musas; dirigem seus cantos ao céu e fazem discursos sobre as coisas divinas e sobre as humanas. Por esse motivo, ao meio-dia  , temos de conversar sobre o que quisermos, mas nunca dormir.

FEDRO: - Sim, sim, conversemos!

ARCIS

FEDRO. —Me uno   a ti, mi querido Sócrates, para pedir a los dioses que sigan ambos tu consejo por ellos y por mí. Pero en verdad, yo no puedo menos de alabar tu discurso, cuya belleza me ha hecho olvidar el primero. Temo que Lisias parezca muy inferior  , si intenta luchar contigo en un nuevo discurso. Por lo demás, ahora, recientemente, uno de nuestros hombres de estado le echaba en cara, en términos ofensivos, el escribir mucho, y en toda su diatriba le llamaba fabricante de discursos. Quizá el amor propio le impedirá responderte.

SÓCRATES. —Yaya una idea   singular, mi querido joven; poco conoces a tu amigo, si crees que se asusta con tan poco ruido. ¿Has podido creer que el que así le criticaba hablaba seriamente?

FEDRO. —Las trazas eran de eso, Sócrates, y tú mismo sabes, que los hombres más poderosos y de mejor posición en nuestras ciudades se avergüenzan de componer discursos y de dejar escritos, temiendo pasar por sofistas a los ojos de la posteridad.

SÓCRATES. —No entiendes nada, mi querido Fedro, de los repliegues de la vanidad; y no ves que los más entonados de nuestros hombres de estado son los que más ansían componer discursos y dejar obras escritas. Desde el momento en que han dado a luz alguna cosa están tan deseosos de adquirir aura popular, que se apuran a inscribir en su publicación los nombres de sus admiradores.

FEDRO. —¿Qué es lo que dices?, yo no te comprendo.

SÓCRATES. —¿No comprendes que a la cabeza de los escritos de un hombre de estado aparecen siempre los nombres de los que les han prestado su aprobación?

FEDRO. —¿Cómo?

SÓCRATES. —El senado o el pueblo o ambos, en vista de la proposición de tal… han tenido a bien… Y aquí se nombra sí mismo, y hace su propio elogio. En seguida, para demostrar su ciencia a sus adoradores, hace de todo esto un largo comentario. Y, dime ¿No es éste un verdadero escrito?

FEDRO. —Convengo en ello.

SÓCRATES. —Si triunfa el escrito, el autor sale del teatro lleno de gozo; si se le desecha, queda privado del honor de que se le cuente entre los escritores y autores de discursos, y así se desconsuela y sus amigos se afligen con él.

FEDRO. —Sin duda.

SÓCRATES. —Es evidente que, lejos de desdeñar este oficio, le tienen en gran estimación.

FEDRO. —Convengo en ello.

SÓCRATES. —Pero qué, cuando un orador o un rey, revestido del poder de un Licurgo, de un Solón, de un Darío, se inmortaliza en un estado, como autor de discursos, ¿no se mira a sí mismo, como un semidiós durante su vida, y la posteridad no tiene de él la misma opinión, en consideración a sus escritos?

FEDRO. —Ciertamente.

SÓCRATES. —¿Crees tú, que ningún hombre de estado, cualesquiera que sean su carácter y su prevención contra Lisias, pretenda hacerle ruborizar por su título de escritor?

FEDRO. —No es probable, conforme a lo que dices, porque sería a mi parecer difamar su propia pasión.

SÓCRATES. —Por lo tanto, es evidente que nadie puede avergonzarse de componer discursos.

FEDRO. —Conforme.

SÓCRATES. —Pero, en mi opinión, lo vergonzoso no es el hablar y escribir bien, sino el hablar y escribir mal.

FEDRO. —Es claro.

SÓCRATES. —¿Pero en qué consiste el escribir bien o el escribir mal? ¿Deberemos, mi querido Fedro, interrogar sobre esto a Lisias o a alguno de los que han escrito o escribirán sobre un objeto político o sobre materias privadas en verso, como un poeta, o en prosa, como el común de los escritores?

FEDRO. —¿Es posible que me preguntes si debemos? ¿De qué serviría la vida, si no se gozase de los placeres de la inteligencia? Porque no son los goces, a los que precede el dolor como condición necesaria, los que dan precio a la vida; y esto es lo que pasa con casi todos los placeres del cuerpo, por lo que con razón se les ha llamado serviles.

SÓCRATES. —Creo que tenemos tiempo. Lo que me parece es que las cigarras, que cantan sobre nuestras cabezas, y conversan entre sí, como lo hacen siempre con este calor   sofocante, nos observan. Si nos viesen en lugar de mantener una conversación, dormir la siesta como el vulgo, en esta hora del mediodía al arrullo de sus cantos, sin ocupar nuestro entendimiento, se reirían de nosotros, y harían bien; creerían ver esclavos que habían venido a dormir a esta soledad, como los ganados que sestean alrededor de una fuente. Si por el contrario, nos ven conversar y pasar cerca de ellas, como el sabio cerca de las sirenas, sin dejarnos sorprender, nos admirarán y quizá nos darán parte del beneficio que los dioses les han permitido conceder a los hombres.

FEDRO. —¿Qué beneficio es ese? Me parece que nunca he oído hablar de él.

SÓCRATES. —No parece bien que un amigo de las musas ignore estas cosas. Se dice que las cigarras eran hombres antes del nacimiento de las musas. Cuando éstas nacieron, y el canto con ellas, hubo hombres, que de tal manera se arrebataron al oír sus acentos, que la pasión de cantar les hizo olvidar la de comer y beber, y pasaron de la vida a la muerte, sin apercibirse de ello. De estos hombres nacieron las cigarras, y las musas les concedieron el privilegio de no tener necesidad de ningún alimento, sino que, desde que nacen hasta que mueren, cantan sin comer ni beber; y además de esto van a anunciar a las musas cuál es, entre los mortales, el que rinde homenaje a cada una de ellas. Así es que, haciendo conocer a Terpsícore los que la honran en los coros, hacen que esta divinidad sea más propicia a sus favorecidos. A Eratón dan cuenta de los nombres de los que cultivan la poesía erótica; y a las otras musas hacen conocer los que las conceden la especie de culto que conviene a los atributos de cada una; a Calíope, que es la de mayor edad, y a Urania, la de menor, dan a conocer a los que dedicados a la filosofía cultivan las artes que les están consagradas. Estas dos musas, que presiden a los movimientos de los cuerpos celestes y a los discursos de los dioses y de los hombres, son aquellas cuyos cantos son melodiosos. He aquí materia para hablar y no dormir en esta hora del día.

FEDRO. —Pues bien, hablemos.

Jowett

Phaedr. I join in the prayer, Socrates, and say with you, if this be for my good, may your words come to pass. But why did you make your second oration so much finer than the first ? I wonder why. And I begin to be afraid that I shall lose conceit of Lysias, and that he will appear tame in comparison, even if he be willing to put another as fine and as long as yours into the field, which I doubt. For quite lately one of your politicians was abusing him on this very account ; and called him a “speech writer” again and again. So that a feeling of pride may probably induce him to give up writing speeches.

Soc. What a very amusing notion ! But I think, my young man, that you are much mistaken in your friend if you imagine that he is frightened at a little noise ; and possibly, you think that his assailant was in earnest ?

Phaedr. I thought, Socrates, that he was. And you are aware that the greatest and most influential statesmen are ashamed of writing speeches and leaving them in a written form, lest they should be called Sophists by posterity.

Soc. You seem to be unconscious, Phaedrus, that the “sweet elbow” of the proverb is really the long arm of the Nile. And you appear to be equally unaware of the fact that this sweet elbow of theirs is also a long arm. For there is nothing of which our great politicians are so fond as of writing speeches and bequeathing them to posterity. And they add their admirers’ names at the top of the writing, out of gratitude to them.

Phaedr. What do you mean ? I do not understand.

Soc. Why, do you not know that when a politician writes, he begins with the names of his approvers ?

Phaedr. How so ?

Soc. Why, he begins in this manner : “Be it enacted by the senate, the people, or both, on the motion of a certain person,” who is our author ; and so putting on a serious face, he proceeds to display his own wisdom to his admirers in what is often a long and tedious composition. Now what is that sort of thing but a regular piece of authorship ?

Phaedr. True.

Soc. And if the law is finally approved, then the author leaves the theatre in high delight ; but if the law is rejected and he is done out of his speech-making, and not thought good enough to write, then he and his party are in mourning.

Phaedr. Very true.

Soc. So far are they from despising, or rather so highly do they value the practice of writing.

Phaedr. No doubt.

Soc. And when the king or orator has the power, as Lycurgus or Solon or Darius had, of attaining an immortality or authorship in a state, is he not thought by posterity, when they see his compositions, and does he not think himself, while he is yet alive, to be a god ?

Phaedr. Very true.

Soc. Then do you think that any one of this class, however ill-disposed, would reproach Lysias with being an author ?

Phaedr. Not upon your view ; for according to you he would be casting a slur upon his own favourite pursuit.

Soc. Any one may see that there is no disgrace in the mere fact of writing.

Phaedr. Certainly not.

Soc. The disgrace begins when a man writes not well  , but badly.

Phaedr. Clearly.

Soc. And what is well and what is badly — need we ask Lysias, or any other poet or orator, who ever wrote or will write either a political or any other work, in metre or out of metre, poet or prose writer, to teach us this ?

Phaedr. Need we ? For what should a man live if not for the pleasures of discourse ? Surely not for the sake of bodily pleasures, which almost always have previous pain as a condition of them, and therefore are rightly called slavish.

Soc. There is time enough. And I believe that the grasshoppers chirruping after their manner in the heat of the sun over our heads are talking to one another and looking down at us. What would they say if they saw that we, like the many, are not conversing, but slumbering at mid-day, lulled by their voices, too indolent to think ? Would they not have a right to laugh at us ? They might imagine that we were slaves, who, coming to rest at a place of resort of theirs, like sheep lie asleep at noon around the well. But if they see us discoursing, and like Odysseus   sailing past them, deaf to their siren voices, they may perhaps, out of respect, give us of the gifts which they receive from the gods that they may impart them to men.

Phaedr. What gifts do you mean ? I never heard of any.

Soc. A lover of music like yourself ought surely to have heard the story of the grasshoppers, who are said to have been human beings in an age before the Muses. And when the Muses came and song appeared they were ravished with delight ; and singing always, never thought of eating and drinking, until at last in their forgetfulness they died. And now they live again in the grasshoppers ; and this is the return which the Muses make to them — they neither hunger, nor thirst, but from the hour of their birth are always singing, and never eating or drinking ; and when they die they go and inform the Muses in heaven who honours them on earth. They win the love of Terpsichore for the dancers by their report of them ; of Erato for the lovers  , and of the other Muses for those who do them honour, according to the several ways of honouring them of Calliope the eldest Muse and of Urania who is next to her, for the philosophers, of whose music the grasshoppers make report to them ; for these are the Muses who are chiefly concerned with heaven and thought, divine as well as human, and they have the sweetest utterance. For many reasons, then, we ought always to talk and not to sleep at mid-day.

Phaedr. Let us talk.


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