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RELER PLATÃO

Mesquita (RP:11-12) – uno e múltiplo

Introdução

quarta-feira 8 de dezembro de 2021

MESQUITA, António Pedro. Reler Platão. Ensaio sobre a teoria das ideias. Lisboa: Imprensa Nacional, 1995, p. 11-12

O pensamento? plat6onico tem sido, quase desde o seu início?, condenado a ser visto? pelos olhos? de outrem.

É certo que essa é a condição? de toda a exegese?: não só enquanto tal tarefa? supõe o olhar de um outro ou «de si mesmo? enquanto outro», mas principalmente porque ela mesma é necessariamente alteradora, tendo de tomar o que interpreta num «outro» para que haja propriamente interpretação?.

Não é essa alteridade?, contudo, aquela a que aqui nos referimos: nem que seja porque a fecundidade daquele exercício hermenêutico resulta da progressiva proximidade? que tal alteridade promove, de tal modo? que, por ela — e só por ela — o pensamento interpretado surge sempre renovadamente restituído a si mesmo, com isso superando, ou redimindo, a alteridade como tal.

Todavia, se não se trata aqui desta intrínseca alteração? hermenêutica, não se trata também da extrínseca alteridade que está suposta na deturpação ou na incompreensão, por essa espécie? de constitutivo? alheamento que impede de ver, por deformação, preconceito?, pusilanimidade ou simples? incapacidade, o que afinal se encontra diante dos nossos olhos.

A alteridade a que nos referimos é, se se quiser, a alteridade do próprio olhar — quer dizer, a diversidade? do ponto? de vista. E tal significa que, se o pensamento platônico tem sido condenado a ser visto pelos olhos de outrem, é porque tem sido condenado a ser visto por uma lógica? que lhe é irremediavelmente alheia: sendo? que tal lógica e a do pensamento platônico são justamente dois? pontos de vista, que podem ver-se mutuamente, mas não mutuamente encarnar-se.

Ora, o ponto de vista platônico tem um nome? e pode ser designado?: uno? e múltiplo?. A perspectiva? própria do pensamento platônico é, pois, a da relação?, ou melhor, de uma certa relação, entre unidade e multiplicidade, que a lógica que tradicionalmente sobre ela incide, de matriz? aristotélica, não pode apreender? sem imediatamente alterar.

É certo que também a perspectiva de toda a tradição? filosófica? e de algum modo o eixo fundamental da lógica que a serve pode ser caracterizada como uma perspectiva de uno e múltiplo — pelo que se diria não ser deste modo que se afirma a diferença? do filosofar platônico. E, como é igualmente certo que é outrossim uma perspectiva de uno e múltiplo a que, com justiça?, semelhante? tradição tem, desde Aristóteles, encontrado na base? do pensamento platônico, dir-se-ia neste ponto que não é decerto também por aqui que se pode afirmar a diferença de qualquer interpretação que repita esse? encontro?, enquanto justamente o repete.

O problema? é, todavia, o de que essa perspectiva de uno e múltiplo não é a mesma nos dois casos — ou, de outro modo, que a lógica do pensamento platônico nunca é uma lógica aristotélica antecipada. E nesta medida?, para circunscrever o proprium do filosofar platônico, não basta apontar o uno e o múltiplo como sua perspectiva reitora: é preciso perspectivá-la platonicamente, de tal modo que o próprio ponto de vista platônico seja visto platonicamente e a própria questão? do uno e do múltiplo preliminarmente circunscrita no específico sentido? que lhe atribui Platão.

Ora, Aristóteles — e com ele toda a tradição que nele teve início — pensa a questão do uno e do múltiplo em Platão como uma relação de ἕν? ἐπὶ πολλῶν, de «uno sobre o múltiplo», no sentido da recondução de cada conjunto de realidades diversas à unidade que está suposta na sua própria conjugação, ou, de outro modo, no sentido da subsunção? de toda multiplicidade de particulares de um mesmo tipo? sob a unidade desse tipo.

Nesta leitura, é certamente em Platão e na própria letra platônica que Aristóteles se inspira: se é certo que a mais canônica descrição? da ideia? platônica é aquela que a radica no costume? de «pôr? uma certa ideia, cada uma única, para toda a multiplicidade a que atribuímos o mesmo nome.» (R., X, 596a). O que entretanto já oferece fundadas dúvidas é que o pensamento platônico pense a questão do uno e do múltiplo apenas ou primeiramente daquele modo, quer dizer, que ele seja apenas esse pensamento do uno e do múltiplo.

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