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Introdução ao Pensar

Buzzi (IP:31-32) – o mito

Capítulo 2 O Conhecimento Mítico

terça-feira 7 de dezembro de 2021

BUZZI  , Arcângelo. Introdução ao Pensar (sexta edição). Petrópolis: Vozes, 1976, p. 31-32

O MITO?, embora na linguagem? comum? o termo? seja usado como sinônimo de crença dotada de validade? mínima e de pouca verossimilhança, não deve ser visto? como produto de uma atividade? secundária e subordinada do intelecto?. Porque o saber? lógico-científico não consegue controlar a linguagem mítica, considera-a como ilógica. O ilógico é um termo criado pelo poder? lógico para dominar o que não pode. Por conseguinte, quando a ciência coloca a linguagem mítica no reino? da incoerência lógica, ela confessa o limite? de sua compreensão e proclama, no espaço de seu saber, um outro desconhecido? ao modelo? lógico de compreensão. O alcance do mito nunca é percebido? com nitidez.

«O mito não encontra, de maneira nenhuma, adequada? objetivação no discurso?» (Nietzsche  , F., Origem? da Tragédia, p. 128).

O conhecimento? expresso em mitos traduz uma intelecção do ser de validade originária e primária, que se coloca num plano? diferente da lógica racional?, mas dotada de igual? dignidade?.

«A coerência do mito provém muito mais de uma unidade? de sentimento? do que de regras lógicas. Esta unidade é um dos impulsos mais fortes e mais profundos do pensamento? primitivo?» (E. Cassirer  , Essay on Man, cap. 7).

Mito é uma profunda intuição compreensiva da realidade?, vazada numa linguagem fantasiosa?. As intuições míticas são de valor? perene?, porque exprimem os mais recônditos níveis de estrutura?ção do psiquismo humano?, inacessível à atividade do consciente? lógico. O mito se constitui a partir do dinamismo?-psíquico infra-estrutural.

O pensamento de Platão, nos seus voos mais sublimes, termina sempre afogado no mito. Freud   e Jung  , os corifeus da Psicanálise, exprimem seu saber numa linguagem simbólica, impregnada de mitos. A ciência nos seus avanços mais ousados termina sempre numa fantaciência (science? fiction) mítica. Os mitos de Dionísio, de Prometeu, o mito do paraíso perdido, o mito da árvore da vida?, o mito do desenvolvimento? traduzem, numa intelecção própria e autônoma, a problem?ática existencial? humana, sentida e vivida por todo homem.

Pela sua intuição e linguagem, o mito é algo de muito vivo, prenhe de significação existencial. Cada época possui seus mitos. Neles a sociedade? consubstancia as respostas aos problemas fundamentais da vida. A «sociedade desenvolvida», a «hegemonia do proletariado», como fim? de todas as alienações, a «liberdade? burguesa» como dignidade do homem, a «pátria», são mitos do homem de hoje. A função social? dos mitos foi amplamente estudada por Malinowski. O mito, segundo esse? autor, é uma interpretação que possibilita a sociedade viver os fatos? numa unidade e coesão superior?. O mito é assim força que faz a história.

O melhor? caminho? para chegar à interpretação do mito não é o exame? lógico de sua linguagem, mas a experiência em profundidade da existência. O mito é uma legenda, uma saga da história. Para interpretar essa legenda é preciso descer à dinâmica da história, vivê-la, participar? intensamente do destino? humano.

Mito é a linguagem na qual o homem está em permanente diálogo com a realidade. O homem está sempre na linguagem da realidade, antes mesmo? de instituir qualquer representação, qualquer expressão denotativa que traduza em palavras? e conceitos? esse seu modo? de ser. Portanto, o mito é a própria existência, o concreto? real? na sua visibilidade máxima. Diz-se, p. ex., a ciência é mito, a flor é mito, o homem é mito. Isto significa que o que está aí, a ciência, o homem, a flor, são percebidos como revelando e ocultando o que eles são.

O mito está, por isso, intimamente ligado ao mistério, pois, quando o homem percebe o mito de tudo quanto é, ele está na experiência do mistério. Mistério é a presença inominável que se apresenta no particular?-aí-imediato?. É o estranho no familiar?. Em alemão mistério é Ge?-heimnis. Ge significa recolhido, guardado, preservado. Heimnis significa casa, lar. Mito é a experiência que nos faz ver que tudo o-que-está-aí vive recolhido e preservado na cripta secreta do ser.

O mito proferido é mitologia?. Esta denomina também a realidade na inteligibilidade? da representação que o sujeito? (indivíduo? ou sociedade) se faz. A representação é a linguagem denotativa dos agentes. Estes dizem a vida, os problemas e conflitos da comunidade, em expressões mitológicas. Essas expressões são apenas media?ções que lhes possibilitam viver o mito da existência, i. é, a vida na ambiguidade? de seu dar-se e recusar-se, de seu revelar?-se e velar-se.


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