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HOMO SACER I

Agamben (HS:9-10) – bios e zoe

O poder soberano e a vida nua

quinta-feira 2 de dezembro de 2021, por Cardoso de Castro

AGAMBEN  , Giorgio. Homo Sacer. O poder soberano e a vida nua. Tr. Henrique Burigo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007, p. 9-10.

Os gregos não possuíam um termo único para exprimir o que nós queremos dizer com a palavra vida. Serviam-se de dois termos, semântica e morfologicamente distintos, ainda que reportáveis a um étimo comum: zoe, que exprimia o simples fato de viver comum a todos os seres vivos (animais, homens ou deuses) e bios, que indicava a forma ou maneira de viver própria de um indivíduo ou de um grupo. Quando Platão, no Filebo  , menciona três gêneros de vida e Aristóteles, na Ethica nicomachea, distingue a vida contemplativa do filósofo (bios theoretikos) da vida de prazer (bios apolaustikos) e da vida política (bios politikos), eles jamais poderiam ter empregado o termo zoé (que, significativamente, em grego carece de plural) pelo simples fato de que para ambos não estava em questão de modo algum a simples vida natural, mas uma vida qualificada, um modo particular de vida. Aristóteles pode decerto falar, referindo-se ao Deus, de uma zoe ariste kai aidios, vida mais nobre e eterna (Met. 1072b, 28), mas somente enquanto pretende sublinhar o fato não banal de que até mesmo Deus é um vivente (assim como, no mesmo contexto, serve-se do termo zoe para definir, de modo igualmente pouco trivial, o ato do pensamento); mas falar de uma zoe politike dos cidadãos de Atenas não teria feito sentido. Não que o mundo clássico não tivesse familiaridade com a ideia de que a vida natural, a simples zoé como tal, pudesse ser em si um bem. Em um trecho da Política (1278b, 23-31), depois de haver recordado que o fim da cidade é viver segundo o bem, Aristóteles exprime, aliás, com insuperável lucidez esta consciência:

Este (o viver segundo o bem) é o fim supremo seja em comum para todos os homens, seja para cada um separadamente. Estes, porém, unem-se e mantêm a comunidade política até mesmo tendo em vista o simples viver, porque existe provavelmente uma certa porção de bem até mesmo no mero fato de viver (kata to zen auto monon), se não há um excesso de dificuldades quanto ao modo de viver (katà ton bíon), é evidente que a maior parte dos homens suporta muitos sofrimentos e se apega à vida (zoe), como se nela houvesse uma espécie de serenidade (euemeria, belo dia) e uma doçura natural.

A simples vida natural é, porém, excluída, no mundo clássico, da pólis propriamente dita e resta firmemente confinada, como mera vida reprodutiva, ao âmbito do oikos (Pol. 1252a, 26-35). No início de sua Política, Aristóteles usa de todo zelo para distinguir o oikonomos (o chefe de um empreendimento) e o despotes (o chefe de família), que se ocupam da reprodução da vida e de sua subsistência, do político e escarnece daqueles que imaginam que a diferença entre eles seja de quantidade e não de espécie. E quando, em um trecho que deveria tornar-se canônico para a tradição política do Ocidente (1252b, 30), define a meta da comunidade perfeita, ele o faz justamente opondo o simples fato de viver (to zên) à vida politicamente qualificada (tò eû zên): ginoméne mèn oùn toû zên béneken, oûsa dè toû eû zên “nascida em vista do viver, mas existente essencialmente em vista do viver bem” (na tradução latina de Guilherme de Moerbeke, que tanto Tomás como Marsílio de Pádua tinham diante dos olhos: facta quidem igitur vivendi gratia, existem autem gratia bene vivendi).


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