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Os Problemas da Filosofia

Russell (PF) – verdade

segunda-feira 15 de novembro de 2021

Bertrand Russell  , Os Problemas da Filosofia, trad. de António Sérgio, pp. 160-165.

? três pontos a observar? na busca da natureza? da verdade?, três requisitos para qualquer teoria?:

1) A teoria da verdade deve ser tal que admita o seu contrário, a falsidade?. Alguns filósofos?, e não poucos, deixaram de satisfazer adequadamente a esta primeira? condição?: construíram teorias segundo as quais todo o nosso pensar? deveria ser verídico?, o que os pôs nas maiores das dificuldades para achar um lugar para a falsidade. A este respeito?, deve diferir a teoria da crença? da teoria da intimidade, já que no caso da intimidade não é necessário? tomar em conta? a existência? de um contrário.

2) Evidente parece que, se não houvesse crenças, nada? poderia haver que fosse falso, nem tão-pouco haver verdade, no sentido? em que a verdade é correlativa da falsidade. Se imaginarmos um mundo? só de matéria?, não haverá nele lugar para o falso; e, se bem se contivessem nesse mundo aquilo a que podemos chamar «fatos?», não haveria nele verdade alguma, no sentido da palavra? «verdade» em que esta última designa cousas da mesma espécie? que as falsidades. O verdadeiro? e o falso são, de fato, propriedades das crenças e das asserções; e, por isso, um mundo de pura matéria, não contendo crenças nem asserções, não teria verdades nem falsidades.

3) Cumpre porém observar, em contraposição? ao que acabamos de dizer aí, que o verdadeiro e o falso de qualquer crença dependem de algo exterior? à crença. Se creio que Carlos I veio a falecer no cadafalso, creio veridicamente, não em virtude? de qualquer qualidade? que seja intrínseca à minha crença, a qual pudesse ser descoberta? pelo simples? exame da mesma crença, senão que em virtude de um sucesso? histórico? que há dois? séculos e meio? se desenrolou. Se creio que Carlos I faleceu na sua cama, terei então uma crença falsa: e grau? algum de vivacidade? da crença, ou de diligência para chegar a ela, a poderá impedir de ser errônea, — e em virtude, também aqui, daquilo que sucedeu há muito tempo?, e não em consequência? de qualquer qualidade que seja intrínseca à própria crença. Por conseguinte, se bem que a verdade e a falsidade sejam propriedades das nossas crenças, são propriedades que estão dependentes de relações? de crenças com outras cousas, e não de internas qualidades das crenças.

O terceiro dos requisitos acima indicados conduz-nos a adotar o modo? de ver? (que tem sido o mais comum? entre os filósofos) de que a verdade é, ao cabo de contas, qualquer forma? de correspondência? entre crença e fato. Não é, no entanto, de maneira alguma cousa fácil o encontrar uma forma de correspondência para que não haja objecções irrefutáveis. Em parte? foi por isso mesmo? (e em parte pela impressão? que se a verdade, de fato, consistisse numa correspondência do pensamento? com alguma cousa de exterior a ele, nunca ao pensamento lhe seria dado? saber? quando é que a verdade tinha sido atingida) que se empenharam numerosos filósofos em tentar descobrir uma definição? da verdade que não consistisse numa relação da crença com algo inteiramente exterior a ela. A tentativa de maior importância para estabelecer uma definição desta última espécie é a teoria de que a verdade consiste na coerência?. O índice? da falsidade é, ao que se diz, a incapacidade de entrar em organização coerente no edifício ou conjunto das nossas crenças, sendo? a essência? de qualquer verdade o ser parte do sistema? inteiramente acabado, que é A Verdade.

Encontra-se, porém, uma grande dificuldade neste modo de ver; ou, melhor dito?: duas grandes dificuldades. A maior das dificuldades é que não há razão? para que admitamos que só é possível? um corpo? de crenças coerentemente organizado. Pode bem ser que um novelista, com dose suficiente de fantasia?, pudesse inventar um passado? para o mundo que se ajustasse a primor com o que nós sabemos, e que diferisse inteiramente do passado real?. Em matérias de caráter? mais científico, certo é que sucede frequentes vezes apresentarem-se duas ou mais hipóteses? que explicam todos os fatos por nós conhecidos que têm relação com dado assunto; e se bem que os cientistas, em casos tais, façam diligências para achar quaisquer fatos que excluam todas as hipóteses menos uma, não se vê razão por que o consigam sempre.

Em filosofia, mesmissimamente, não parece raro que duas hipóteses rivais sejam ambas capazes de explicar? os fatos. Assim, por exemplo?, é possível que a vida? seja um longo sonho? e que o grau de realidade? do mundo exterior só seja o que os objetos? dos sonhos têm; no entanto, sem embargo de que esse? modo de ver não parece incompatível com o que sabemos dos fatos, não há motivo? para lhe darmos preferência? sobre a interpretação? corrente do senso comum?, segundo o qual existem as outras pessoas?, assim como as cousas. Deste modo, pois, falha a coerência como definição da verdade, porque nada prova? que só possa haver um único? sistema de organização coerente.

A outra objeção? a essa definição da verdade é que supõe conhecida a significação? de «coerência», quando a coerência, afinal de contas, pressupõe a verdade das leis? da lógica?. Duas proposições? são coerentes quando ambas elas podem ser verdadeiras e são proposições incoerentes quando uma, ao menos, deve ser falsa. Para saber, porém, se duas proposições podem ser ambas verdadeiras, é preciso conhecer? verdades tais como o princípio? de contradição?. Por exemplo: as duas proposições: «esta árvore é uma fala?» e «esta árvore não é uma fala», não são coerentes por causa do princípio de contradição. Porém, se ao próprio princípio de contradição o sujeitássemos à prova de coerência, acharíamos que, se escolhêssemos o supor? tal princípio falso, nada haveria de aí em diante que fosse incoerente com o quer que fosse. As leis da lógica, por conseguinte, ministram o esqueleto ou travejamento adentro do qual se pode aplicar a prova de contrastaria da coerência; a elas próprias, porém, não as podemos estabelecer por essa mesma prova.

Pelas duas razões indicadas, não podemos aceitar? a coerência como dando o significado? da verdade, se bem que seja frequentes vezes uma prova de contrastaria da verdade, que tem de fato a maior importância quando já conheçamos, previamente, uma certa dose de verdade.

Eis-nos, por conseguinte, revertidos à correspondência com um fato como constituindo a natureza da verdade. Resta definir o que se entenda por «fato» e qual a natureza da correspondência que deve subsistir? entre crença e fato para que seja verdadeira uma certa crença.

De acordo? com os nossos três requisitos, cumpre-nos buscar uma teoria que 1) permita à verdade o ter ela um contrário, a saber, o falso; 2) faça da verdade uma propriedade? das crenças, mas 3) faça dela uma propriedade que por inteiro dependa da relação das crenças com cousas exteriores.


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