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Da essência da informática

de Castro: constituição/instituição do objeto-técnico informacional-comunicacional

Textos associados à tese de doutorado

sexta-feira 12 de novembro de 2021

Uma tentativa de aproximar e articular o pensamento de Heidegger   e o de Raymond Abellio  , em sua fenomenologia da estrutura absoluta.

Uma tecnologia? informacional-comunicacional (TIC), baseada em algum dispositivo computacional, a exemplo? de qualquer tecnologia, se constitui através de um processo?. A exemplo de qualquer processo, também percorre etapas para sua constituição. Não apenas aquelas etapas mais explícitas e visíveis, consagradas pelos engenheiros e técnicos em suas metodologias de desenvolvimento? tecnológico. Metodologias que encaminham e preconizam uma construção progressiva de um TIC, desde sua idealização até sua concretude “material?”, a operar como instrumento? ou ferramenta de uso?. Ou seja, etapas não só constituidoras do TIC, mas também simultaneamente instituidoras de tipos? de “sujeitos-agentes” em confronto com o “objeto?-técnico”, como, por exemplo, o “sujeito?-desenvolvedor” (engenheiros de sistemas?) e o “sujeito-usuário” do objeto técnico, um impessoal? “quem” na abertura de ser-aí (Dasein?) em que o objeto-técnico, instrumento ou ferramenta, surge mais e mais “concretamente” no modo? de ser-à-mão (Zuhandensein?, ser-utilitário).

No pensamento? de Raymond Abellio   (1965, 1981 e 1989), um processo mais denso e complexo? está se desenvolvendo na constituição de um objeto-técnico, que é o processo simultâneo de gênese ou de instituição de um “sujeito”, pseudo?-fundamentado em um “ego?”. Um processo em que ego e tecnologia se configuram, sob tensão permanente, como pólos de uma díade, na instituição deste sujeito. Em outras palavras?, ego e tecnologia são, neste processo, o zênite e o nadir, ou seja, os extremos de um eixo ordenador na gênese e desenvolvimento do sujeito, seja desenvolvedor ou usuário do objeto-técnico.

Este processo, cujas etapas respondem pela instituição do sujeito e pela constituição do objeto-técnico, simultaneamente, responde também pela ascensão progressiva da razão a um determinado lugar e papel? individual? e coletivo.

Dado? o próprio caráter? de iniciação do ser-aí em ocupação e lida com um ente surgindo à-mão (zuhanden) enquanto objeto-técnico, Abellio   reconhece o caráter iniciático das etapas de um ego em instituição como sujeito pari-passu com o processo de constituição do objeto-técnico. Abellio   sugere identificar estas etapas a “ritos? de passagem” na gênese do “ego-sujeito-objeto?”. Usando, com reservas, uma terminologia? religiosa?, Abellio   denomina as etapas da gênese, “sacramentos”, que etimologicamente significam “atos? sagrados?

Entre o momento? da concepção e do nascimento, quer dizer durante a gestação, faço parte? das águas indiferenciadas no seio de minha mãe. Não sou ser-no-mundo? mas ser-antes-do-mundo. Já uma questão se coloca: qual é este “Eu” que fala? aqui e que tem ele de comum? com este outro “Eu” imerso em seu limbo? De imediato? deparo com a contradição ou ilusão de toda explicação genética, que não saberia jamais ser uma explicação radical no sentido? que se apoia sempre sobre o saber? atual? disto que a gênese deve justamente explicar?. De imediato, me acho tratando do inacabado em termos de acabado, e digo inocentemente: Eu fui ou Eu sou?, enquanto Eu resto a ser. É um fato?: o Eu que fala aqui é meu Eu atual, tal qual ele se tornou, e ele coloca apenas um olhar? objetivante, e por conseguinte alienante, sobre este embrião que ele foi e cujo olhar ele jamais conheceu. E nada?, com efeito?, não me permite afirmar que o embrião também não tinha seu olhar, embora este seja para mim como se jamais tivesse sido. Toda reserva deve ser feita desde o início sobre o caráter imperfeito da mirada deste “Eu”, que é, pode-se dizer, duplamente inocente, no sentido que é inocentemente objetivo? pois vê meu embrião de fora?, como um objeto banal semelhante? a todos os embriões humanos, e também inocentemente subjetivo? pois se associa a um olhar “humano?”, provavelmente provisório e em todo caso localizado e limitado deste embrião. (Abellio  , 1965, p. 37)

Desta maneira, percebe-se que todo discurso? radical sobre a gênese do ego-sujeito-objeto, ou seja, sobre sua plena instituição, em sua dimensão espacial e temporal?, será, portanto, uma tentativa para nos fazer? sair da objetividade? e da subjetividade? “ingênuas” [1], e pode-se mesmo? pensar? que esta necessidade? que tenho de destacar em tudo estruturas invariantes, e mesmo esta confiança intuitiva? que tenho deste termo? estrutura?, indicam justamente minha crença nesta possibilidade? de “ir além” das aparências.

  Etapas da gênese do ego-sujeito-objeto

Retomando as etapas ou os sacramentos, atos sagrados sugeridos por Abellio  , se tem primeiramente, a “Concepção”, enquanto acontecimento? (Ereignis) que constitui como ser-no-mundo? um futuro? pretenso “quem” de ser-aí, porém ainda segundo uma mundanidade pouco delineada no seio de minha mãe, guardando assim certa analogia? com as “águas indiferenciadas” do Gênesis bíblico.

Ao final desta gestação no seio “matricial” das “águas indiferenciadas” tem lugar uma segunda etapa, um segundo sacramento, o “Nascimento”, por meio? do qual se dá um posicionamento diante do mundo, uma confrontação criando a primeira? separação e distanciamento? do ser-em, o dar-se do ser-com? (Mitsein) outros, entres os quais o “outro-sou-que-sou” sem que o saiba, obrigatoriamente. O nascimento é a aparição na clareira do dos outros dentre os quais este “outro” que sou, enquanto não mais nas “águas indiferenciadas”, mas doravante surgência na clareira em que qualquer ente/sendo? se é dado, com que se é compreendido e instituído, de que se é constituído. O nascimento é uma abertura da transcendência diante de todos os outros? que se cercam na clareira, embora ainda não o seja, para para um suposto? “quem” do ser-aí.

Durante a infância o poder? separador dos sentidos corporais? desenvolvem-se, gradativamente ampliando a separação e distanciamento em/com/de ser-no-mundo, em outros termos, intensificando esta transcendência iniciada? com o Nascimento. Nas águas indiferenciadas, nenhuma separação era? perceptível; a vida? matricial da mãe era a única vida; sua morte? geralmente era a mortalidade na dissolução da vida.

O Nascimento significa uma separação, fundando uma abertura de ser-no-mundo enquanto uma clareira em que se dá a iniciação de um “quem” do ser-aí, mas ainda de forma? difusa, sob olhar ainda despreparado, pois para os sentidos corporais, que começam a “tatear”, e ainda irreconhecíveis como pertinentes a este “quem”; engatinha-se nesta mundanidade ainda mal? pertencente. Segue-se uma série de modos mais e mais complexos desta mundanidade; não há apenas uma mundanidade, mas uma série indefinida de “modos” de mundo.

O sacramento seguinte, o “Batismo”, é a etapa na qual, justamente, há “quem” dos sentidos corporais. Há a capacidade? de se perceber? que se percebe, “uma relação que se relaciona consigo mesma”1 se faz notar. Ou seja, evidencia-se “na relação, a orientação interior? da mesma”,que indica o despertar de um “quem” das sensações, ou dos próprios sentidos corporais, como mediadores? entre outros e entes, dando-se na abertura de ser-no-mundo na clareira de Aí.

No Batismo, intensifica-se este “quem” declinado-se um ego-sujeito-objeto, ou seja a força atratora da relação sujeito-objeto, em detrimento da anomia? da unidade? das águas diferenciadas e mesmo do ato sagrado de nascer ainda na unicidade? de ser-no-mundo. Todavia é possível mas pouco provável que se reconheça doravante que a noção de objeto guarda sempre subjacente a si, a de sujeito, e vice-versa.

A etapa seguinte, a “Comunhão”, intensifica ainda mais a experiência do “Batismo”. Por meio dela, aprofunda-se mais essa “percepção da percepção”, transfigurando o “voltar-se da relação sobre si mesma”, consequentemente ser-com co-origin?ário do ser-aí. Tem início uma nova percepção, um ser-um-com-outro (Miteinandersein): um ego-sujeito em um mundo de egos-sujeitos, e não apenas de objetos. De fato, manifesta-se um novo modo de presença do “ego-sujeito-objeto” e de atuação da Razão.

Segundo Abellio  , as etapas não são todas obrigatoriamente percorridas, até sua conclusão, a plena instituição do “ego-sujeito-objeto”. Da mesma forma, as passagens de uma para outra não são instantes, mas transcursos. Segundo uma consideração justa, não existiria qualquer gênese linear, pois tudo estaria se dando ao mesmo tempo?, o que tornaria impossível todo discurso e mesmo toda denominação, obrigatoriamente sujeitas a linguagem?, em seu desdobramento linear de natureza? espaço-temporal. Com efeito, para Abellio  , nomear? é estabelecer, ao mesmo tempo, não apenas um espaço de conexões, mas também caminhos? e um tempo de percurso, nestas mesmas conexões.

Das águas indiferenciadas até a instituição do “ego-sujeito”, pode-se notar que tudo que se percebe, ou se imagina, ou se pensa, não é o-que-se-é radicalmente, enquanto pura nadidade que se faz ser sendo. Não se-é tais objetos que se percebe, não se-é as imagens? que se imagina, não se-é as noções que se pensa, nem o discurso que se sustenta. Como pura “quem” do ser-aí, profere-se “eu”, e em seguida, percebe-se, imagina-se e cogita-se, alguma coisa?, que é objeto em relação a este “eu”, ou seja, em relação a este princípio radical de cada “quem”, este ato de ser [2].

Quanto à constituição progressiva, após a etapa de “Concepção”, do chamado? “ob-jeto”, entendido como “aquilo-posto-diante” do “eu” (este último sendo o princípio radical que atribui exist?ência ao objeto), é preciso compreender? que este objeto é sempre definido (nomear um objeto, com efeito, é torná-lo uma ferramenta, nem que seja um instrumento de linguagem; mas a utilidade nada mais é que uma banalização da verdade?, ela não revela o objeto ou o ente enquanto tal), no seu sendo, pelo estabelecimento de um conjunto aberto? de relações, lhe conferindo sentido, significação, funcionalidade, utilidade, mas sem revelá-lo em todo sendo que é, que também guarda em si o mistério do ser-aí em cuja abertura surge, enquanto nadidade pura. Esta relação que une ego-sujeito a objeto, todos dando-se nesta clareira do na abertura de ser-no-mundo, enquanto constituição fundamental do ser-aí, pode ser denominada intenção, como preconiza Husserl  ; o sendo desta intenção (ego?), o sendo do sujeito e o sendo do objeto se configuram, portanto, como momentos ou modalidades da intencionalidade? [3].

  Uma possível análise da percepção

Na tentativa de melhor elucidar as etapas do processo em que, simultaneamente, se dá a constituição do objeto técnico (prático ou teórico) e a instituição do ego-sujeito, Abellio   propõe uma análise da percepção. A exemplo do que fez Merleau-Ponty   (1945) na Fenomenologia? da Percepção, Abellio   recupera o significado? da percepção na identificação de uma estrutura fenomenológica de forte repercussão. Através da análise da percepção evidencia-se também certo sentido do “corpo”.

Na atitude? natural, me vejo simplesmente confrontado ao mundo, face a face com ele. Vejo tal objeto, um livro, por exemplo, posto sobre a minha mesa, e a mirada não vai além desta relação simples?: este livro e eu, o par?: objeto percebido e o sujeito “percebedor”. No entanto, é preciso examinar mais de perto o desenrolar desta percepção segundo o percurso proposto por Abellio  :

  • primeiro, o mundo deve ativar para mim um objeto até então passivo?; não cabe aqui um debate sobre a primazia do mundo ou do corpo na percepção, ou seja, quem dispara a percepção; trata-se de um debate semelhante aquele que tenta descobrir quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha; o fato é que ambos nascem juntos fenomenologicamente, embora estruturalmente se tenha uma espécie de corrente que se estabelece entre o mundo e o objeto que se destaca dele; o livro que vejo é um objeto do mundo, e para que seja visível, deve se destacar de alguma maneira sobre um fundo mais ou menos distinto; este fundo, o mundo enquanto suporte? de todos os objetos, não recai sobre a minha mirada, mas é o horizonte? que a torna efetiva, a sustenta;
  • segundo, Abellio   imagina que um objeto qualquer, se destacando do mundo, ou sendo recortado do mundo, se torna por conseguinte ativo em relação a este último, que, por sua vez?, se torna passivo; o mundo se mantém assim enquanto fundo mais ou menos indistinto?, verdadeiro? suporte unitário e global dos objetos; ou seja, condição a priori? da emergência deste mesmo objeto; neste sentido, é que o mundo se apresenta como “pano de fundo”, horizonte de objetividade, não “visível” em si, mas que assegura, por sua vez, a mirada do objeto ...
  • objeto se destacando, tomando sentido (um jogo? de palavras que indica tanto o fato do objeto ganhar presença nos órgãos de sensação, como também significado), rejeitando uma certa indistinção, com o resto do mundo, estabelece com este último, no entanto, uma primeira relação ou "razão" do tipo Objeto/Mundo; pode-se mesmo dizer que tal objeto se tornou ativo em relação ao resto do mundo, considerado então passivo; existe assim, e sempre existirá, uma dualidade forma-fundo do lado do percebido...
  • esta mesma dualidade também se instala do lado daquele que percebe, o sujeito; um ou mais órgãos dos sentidos (visão, audição, tato? etc.) se liberam e se abrem ativos, se destacando do fundo passivo, em repouso?, do corpo; no exemplo do livro sobre a mesa, é preciso que a vista?, que enxerga o livro e se interessa especialmente nele, se abra e se torne ativa (+), sobre o fundo posto em repouso do corpo; este se torna passivo (-) e suas demais funções se fundem no fluxo de certa indistinção; em nossa figura?, uma rotação têm lugar, do objeto para a vista, ou seja, um sentido se cria;
  • a vista se tornando ativa, acolhe o objeto, mas o fato capital é que, sob a excitação da vista, uma corrente se estabelece da vista (+) para o corpo inteiro (-); o corpo, anteriormente feito passivo pela abertura da vista, se torna ativo, mas a um grau? de atividade? maior do que antes do início da percepção; do “lado” do sujeito, forma-se assim uma segunda relação ou “razão” do tipo Sentido/Corpo, em interação com a primeira relação Objeto/Mundo...
  • o olhar dá o objeto ao corpo e o corpo inteiro se apropria do objeto, o tornando um instrumento ou ferramenta; esta apropriação deve ser entendida como uma intensificação do objeto; em outros termos, os sentidos, por seu poder discriminador, têm por missão distinguir?, enfocando os objetos do mundo, mas o corpo inteiro tem por missão, por seu poder integrador, reintegrar tudo em si, sob a forma de instrumentos ou ferramentas, estes objetos distintos, e de assim se abrir a um novo modo do mundo; com referencia a figura, por uma segunda rotação, em sentido inverso da primeira, o corpo, novamente ativo, como no início da percepção, fecha o círculo se voltando para o mundo feito então passivo; o corpo, graças aos novos poderes, devidos ao instrumento ou ferramenta incorporado, vai animar mais uma vez o mundo, que volta a se tornar ativo, promovendo um novo ciclo, um perpetuum mobile com novas emergências de entes se tornando objetos...
  • tanto o objeto, quanto a vista são, em outros termos, emergências locais? de uma realidade? global, que devem vir a ser? “re-enraizadas” ou arriscam voltar a se dissolver no mundo e no corpo, respectivamente;
  • a constituição comum de objeto-técnico e do ego-sujeito, através dessa análise da percepção, indica que, do “lado” do objeto, se tem uma relação ou razão Objeto/Mundo e, do “lado” do sujeito, outra razão Sentido/Corpo; estas razões se associam então na forma de uma proporção que as combina da seguinte forma: Objeto/Mundo = Sentido/Corpo; assim, como já havia reconhecido Husserl  , a colocação em relação de dois termos ou de dois polos, e somente dois, como sujeito e objeto, é uma noção ingênua, pois não há polos ou termos que sejam estáveis na gênese do ego; uma relação deste gênero oculta na verdade a emergência de uma proporção, ou seja, de um ciclo de relações, como na figura acima (Estrutura da percepção), levando à multiplicação, à intensificação e à transmutação dos polos ou dos termos...
  • essa proporção não é fechada nem estável, e seus termos não são fixos; é um proporção não isolável, tomada e levada em um movimento? dialético; pelo esquema? da figura, como lembra Abellio  , é possível notar que o processo de percepção “crucifica” o “eu”, a cada ciclo, no espaço-tempo; o que importa, no entanto, é compreender bem o sentido da passagem do termo à razão ou relação, enquanto acoplamento de termos, e da razão à proporção, enquanto acoplamento de razões; não importa discutir “quem” do ser-aí enquanto comando de toda a operação, só importando a constituição ser-no-mundo em/com/de que tudo surge.

  Razão e proporção na estrutura da percepção

Abellio   faz algumas constatações interessantes, em função da ideia? de “proporção” que agora? se impõe à simples e ingênua relação sujeito-objeto, através desta análise da percepção. Primeiro, toda relação ou razão de dois termos se exprime pela presença implícita, nesta mesma relação, de um terceiro termo, que não se revela. Este terceiro termo, imanente? à relação entre os outros dois, é o ser do Aí.

Dada as fortes conotações deste termo, prefere-se doravante denominá-lo apenas “visão” ao invés de ser do Aí. Segundo uma possível leitura de Heidegger   este ser do Aí, proporcionaria ao ser-no-mundo certa “visão”, reunindo em sinergia?: uma disposição (Befindlichkeit?) e uma congênere compreensão (Verstehen), combinada com uma interpretação (Auslegung) e seu consequente? discurso (Rede). Esta leitura permitiria afirmar uma ontogenia do ego-sujeito-objeto se dando através da amplificação e consolidação de certa “visão” do ser-no-mundo enquanto tal.

Certamente, aqui o termo “visão” não somente se aplica àquela intuição obtida pela vista, mas se refere também a qualquer percepção sensorial além da visual, como olfato, tato, sabor e audição, além de inúmeras vezes, se referir a uma intuição intelectual?, sem a ajuda dos sentidos, como nas matemáticas. Ou seja, qualquer apreender?/apropriar por meio dos sentidos liberados e abertos na clareira de ser-no-mundo, como toda espécie de apreender/apropriar intelectual que realize um saber, se enquadra sob a ideia ora exposta. O alemão Wissen e as palavras da mesma família, die Weisheit, o saber, a ciência, der Weise, o sábio, derivam de visum, supino do latim videre. Assim como eidos?, forma, no sentido de maneira de ser, deriva de FID, raiz? vizinha do indo-europeu VID que significa ver: de onde decorrem as palavras sânscritas veda, vidya (conhecimento?). A raiz VID significa ao mesmo tempo ver e saber. [4]

Voltando à razão ou relação, pela discriminação dos termos postos em relação, a “visão” emergente do ser do Aí justamente os constitui, e assim também se institui enquanto “quem” do ser-aí manifestando-se como ego-sujeito-objeto. Ao expressar toda relação, seja a mais ampla como a do tipo Corpo/Mundo, pela combinação de Corpo e Mundo separados por um traço horizontal, o simbolismo? algébrico ou aritmético (/) reconhece este fato: a relação não é apenas de dois termos, mas de três, e o traço de separação-ligação (/) nada mais é do que um símbolo deste terceiro termo, ser-do-aí, em sua dupla função de dissociação redutora e de reintegração, ou em outras palavras, de análise em termos de disposição, compreensão, interpretação e discurso, e de síntese em termos de ser-no-mundo, sob a aparência de ego-sujeito-objeto. Pela atuação destas funções, de análise e de síntese, a relação original Sujeito/Objeto, ou melhor posto Corpo/Mundo, pode vir a se amplificar e se intensificar, vindo a se constituir em uma proporção do tipo Objeto/Mundo = Sentido/Corpo. Nessa forma algébrica da proporção, Abellio   chama a atenção para o sinal? de igualdade, dois traços superpostos, e lembra que este deve ser entendido como um símbolo da necessária leitura simultânea de duas razões ou relações, em lugar de sua leitura linear ou em sucessão.

Ainda para uma melhor compreensão do pensamento apresentado, seria preciso retomar algumas questões, como as noções clássicas de razão ou relação, e de proporção. Desde os pitagóricos, certas correntes filosóficas, vêm tentando promover a “visão” para que esta conduza a Razão em direção ao sentido da Unidade, especialmente através do pensamento matemático.

Neste sentido, os pitagóricos acreditavam que seria possível uma aproximação da compreensão da Unidade, através de uma sucessão de relações proporcionais. Uma proporção, como visto, é formada por razões, e uma razão é uma comparação entre diferentes tamanhos, quantidades, qualidades?, ou ideias?, expressa sob a fórmula a/b, ou a:b [5].

Uma razão, portanto, constitui a medida? de uma diferença, uma diferença para qual pelo menos uma de nossas faculdades? sensoriais pode responder. Desta maneira, a razão a:b é uma noção fundamental para todas atividades de percepção.

Uma proporção, entretanto, é algo mais complexo, pois é uma relação de equivalência entre duas razões, quer dizer, um elemento é para um segundo elemento, como um terceiro elemento é para um quarto: a é para b como c é para d, ou a:b::c:d. Logo, a proporção, conhecida entre os antigos gregos como analogia, representa um nível de inteligência mais sutil e profundo? que a modesta razão, que é uma resposta direta a uma simples diferença.

Buscando uma maior aproximação da Unidade, os antigos gregos buscaram limitar a proporção a apenas três elementos?, ou termos. Assim um elemento é para um segundo elemento assim como o segundo elemento é para um terceiro, ou seja, a:b::b:c. Aqui? os extremos são reunidos por um mediador, b. Os gregos a chamavam de proporção contínua de três termos, e isto indica uma inovação na simbolização dos processos de percepção. Nicômaco e outros filósofos consideravam esta como a única proporção que pode ser considerada como uma analogia.

Por sua vez, buscando uma compreensão maior da Unidade, os filósofos gregos descobriram uma proporção com apenas dois termos. Isto ocorre quando o termo menor é para o termo maior assim como o termo maior é para o menor mais o maior, ou seja, a:b::b:(a+b). O termo (a+b) se apresenta assim como uma totalidade? ou unidade, composta pela soma? dos outros dois termos.

Historicamente, a esta única proporção geométrica de dois termos foi dado o nome? de proporção áurea, sendo designada pela vigésima letra do alfabeto? grego? phi (Φ), embora conhecida por culturas? anteriores. Trata-se de uma proporção; não um número, mas uma proporção, com a pretensão de ser fundada pela, e de estar? fundando, a experiência de conhecimento operada pelo logos?.

Se considerada a proporção de Abellio   no seguinte formato Sentido/Corpo = Objeto/Mundo, se tem uma verdadeira analogia quando a é transformada em Sentido/Corpo = Corpo/Mundo, onde se pode buscar a proporção áurea, em conformidade com um olhar mais fortemente subjetivista, obtendo a proporção: Sentido/Corpo = Corpo/(Sentido+Corpo).

Por outro lado, partindo de novo da proporção de Abellio  , mas desta feita dando a primazia ao mundo: Objeto/Mundo = Sentido/Corpo, se pode obter, dentro do que se pode qualificar de um olhar “objetivante”, uma analogia expressa pela proporção Objeto/Mundo = Mundo/Corpo. Em um olhar radicalmente objetivista, pode-se chegar até a outra proporção áurea: Objeto/Mundo = Mundo/(Corpo+Mundo).

  Conclusão

Reúne-se o suficiente para se avaliar a constituição de um objeto-técnico específico, a tecnologia informacional-comunicacional (TIC). A partir das ideias de Abellio   e fórmulas tradicionais? de razões e proporções, se está apto a estabelecer um novo patamar na análise desta constituição, levando em consideração também a instituição do ego-sujeito.

Parte-se então por reconhecer uma TIC como um instrumento mediador intelectual: 1) um instrumento obtido após várias iterações do ciclo de constituição do “‘eu’ moderno? [6] em ontogenia recíproca com seu meio técnico-científico-informacional, com seus congêneres objetos-técnicos; 2) um instrumento que opera apenas ao nível do campo? intelectual, apesar de? sua base? material (hardware), que, de fato, só cumpre o papel de sustentáculo material e operacional, além de dispositivo de interface, por meio de sua linguagem (comandos e ícones). Através desta linguagem, suportada pelo software da TIC, interage-se com esta tecnologia, (pré-)conceitos? ou representações, em confronto com (pré-)conceitos e representações pré-programados no software, tentando obter os resultados esperados, geralmente de natureza informacional e comunicacional.

No caso da TIC, dada a sua sofisticação, enquanto instrumento intelectual, tentando reproduzir a inteligência humana, é conveniente lembrar que se está diante de uma proposta ambiciosa de informatização da realidade. Em outros termos, segundo a estrutura de Abellio  , as iterações do ciclo de constituição do ego-sujeito e do correlato? objeto técnico constroem gradual e efetivamente uma racionalidade? e um instrumental que impõem, pela percepção e cognição que ordenam, a instituição de um meio e de egos-sujeitos congêneres à lida e ao manuseio das TICs. Nos termos de Carneiro Leão   há aí efetivamente a chamada “informatização” da sociedade?.

Para o Pensamento, informatizar não é o verbo? que designa os fato e feitos da informática. Não nos remete apenas para o funcionamento? de ferramentas e aparelhos, não se refere a dispositivos de processamento ou a instalações de computação, com todas as mudanças que acarretam. A informatização não é o resultado da expansão mundial de uma parte, de sorte? que a totalidade resultante fosse o todo? de uma parcialidade geral?. A informatização não se reduz a transferir determinada integração de ciência e técnica, de conhecimento e ação, para todas as áreas em que se distribuem os homens histórica e socialmente organizados. Informatizar é o processo metafísico de Fim? da História do poder ocidental. Na informatização e por ela, o poder de organização da História do Ocidente se torna planetário. A dicotomia? de teoria? e prática, de mundo paciente de objetos e mundo agente? dos cérebros vai sendo superada numa composição absorvente. Por ela se complementam, numa equivalência de constituição recíproca, o sujeito e o objeto, o espírito e a matéria, a informação e o conhecimento, o mundo dos cérebros e o mundo das coisas?. A luta entre materialismo e idealismo? se torna, então, uma brincadeira de criança (CARNEIRO-LEÃO, E. et all (1987), A Máquina e seu Avesso. Rio de Janeiro, Francisco Alves, p. 7).

A proposta de Abellio  , de uma estrutura genética do ego-sujeito e de seus correlatos objetos técnicos, assume assim um caráter estimulador e provocante à necessária reflexão sobre a ideia de instrumento, analogamente expressa pela imagem da alavanca no caso da TIC. Trazendo-a de volta à reflexão, mais uma vez levanta-se, a questão à respeito? das direções opostas que um instrumento, como a TIC, pode trilhar, conforme seja sua constituição e do correlato “eu” que o explora, e também do meio onde está imersa esta interação. Sem contar? ainda com outro fato bastante pertinente: esta constituição do instrumento informacional-comunicacional se dando sempre de maneira exógena e não endógena à atividade humana a qual se destina, ou seja, intervindo de “fora” para “dentro” na constituição e instituição ego-sujeito-objeto.

A reflexão que se tentou fazer a partir do pensamento fenomenológico de Abellio  , está apenas ensaiando uma articulação com o pensamento de Heidegger  . É possível pressentir ainda eventuais equívocos de articulação conceitual entre Heidegger   e Abellio  , assim como muitas lacunas e além de certa opacidade nesta busca de meios para pensar a constituição de um objeto-técnico, como se caracteriza atualmente a TIC. Entende-se que só por estas tentativas multiformes de abordagem e questionamento? da essência da TIC talvez se possa um dia responder à questão maior: o que é a informática?.


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


[1No sentido husserliano, semelhante ao de “atitude natural”.

[2ALLARD l’OLIVIER, André. L’illumination du coeur. Paris: Ed. Traditionnelles, 1977.

[3“A intencionalidade sendo a relação sujeito-objeto, não se deixa atribuir a qualquer dos dois termos da relação.” (Fink, 1952, p. 75)

[4ALLARD l’OLIVIER, André. L’illumination du coeur. Paris: Ed. Traditionnelles, 1977, p. 37.

[5LAWLOR, R. (1991), “The Measure of Difference. Ratio, proportion, and analogy in mathematics and life”, Parabola XVI(4).

[6TAYLOR, Charles (1997), As Fontes do Self. A construção da identidade moderna. São Paulo, Loyola.