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Horizonte e Complementaridade

Eudoro de Sousa (HCSM:161-163) – antipositivismo

Sempre o Mesmo acerca do Mesmo

quinta-feira 11 de novembro de 2021

Eudoro de Sousa  . Horizonte e Complementaridade. Sempre o mesmo acerca do mesmo. Lisboa, INCM, 2002, p. 161-163

1.a Segundo declara no «Prefácio», a intuição de que partiu para escrever sua última obra?, Horizonte? e Complementaridade?, lhe adveio de um exame? da bibliografia de Parmenides  ; sem dúvida?, tem lugar no dito? livro uma discussão em profundidade das mais importantes teses que a respeito? deste filósofo recentemente se formularam, e aí V. várias vezes? toma partido com firmeza em pró de umas e contra outras posições, tanto clássicas quanto modernas?, sobre o assunto, bem como sobre temas? conexos; todavia, sua concordância, por exemplo? com Schwabl (para quem o Eleata concebera o Ser como unidade? dos contrários), ditada, conforme V. diz, pelo «pressentimento de que Parménides   e Heráclito   nem tanto se opõem quanto as histórias da filosofia? o pretendem», leva-o muito mais longe?, a uma interpretação profundamente nova, pareceu-nos, do texto? parmenídeo (e daí V. arranca para uma revisão geral? dos chamados pré-socráticos  , numa perspectiva? que se nos afigura inédita); V. poder?á, talvez, confirmá-lo para um leitor menos assíduo? de trabalhos? desta natureza? — e fazer? justiça a nossa impressão última de que o seu livro todo, recolocando de maneira original a problem?ática das relações entre filosofia e mitologia? (ou, se há que limit?á-lo de facto?, entre «mito? e metafísica nos primeiros filósofos gregos»), está para com a rica bibliografia citada numa posição singular? — pois em grande parte?, e até onde nos foi dado? conferir, menos se apoia nela do que a questiona... Repare bem, não desejamos injuriá-lo com a tentação da modéstia, nem com outra semelhante?; mas se estamos certos, queremos saber? o que o leva a remar contra a correnteza de forma? tão decidida. Descortinar a linha do horizonte na filosofia e no universo? mítico que colida implica em refazer ao contrário o caminho? trilhado pela exegese? tradicional? e pelos historiadores do pensamento??

1.a A primeira? questão é deveras complexa, mas acho que facilmente se desdobra em suas diversas componentes. Começo pelo final: «queremos saber o que o leva a remar contra a correnteza de forma tão decidida», e vou juntar? a estas palavras? uma linha precedente: «recolocando de maneira original a problemática das relações entre filosofia e mitologia». Com isto, eu? associo mais estreitamente o «remar contra a correnteza» e a «recolocação (deixemos o [161] ‘original’) do problema das relações entre mitologia e filosofia». Quer dizer: a recolocação ou o enunciado? do problema tem algo que ver? com o «remar contra a correnteza», e vice-versa. Há uma coisa?, e uma coisa só, de comum? e subjacente às duas proposições, e essa, parece-me, é o meu decidido e radical antipositivismo?, ou seja, a oposição (proveniente, talvez da minha irredutível subjectividade) a tudo quanto, de longe ou de perto, lembre a tão famosa quanto funesta lei? dos três estados: evolução do pensamento humano?, articulado na sucessão de (1) religião ou teologia? (mito), (2) metafísica ou pensamento lógico-discursivo? e (3) ciência experimental? ou teórica. Não vejo, nunca vi, e desafio que me demonstrem e convençam de que, na Grécia histórica (desculpe! é o meu referencial favorito), as três não estejam e não sejam sempre co-presentes e co-agentes, e que se possam apagar todos os vestígios de um colóquio entre elas, que pode e deve ter? sido bastante fecundo e produtivo?, mesmo? nos momentos não raros em que ele degenerou em áspera polêmica. Portanto, a tal «originalidade?», a que V. se refere, talvez se reduza apenas a certa acuidade com que descubro e denuncio o positivismo? latente? em «Histórias da Filosofia», cujos autores in-dignadamente repudiariam a acusação, mas que, sem consciência disso, vão, descuidados, ao sabor da corrente. Agora? regredamos ao princípio da longa e complicada pergunta?. Quando V. afirma: «aí V. várias vezes toma partido com firmeza em pró de umas e contra outras posições», só tenho de responder que, pelo menos no caso específico de Parménides  , e com abundante e clara evidência, o exame atento da bibliografia demonstra que os problemas suscitados pelos últimos versos do «Proémio» (os quais eu devia ter mencionado se pretendesse escrever uma obra sobre o Eleata, que aspirasse à completude) e os últimos versos do frg. 8 (que são os mais visados no meu livro) não se resolvem (verificamos que efectivamente não se resolvem) no domínio da filologia? — não há gramática e dicionário, por mais vastos e minuciosos que sejam, que resolvam satisfatoriamente as ambiguidades que, tanto mais o são, quanto mais intensamente sobre elas incidir a nossa atenção. Daí, a necessidade? de optar, referida no «Prefácio». Optei, portanto; tal como todos os demais intérpretes optam, queiram ou não queiram, confessem-no ou não. Repare-se, porém, que a escolha? de um dos membros da alternativa? («Proémio» e «Doxa?», como artifícios literários ou dialécticos, por um lado, e, por outro lado, levar até às últimas consequências e com toda a seriedade? a exigência que nasce da ideia? de que tem de haver uma «unidade interna de composição») não foi um jogo? de «cara ou coroa». A opção vem como [162] consequência necessária de uma inclinação, que sempre foi minha, para mais relevar o que aproxima, do que chamar a atenção, com repicar de sinos ou bramidos de trompas, para o que separa e opõe os filósofos que leio e medito. Talvez seja este, outro aspecto? da «originalidade» que V. me atribui, porque, voltando ao final da sua longa pergunta, é possível que tal inclinação «implique refazer (não diria ‘ao contrário’) o caminho trilhado pela exegese tradicional e pelos historiadores do pensamento». Com efeito?, nesta perspectiva, haveria que escrever outra história da filosofia, e, certamente, ela seria escrita? por quem tivesse a coragem?, a audácia e o vigor? argumentativo (que, sinceramente, não julgo ter) de, por exemplo, aproximar mais o Espinosa   da Ética, dos pré-socráticos  , do que os filósofos que imediatamente lhe sucedem, e não desdenhar, por não muito justificado respeito à rotina ou à tradição, de certos pensadores malditos, do Renascimento? e do Romantismo?, e de seus epígonos de todos os tempos. Na verdade?, a filosofia também tem seus marginalizados?; e desejo? calorosamente que algum dia eles se vinguem, ou que os vinguem quem melhor conseguir descodificar os seus escritos.

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