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Da essência da informática

de Castro: essência da informática na analogia com a alavanca

Textos associados à tese de doutorado

quarta-feira 10 de novembro de 2021, por Cardoso de Castro

    

Cada vez que digo que se poderia substituir   tal ou tal representação por tal outra, avançamos um passo para a meta que é de apreender a essência   daquilo que é representado. Wittgenstein  , Remarques philosophiques.

Falar de essência, informática e analogia  , requer algumas notas prévias, para assegurar a justa compreensão   do que se está tratando. A “essência de alguma coisa é aquilo que ela é”, sua vigência (do verbo   wesen), enquanto aquilo que vige, seu vigor, sua permanência, como afirmou Heidegger   (2002), na excelente tradução de Carneiro Leão  . Não se trata de algo etéreo pairando sobre a aparição de algo mas o próprio   vigor do aparecer   de algo enquanto algo.

“Para chegarmos à essência ou ao menos à sua vizinhança, temos de procurar o verdadeiro através   e por dentro do correto” (Ibid.), e neste sentido a analogia pode ser um "jogo  " de peças assimiláveis, que por tal similariedade propiciam alguma aproximação da natureza enquanto força de desabrochar do contemplado  , enfim de sua essência. Analogia é um termo originário do grego (ana + logia), este último por sua vez derivado de lego   (reunir  , colher, escolher), que designa um constituir proporção, ou seja, um compor uma relação   proporcional entre os elementos   que entram na jogo de peças do corpo do mundo (Platão, Timeu  ), ou entre os quatro graus de conhecimento (Platão, República  ), ou entre o sensível   e o inteligível. Aristóteles fez da analogia um método de investigação do fundamento ou da essência, por suas possibilidades de busca de homologia entre termos e disposição  , de dois   objetos de estudo.

Quanto ao termo “informática” em nosso título, este guarda   atualmente inúmeras acepções, entre as quais de:

  • técnica ou tecnologia da informação e da comunicação (TIC), operada por uma pessoa   com certo propósito  , na resolução de problema informacional e/ou comunicacional, em um contexto de investigação, organização ou não, em meio acadêmico, empresarial ou doméstico;
  • setor da indústria que reúne projetistas, fabricantes e distribuidores de equipamentos, software e serviços que compõem as tecnologias da informação e da comunicação;
  • área organizacional de uma empresa onde uma equipe de especialistas se dedica à sustentação operacional das tecnologias deste gênero  ;
  • conjunto de equipamentos e software de uma empresa;
  • ainda outros...

Utilizamos aqui a primeira acepção, a informática enquanto técnica da informação e da comunicação (TIC) ou, como diria Heidegger, enquanto “ente   que vem ao encontro” determinado e determinante de certo tipo de ocupação   (Besorgen) informacional-comunicacional do ser-aí   (Dasein). Portanto, deve-se entender a TIC doravante como “instrumento informacional-comunicacional” dentro de uma circunvisão (Umsicht) em que todas as demais acepções do termo informática são imprescindíveis enquanto conjuntação de um sistema de referência conferindo sentidos e significados ao instrumento informacional-comunicacional e seu uso, quer dizer, à TIC e à ocupação informacional-comunicacional. Por sua vez, considerando que um instrumento nunca “é”, só o sendo num todo instrumental que pertence a seu ser, e que o faz viger como “algo para...”, seus diferentes modos   de “ser para” (Um-zu), como serventia, contribuição, aplicabilidade, manuseio, ganham razão   de ser na totalidade instrumental do mundo circunvisivo donde o instrumento se destaca. Sua “utilidade” (Zuhandenheit), ou seja, o modo de vir ao encontro ou surgir   da TIC em que ela se revela por si mesma, se evidencia pelo lidar com este instrumento no uso, onde a ocupação se subordina ao “ser para” constitutivo do respectivo instrumento, neste caso informacional-comunicacional.

Dada a necessidade   de se estudar a essência de um instrumento, enquanto “ser para”, em uma situação   de serventia, em sua apropriação, em uma aplicação, esta reflexão  , como indicado pelo próprio título, tem a pretensão de desvelar O QUE É a informática, seu vigor enquanto tecnologia ou TIC no modo de ser «à mão  », através da investigação de sua possível analogia com o uso de uma das tecnologias mais antigas adotadas pelo homem  , a alavanca. Espera-se, por esta investigação da analogia de uma situação de aplicação da alavanca com o “dar-se e propor-se da informática” numa condição de uso da TIC enquanto instrumento informacional-comunicacional, que seja possível por certa homologia dos elementos constituintes dos dois estados de serventia, tanto da alavanca quanto da informática, compreender pela essência da técnica mais elementar, que se revela na aplicação da alavanca, ou seja, se compreender algo da essência da informática.

Imagem da Alavanca

Tomemos para realizar esta analogia Alavanca-Informática, a imagem de um bastão empunhado por uma pessoa, deslocando uma pedra, sobre um solo, em um determinado contexto, meio. Esta imagem, de pronto, tem algumas vantagens aqui citadas e a seguir explicitadas. A primeira vantagem   é que ela evidencia, de vez, a inevitável centralidade da tecnologia (alavanca ou TIC), no lidar com um instrumento, cuja lida e apropriação em uma ocupação, subordina-se ao “ser para” constitutivo do instrumento. A segunda vantagem é que ela parece reunir todas as peças do jogo da analogia pretendida. A terceira vantagem é que ela demonstra certa articulação entre as peças, seja enquanto elementos da imagem, seja, em especial, de todos os elementos reportados à centralidade da tecnologia, ressaltando a importância da justa adequação entre os mesmos, para se alcançar seu "ser para" na ocupação instrumental. Enfim, a quarta vantagem é o destaque dado ao chamado princípio responsabilidade   proposto por Hans Jonas  , na medida que ressalta a pessoa como a única capaz de manusear a tecnologia e de aplicá-la efetivamente a uma lida informacional-comunicacional.

Denominaremos esta imagem doravante como “imagem da alavanca”. Como toda e qualquer imagem, sofre da ambiguidade   de ser em parte artifício de pensamento e em parte reprodução de uma realidade  , e nunca integralmente o primeiro ou o segundo. Como nos lembra Jean-Jacques Wunenburger (1997), “uma imagem constitui, com efeito, uma categoria mista e desconcertante, que se situa a meio caminho   do concreto e do abstrato, do real e do pensado, do sensível e do inteligível”. Esta imagem da alavanca oferece-se como um verdadeiro ideograma de diferentes tecnologias, mas em especial da TIC que sintetiza o “dar-se e propor-se da informática” como ocupação informacional-comunicacional, um modo de lidar com um instrumento constituído, dirigido e instituído para o campo   do pensamento calculativo, doravante conformado, apropriado e talhado segundo o próprio instrumento, como adiante se evidenciará ainda mais.

Procedamos na seguinte ordem ao exame   dos elementos da imagem da alavanca em sua analogia com o “dar-se e propor-se da informática” segundo uma ocupação informacional-comunicacional já dada previamente pela síntese do TIC. Os elementos da imagem da alavanca serão então assim notados: pedra > humano > solo > bastão/fulcro.

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra. (Carlos Drummond de Andrade)

Na imagem da alavanca, o que será esta pedra no meio do caminho que mobiliza a engenhosidade de uma alavanca para deslocá-la? Analogamente o que será este "bloco de pedra" informacional-comunicacional que demanda ser movimentado por um engenho capaz de representar e reproduzir as condições de possibilidade   de informação e de comunicação humanas? Na imagem da alavanca, um humano se depara com o elemento pedra, "no meio do caminho tinha uma pedra". Enquanto obstáculo no caminho a pedra há que ser deslocada para não mais obstruir a progressão humana. No caso da TIC, esta "pedra no meio do caminho" é qualquer obstáculo à informação-comunicação, que então deve ser superado para a devida progressão de uma ocupação informacional-comunicacional. A TIC enquanto síntese do “dar-se e propor-se da informática” oferece-se como engenho de representação de um modelo de informação-comunicação humana, pretensamente capaz de superar qualquer "pedra no meio do caminho" que obstrua a informação e comunicação humanas.

Embora sempre reconhecido apenas no discurso e não na prática, o mais importante de todos os elementos na imagem da alavanca, o humano, deve ser entendido como aquele elemento cujos gestos e comportamentos garantem a operacionalidade da alavanca. Analogamente o humano na lida com uma TIC no exercício de uma ocupação informacional-comunicacional. Ocupação que para ser desempenhada através da lida com uma TIC, requer comportamentos humanos e execução ordenada de um ou mais gestos e tarefas através da TIC, conforme ordenação prévia determinada pela constituição e instituição da TIC.

Do mesmo modo que na imagem da alavanca, evidencia-se na mobilização e na consecução ocupacional do "alavancar", a conjuntação de todos os demais elementos da imagem sobre um "solo", também na TIC evidencia-se sua copertinência com toda sua sustentação em um mundo circundante (Umwelt). No caso da lida com uma TIC na ocupação informacional-comunicacional se vai além deste circundante imediato do quadro da imagem da alavanca, até à abrangência de todo um ambiente político, social, cultural, econômico, científico e técnico. Ambiente este que preferimos reconhecer segundo a orientação de Heidegger, mas desta maneira nos termos propostos por Milton Santos  : o mundo circundante da TIC é um meio técnico-científico-informacional.

A TIC enquanto engenho de representação de um modelo de informação e comunicação humanas, coadjuvante atualmente em qualquer ocupação informacional-comunicacional, é originariamente uma pretensa "clonagem" ou "engenhoca" de modalidade de superação de uma "pedra no meio do caminho" da informação e comunicação humanas. A TIC é assim, simultanemante um tradutor-traduzindo-tradução em estruturas, procedimentos e ordenamentos de afinidades informacionais e comunicacionais, configurados na própria lida com o instrumento informacional-comunicacional, segundo um modelo "encurtado" ou "redutor" de informação e comunicação humanas. Embora a TIC tenha se apresentado desde sua origem   como "máquina   universal  " e desde então venha sendo alardeada como de aplicação generalizada e total, dada a própria hipervalorização da res cogitans desde Descartes  , por conseguinte da informação e comunicação humanas.

Por fim, a TIC em sua analogia com o bastão-fulcro reflete esta composição dupla na combinação e articulação de um software sobre um hardware. Há assim uma similitude do software com o bastão que é, em uma ponta, humanamente "manipulado", e, em outra ponta, "manipula" a "pedra no meio do caminho", no caso a informação e comunicação humanas tratadas pelo software. O software, por sua vez, é geralmente entendido como uma composição de: programa (algoritmos) + estruturas de dados. O fulcro, enquanto apoio do bastão para alavancar a "pedra no meio do caminho", é representado na TIC por seu componente hardware, sobre o qual opera o software, e sem o "apoio" do qual não há TIC, assim como no caso da imagem da alavanca, não há alavanca e nem alavancar algo.


Ver online : O que é informática e sua essência. Pensando a "questão da informática" com M. Heidegger


HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. Petrópolis: Vozes, 2002

WUNENBURGER, Jean-Jacques. Philosophie des images. Paris: PUF, 1997