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FILOSOFIA E CONSCIÊNCIA

Fernandes (1995:20-21) – todo ponto de vista é um ponto cego

1.2. Compreendendo a organização disciplinar da Filosofia

terça-feira 9 de novembro de 2021

FERNANDES, Sérgio L. de C.. Filosofia e Consciência. Uma investigação ontológica da Consciência. Rio de Janeiro: Areté Editora, 1995, p. 20-21

A atividade? filosófica pode ser chamada de “investigação”, mas distingue-se da investigação científica. Esta, pelo interesse? em manipular, ou dominar, é sempre dirigida, pela urgência do desejo?, à parcialidade das explicações. Pois é impossível explicar? alguma coisa? em sua totalidade?: só há explicações parciais. E parcialidade gera conflito. De fato?, a ciência conhece pela destruição do seu objeto?. Já filosofar? seria compreender? sem nada? destruir. Seria por em cheque toda astúcia — até a do querer? não querer, ou desejar não desejar — , em virtude? da intensidade? mesma da pergunta?, só satisfeita pela totalidade da compreensão. Não se trata, portanto, nem de cosmovisão, nem de substituto das religiões, nem de conhecimento? teórico absolutamente independente? do conhecimento científico, nem de síntese dos resultados das diversas ciências, nem da investigação de seus fundamentos, nem de uma coleção de indicações para conduzir a vida?.

O que dá à Filosofia a imprescindível intensidade é a liberdade? — que nada tem a ver? com o livre “arbítrio”—, ou seja, o que lhe dá intensidade é a “subversão” da autoridade?, pela distinção radical entre esta e a verdade?. Mas isto não faz da Filosofia uma atividade ponderada. O modo? da intensidade filosófica é a atenção, e essa atenção traduz-se numa improvisação criativa — dir-se-ia, espontânea? ou sem esforço? — que não pode estar?, pelo menos inteiramente, sob o signo? da regra?, ou do jogo?.

A ciência tem um “corpo?”: ainda que atividade humana, precipita seus resultados, de revolução em revolução, numa identificação com o seu objeto. Já filosofar é compreender o processo? total das identificações, por em cheque o jogo das identificações objetais, não se reduzindo jamais a um “corpo de resultados”. Nem mesmo? o “texto?”, o “precipitado” místico da gnose?, é pertinente à Filosofia, de modo essencial?. A verdadeira Sabedoria?, na Filosofia, não se “precipita”, de modo que sua leveza é que é, realmente, insustentável. [20]

Todo ponto? de vista é um ponto cego?. E “ser humano?” é ter? um ponto de vista. Ora, o humano é o que, na Filosofia, trata-se de compreender, não de “cultivar”. E sendo? toda compreensão uma compreensão da totalidade (não havendo compreensão “parcial”), filosofar é ultrapassar o humano, não “conformar-se” a ele. O filósofo, no limite?, ou seja, o Sábio, não tem um ponto de vista. Ipso facto, não tem “Inconsciente?”. Não é “psicanalisável”. Face ao jogo de pontos cegos de onde o humano descortina o mundo? (fenomenologias “regionais”?), a Sabedoria é o campo? de todas as intensidades simultâneas, a singularidade? “heróica”, que não tem “lugar”, nem “aqui”, nem “agora?”, nem além, nem aquém. Longe? de se prestar a uma geografia ideográfica, a Sabedoria ultrapassa o horizonte? de previsibilidade. Previsível é o humano, não o Sábio. Previsível pode ser a “amizade? competente” dos seus “personagens? conceptuais”, não a verdadeira Sabedoria. Previsíveis são os amantes?, não o Amado.

As ciências, não só estão condenadas à insaciabilidade, mas a conhecer? pela destruição e a se inter?-devorarem. Pode-se hoje fisicalizar a Biologia? (p. ex. teoria? dos atratores), biologizar a Física (Kuhn  ) e psicanalisar o resto. Já a Filosofia não “digere”, não extrai sua energia? da termodinâmica dos “metabolismos?”. Suas “reduções”, na verdade nada reduzem: ao contrário, produzem horizontes-totalidade, em que é o Ser que se desvela a si mesmo, em infinitas intensidades puramente qualitativas.

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