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A Revolução Científica Moderna

Japiassu (RCM) – experimentação é fundação da ciência moderna?

A REVOLUÇÃO CIENTÍFICA: NOVA SÍNTESE EPISTEMOLÓGICA

terça-feira 9 de novembro de 2021

JAPIASSU  , Hilton. A Revolução Científica Moderna.

Frequentemente se fala? do advento da ciência moderna? como do advento de uma ciência experimental?. Seu caráter? experimental é inegável. Mas qual é seu estatuto? epistemológico? Nessa época, o conceito? de "experiência" não é unívoco, mas equívoco. Não se trata da experiência bruta, da experiência vivida ou do senso comum?, da observação meticulosa dos fatos? vindo transformar? as ideias? recebidas. Esse? tipo? de experiência é apanágio da ciência aristotélico medieval. Para mostrar a diferença entre a ciência tradicional?, construída sobre esse tipo de experiência, e a ciência moderna, ciência teórica, Koyré   constrói o conceito de experimentação.

O que vem a ser a experimentação? Não é uma observação dos fenômenos naturais?. É uma interrogação feita à natureza. Interrogação formulada numa linguagem? geométrica. Por isso, o que se encontra em jogo?, na física matemática galileana, não é a experiência. Porque a passagem de Aristóteles a Galileu   não é a do dogmatismo? teórico à evidência empírica. É a passagem da evidência empírica do senso? comum? à autoridade? da evidência matemática. Esta não se deriva da experiência nem da observação. Porque seus objetos? não são reais ou naturais. A constituição de uma física matemática implica que o cientista? se situe fora? da realidade?. Implica ainda que substitua os objetos, as coisas? e os acontecimentos quotidianos por um universo? de objetos geométricos. As experiências de que se reclama Galileu   constituem apenas experiências em pensamento?. Entre o dado? empírico e o objeto teórico há uma distância intransponível. Essa distância constitui uma diferença ontológica entre os objetos geométricos e os reais. E como a física arquimediana é uma física axiomática, a priori?, não tem a experiência como ponto? de partida nem como resultado. Nela, a experiência é uma experimentação, vale dizer, uma interpretação da teoria?, uma medida? da distância entre o mundo? teórico e o real?. Numa palavra?, uma realização teórica.

Precisamos não nos esquecer? de que a mudança de ontologia? axiomática, que caracteriza a revolução científica galileana e cartesiana?, constitui um problema? filosófico e, ao mesmo? tempo?, epistemológico. O problema filosófico que está em jogo é o da matematização da ciência da natureza. Sobre ele se dividem os platônicos e os aristotélicos. Os platônicos proclamam o valor? supremo? das matemáticas, atribuindo-lhes um valor real e uma posição dominante na física e para a física. Os aristotélicos, ao contrário, veem nas matemáticas uma ciência “abstrata?”, tendo um valor menor que as ciências que se ocupam do real; pretendem fundar a física diretamente sobre a experiência, a matemática só desempenhando um papel? secundário. Portanto, trata-se de uma questão filosófica, e não científica, pois não se tem em vista? discutir a certeza? das demonstrações geométricas nem tampouco seu emprego nas ciências. A questão é ontológica: o que deve ser o mundo real para que a ciência desse mundo possa converter-se numa ciência matemática. Neste sentido, a ciência moderna, desde suas origens?, seria uma ciência platônica: o sentido do platonismo? era? o matematismo. [1]

Mas esse platonismo também é uma questão epistemológica. Porque dizer que se deve pensar? o mundo físico no quadro de uma axiomática, é reconhecer que algo desse mundo se torna impensável: a qualidade?. Se a matemática é um pensamento das grandezas e das quantidades, a qualidade fica excluída do mundo da ciência. Consequência: a ciência do mundo não pode mais provir dos sentidos, e a percepção não pode mais estar? na origem do conhecimento?. A ciência passa a constituir apenas uma questão de razão. Galileu   e Descartes   suprimiram a noção de qualidade. Declararam-na subjetiva. Eliminaram-na do mundo da natureza. Por isso, suprimiram a percepção dos sentidos como fonte? do conhecimento. E declararam que o conhecimento intelectual? constitui nosso único meio? de apreender? a essência do real. Sua tese? epistemológica fundamental consiste em dizer: "A boa física se faz a priori". Por conseguinte, a ciência moderna representa uma "revanche de Platão". Neste sentido, o pensamento filosófico moderno não toma o caminho? da realidade, mas o de sua realização. Melhor ainda, o da libertação do homem?: liberá-lo do empírico, do paradoxo?, da desordem?, do não-sentido, para que advenha o racional?, para quê o ser se inscreva em relações e adquira sentido.


[1Discordamos de Japiassu, que fundamentando seu pensamento em Koyré, afirma um platonismo entendido literalmente em termos de uma matemática reduzida a operações sobre quantidades, ou uma geometria restrita a objetos no espaço conforme configurados por pela geometria cartesiana.