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FILOSOFIA E CONSCIÊNCIA

Fernandes (1995:247-249) – erro do empirismo

4.7. Como é ser Thomas Nagel?

terça-feira 9 de novembro de 2021

[FERNANDES, Sérgio L. de C.. Filosofia e Consciência. Uma investigação ontológica da Consciência. Rio de Janeiro: Areté Editora, 1995, p. 247-249

Pode-se caracterizar o empirismo? como a doutrina filosófica que identifica o “sujeito?” empírico com o transcendental?. Mas essa caracterização, além de admitir um dúbio “sujeito transcendental”, não vai à raiz? do empirismo. O Erro? Empirista, a meu ver?, é a identificação — absurda — entre Realidade? e Aparência, na sua concepção de “experiência consciente?”. Neste sentido?, o Erro Empirista é uma variante do Erro de Descartes  , pois identifica o psicológico — “certeza?” etc. — com o epistemológico — “verdadeiro?” etc. —, e este com o ontológico: a Realidade, para o empirista, pode, per absurdum, ser “apenas aparente? [1]. [247]

Thomas Nagel   começa seu livro The View From Nowhere [1986] formulando um “problema?”, que, como tal, não existe, não pode existir?, ontologicamente falando: “Este livro”, diz ele,

é sobre um único problema: como combinar a perspectiva? de uma pessoa? particular? dentro do mundo? com um ponto? de vista daquele mesmo? mundo, a pessoa e o seu ponto de vista incluídos. [Ibid. p. 3]

Ora, no meu entender, a “perspectiva de uma pessoa particular” é (idêntica a) “um ponto de vista daquele mesmo mundo”, de modo? que o problema não existe. Quando uma pessoa critica sua perspectiva como mera “perspectiva”, a pessoa necessariamente já inclui no mundo a si mesma e seu ponto de vista, ou seja, sua “visão” do mundo (conteúdo) e seu “ponto” (ela mesma como tendo aquela visão). Nosso impulso? para “transcender” nosso ponto de vista particular é servido por nossa capacidade? intencionalmente consciente (uma “forma? de inconsciência”). Nosso “ponto de vista” particular é, como vimos no Capítulo precedente, uma “ilusão constitutiva”, “sistemática”, “irresistível”, além de biologicamente condicionada: é a Ignorância mesma, ou o avesso da Consciência. A capacidade “reflexiva”, pela qual a consciência intencional? avança — em última instância, nas trevas — criticamente, enquanto recua sua Identificação Secundária para os tais planos que, relativamente a cada opacidade prévia, são chamados de “transcendentais”, é ainda o deslocamento do ponto cego?, como pálido reflexo? da transparência que, na Identificação Primária, “projetou” como “resto” a Inconsciência. Por isso, nosso impulso para “transcender” nosso ponto de vista particular corresponde a uma capacidade que temos de, no circuito da Ignorância, “concebermo-nos a nós mesmos”, ou seja, nosso ponto de vista e o que ele permite ver: a “visão”, e o “ponto” que agora? aparece, na sua opacidade, a outro? “ponto”, que agora desaparece na sua transparência, ou “cegueira”.

De fato?, a Identificação Secundária, como vimos no Capítulo precedente, tem raízes tão profundas, que tem levado praticamente todos os filósofos a crerem nos slogans: “nenhuma [248] consciência sem auto-consciência”; e “nenhuma auto-consciência sem a concepção de um mundo habitado por tal consciência”. Mas tais slogans são inteiramente absurdos. Pois não há “auto-consciência”, como já tentei explicar? várias vezes?, e, além disso, a consciência como tal não pode ser objetivada por ela mesma como parte? do mundo. O que pode sê-lo, é o “eu?”, não a consciência. Não é possível haver “dois pontos de vista”, como Nagel   supõe, um “subjetivo?”, e o outro “objetivo?”, pois um “ponto de vista” é uma objetificação do mundo a partir de um ponto cego. Sendo esta “cegueira” transparente, a própria Inconsciência, o “subjetivo” é uma categoria? literalmente vazia. Descrever a “subjetividade?” de alguém, ou seu “mundo subjetivo” é descrever suas formas de inconsciência, jamais uma suposta “subjetividade consciente”, pois não há tal coisa?. “Objetividade?” é justamente “ponto de vista”, jamais o que Nagel   imagina fazer? sentido com o jogo? de palavras? com que intitula seu livro, “o ponto de vista de lugar? nenhum”. A “vista” a partir de um ponto não pode ser, sem contradição, a “vista” a partir de nenhum ponto. De “nenhum ponto”, não há “vista”.


[1V. Capítulo 2.

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