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História da Ciência

Alguns pensadores sobre a "história das ciências"

terça-feira 9 de novembro de 2021

FOUREZ  , Gérard. A Construção das Ciências. Tr. Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: EDUSP, 1985

LATOUR  , Bruno. A esperança de Pandora: ensaios sobre a realidade dos estudos científicos. Tr. Gilson César Cardoso de Sousa. Bauru: EDUSC, 2001

CANGUILHEM  , Georges. O Conhecimento da Vida. Tr. Vera Lucia Avellar Ribeiro. Revisão Técnica Manoel Barros da Motta. Rio de Janeiro: Forense, 2011

Fourez

Os desenvolvimentos? contemporâneos da sociologia? da ciência caminharam lado a lado com uma reflexão sobre a história desta. Até há pouco tempo?, a maioria considerava que a história da ciência reproduzia a lenta progressão da racionalidade? científica (Sarton, 1927-1948). Com bastante prudência, aliás, ela distinguia a história do saber? científico dos elementos? extrínsecos que podiam levar à compreensão dos elementos contingentes das descobertas científicas, mas nunca o núcleo duro da racionalidade científica.

Com frequência, a história da ciência desempenha um papel? ideológico: narrar as grandes realizações dos cientistas, a fim? de que a ciência seja apreciada por seu "justo" valor? em nossa sociedade?. Essa busca das raízes históricas da comunidade? científica tem uma significação importante, na medida? em que todo ser humano? deseja experimentar a solidez e a profundidade de suas raízes. A história da ciência, vista? desse modo?, assemelha-se a essas histórias das nações destinadas a promover o espírito? patriótico ou cívico. Isto não deixa de apresentar interesse?, sem dúvida?, mas, caso não se acrescente uma perspectiva? crítica, semelhante? enfoque arrisca-se a ser mistificador.

Existem várias maneiras de escrever a história da ciência. Assim, o livro de Ernst Mach, A mecânica (1925), se pretendia menos um hino para a grandeza? da ciência do que um retorno? à maneira pela qual os conceitos? da física foram construídos. Essa pesquisa? histórica pode, por exemplo?, mostrar com que dogmatismo? certos pontos da física podiam ser ensinados a partir do momento? em que se aceitavam sem espírito crítico pontos de vista discutíveis. Mach mostrou, desse modo, como se havia "esquecido?" todas as hipóteses que serviam de base à física newtoniana. Jogando com as palavras?, poder-se-ia dizer que, ao mostrar o caráter? relativo? dos conceitos de espaço e de tempo (relativos? no sentido? epistemológico do termo?), Mach preparou a teoria? da relatividade? (segundo o sentido da palavra em física).

A história da ciência pode estar?, assim, a serviço da pesquisa científica, ao mostrar a relatividade dos conceitos utilizados, pondo em relevo a sua história e recordando quando e de que modo as trajetórias das construções conceituais na ciência chegaram a pontos de bifurcação. Ela pode, dessa forma?, evidenciar as linhas de pesquisas que deixaram de ser exploradas e que poderiam, portanto, se revelar? fecundas. Dessa maneira, pode-se educar? a imaginação dos pesquisadores.

Nessa mesma linha de pensamento?, a pesquisa no campo? da história da ciência se dedicou ultimamente a estudar a história da ciência dos "vencidos" (Wallis, 1979). É desse modo que a história da ciência tem se dedicado às controvérsias científicas relativas a Galileu  , Pasteur, à Escola? de Edimburgo etc. Cada vez? mais historiadores da ciência (assim como historiadores de outras especialidades) têm como projeto? evidenciar a contingência dos desenvolvimentos históricos, querendo, desse modo, dar a perceber? a impossibilidade? de reduzir a história a uma lógica eterna. A pesquisa histórica tende a mostrar que a ciência é realmente um empreendimento humano, contingente?, feito por humanos e para humanos.

Por fim, a história da ciência pode ser relacionada ainda a múltiplos aspectos: vínculo entre a ciência e a tecnologia?, condicionamento? da comunidade científica, interação entre? a ciência e outras instituições sociais etc.

Latour

Todos concordam que a ciência evolui por meio do experimento?; a questão é que Pasteur também foi modificado e evolui por meio do experimento, como a Academia? e até o fermento, por que não? Todos eles vão embora num estado? diferente daquele que apresentavam ao entrar. Como veremos no próximo capítulo, isso pode induzir-nos a investigar? se existe mesmo? uma história da ciência e não apenas de cientistas, e se existe mesmo uma história das, coisas? e não apenas de ciência.

Canguilhem

A história das ciências recebeu até o momento, na França, mais encorajamentos do que contribuições. Seu lugar e seu papel na cultura? geral? não são negados, mas bastante mal? definidos. Seu sentido é, inclusive, oscilante. Será preciso escrever a história das ciências como um capítulo especial da história geral da civilização? Ou devemos buscar nas concepções científicas em um dado? momento uma expressão do espírito geral de uma época, uma Weltanschauung?. O problema? de atribuição e de competência está em suspenso. Decorre essa história do historiador como exegeta, filósofo e erudito (isso, sobretudo, para o período antigo) ou do sábio especialista, apto? a dominar, como sábio, o problema cuja história ele retraça?

É preciso nós mesmos sermos capazes de fazer? progredir uma questão científica para termos sucesso? na regressão histórica até as primeiras e canhestras tentativas daqueles que a formularam? Ou basta, para realizar a obra? de historiador em ciências, real?çar? o caráter histórico, e mesmo ultrapassado, de tal obra, tal concepção, revelar o caráter caduco das noções, a despeito da permanência dos termos? Por fim e na sequência do que precede, qual é o valor, para a ciência, da história da ciência? A história da ciência não seria tão somente o museu de erros? da razão humana, se o verdadeiro? fim da pesquisa científica é subtraído do futuro?? Nesse caso, para o sábio, a história das ciências não valeria a pena?, pois, nesse ponto? de vista, a história das ciências é história, mas não das ciências. Nessa via, podemos chegar a dizer que a história das ciências é muito mais uma curiosidade? filosófica do que um estimulante do espírito científico. [1]

Uma tal atitude? supõe uma concepção dogmática da ciência e, se assim ousamos dizer, uma concepção dos “progressos do espírito” que é a da Aufklärung, de Condorcet e de Comte  . O que paira sobre essa concepção é a miragem de um “estado definitivo” do saber. Em virtude? disso, o preconceito? científico é o julgamento? de idades passadas. É um erro, porque ele é de ontem. A anterioridade cronológica é uma inferioridade lógica. [2] O progresso? não é concebido como um relatório de valores, cujo deslocamento de valores em valores constituiria o valor. Ele é identificado com a posse de um último valor que transcende os outros?, permitindo depreciá-los. Émile Bréhier   observou, com muita propriedade?, que o que há de histórico no Curso de Filosofia? Positiva é menos o inventário das noções científicas do que o das noções pré-científicas. [3] De acordo? com essa concepção, e a despeito da equação do positivo? e do relativo, a noção positivista? da história das ciências encobre um dogmatismo e um absolutismo? latentes. Haveria, ali, uma história dos mitos?, mas não uma história das ciências.


[1Cf. as intervenções de Parodi e Robin na discussão de 14 de abril de 1934 sobre a significação da história do pensamento científico (Bulletin de la Société française de philosophie, maio-junho 1934).

[2Essa tese positivista é exposta sem reservas por Claude Bernard. Ver as páginas em que ele trata da história da ciência e da crítica científica em Introduction à la Médecine expérimentale (II parte, cap. II, final), e, notadamente: “A ciência do presente está portanto necessariamente acima daquela do passado, e não há nenhuma espécie de razão de ir buscar um acréscimo da ciência moderna nos conhecimentos das antigas. Suas teorias, necessariamente falsas, pois não contêm os fatos descobertos posteriormente, não poderiam ter nenhum proveito real para as ciências atuais”.

[3Signification de l’histoire de la pensée scientifique. In: Bulletin de la société française de philosophie, maio-junho de 1934.