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Alguns autores sobre a noção de "precursor" em história da ciência

segunda-feira 8 de novembro de 2021

Hilton Japiassu  , «A Revolução Científica Moderna»

PORTOCARRERO, V. As ciências da vida: de Canguilhem a Foucault. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2009

Portocarrero

Se existissem precursores, a história das ciências perderia todo sentido?. A dimensão histórica da ciência seria apenas uma aparência, visto? que um precursor seria um pesquisador que teria percorrido, no passado?, um trecho de um caminho? finalizado, recentemente, por um outro?. Se, na Antiguidade, quando o mundo? era? considerado fechado, alguém tivesse podido ser, em cosmologia, o precursor de um pensador da época do universo? infinito?, um estudo? como o de Alexandre Koyré   (1957/2001) seria impossível. O precursor seria um pensador que o historiador poderia retirar de seu enquadramento cultural? para inserir num outro enquadramento, o que corresponderia a considerar que conceitos?, discursos? e gestos especulativos ou experimentais podem ser deslocados num espaço intelectual? onde a reversibilidade das relações deve-se ao esquecimento? do aspecto? histórico do objeto?.

Ao afirmar que não há precursores, Canguilhem   estabelece uma nova relação da história das ciências com a epistemologia?, opondo-se à ideia? de história como sua memória e seu laboratório, como ‘microscópio mental’, o que pressuporia que a relação da história das ciências com as ciências fosse do mesmo? tipo? da relação das ciências com seus objetos. Esta concepção de história baseia-se na tese? de que existiria um método geral? universal? e eterno, pouco ativo em algumas épocas, mais ativo em outras. Canguilhem   denuncia o positivismo? desta ideia: em primeiro lugar?, devido a seu racionalismo? geral que contradiz o pressuposto? de um racionalismo regional, segundo o qual existem diferentes regiões de cientificidade, com especificidades e método próprio; em segundo lugar, porque, ao ser conduzida pela imagem? do microscópio à noção de laboratório, a história das ciências teria apenas a função de conferir duração à exposição dos resultados científicos alcançados. A história das ciências permitiria, assim, uma parada e um distanciamento? do conhecimento? científico, seria como um aparelho de detecção de objetos já constituídos.

Contrário ao positivismo, o epistemólogo afirma:

Ao modelo? do laboratório, pode-se opor, para compreender? a função e o sentido de uma história das ciências, o modelo da escola? e do tribunal, de uma instituição e de um lugar onde se fazem julgamentos? sobre o passado do saber?, sobre o saber do passado. Mas é necessário aqui um juiz. A epistemologia é que é chamada a fornecer à história o princípio de um julgamento (...). (Canguilhem  , 1970a: 2)

O julgamento do passado do saber reconhece que toda verdade? é sempre provisória, é sempre uma ultrapassagem. Compete, pois, à epistemologia fornecer o princípio judicativo da produção de verdades, princípio fundado na verdade mais atual? da ciência “última linguagem? falada pela ciência, permitindo recuar no passado, até o momento? em que esta linguagem deixe de ser inteligível ou passível de ser traduzida numa outra linguagem anteriormente falada” (Canguilhem  , 1970a: 13), momento em que detectamos uma ruptura?, o surgimento de uma nova questão. Como ocorreu com Lavoisier (1743-1794) que, ao compreender que estava fundando um novo saber, marca um intervalo entre sua química e a ciência anterior, cortando qualquer relação com a língua falada por seus mestres e negando qualquer histórico da opinião daqueles que o precederam. Evidentemente, isto não significa que os cientistas tenham necessidade?, para o trabalho? científico, da história das ciências, da epistemologia ou da genealogia. Eles precisam apenas de um mínimo de filosofia?, sem a qual não poderiam falar? de suas ciências com interlocutores não-cientistas.

Podemos, então, compreender a diferença que a epistemologia francesa estabelece, a partir de Gaston Bachelard  , entre a história dos conhecimentos ultrapassados e a dos conhecimentos sancionados, ainda atuais porque ativos, cuja função e sentido judicativos têm como ponto? de partida a relação com os valores? científicos mais recentes, com a verdade mais atual da ciência.

A história das ciências não é o progresso? das ciências invertido, quer dizer, a colocação em perspectiva? de etapas ultrapassadas para a qual a verdade de hoje seria o ponto de fuga?. Ela é um esforço para pesquisar e fazer? compreender em que medida? noções ou atitudes ou métodos ultrapassados foram, em sua época, uma ultrapassagem e, por conseguinte, em que o passado ultrapassado continua como passado de uma atividade? científica à qual é necessário conservar o nome? de científica. Compreender o que foi a instrução do momento é tão importante quanto expor as razões da destruição seguinte. (Canguilhem  , 1970a: 14)

Japiassu

A rigor, se houvesse precursores, a história das ciências perderia todo o seu sentido. Porque a própria ciência só aparentemente teria dimensão histórica. Um precursor seria um pensador que teria percorrido antes um pedaço do caminho que outro iria terminar. Ora, antes de colocarmos juntos dois pesquisadores, numa sucessão lógica de começo e de acabamento, de antecipação e de realização, convém nos assegurarmos de que se trata do mesmo caminho. Por ter? feito uma suposição heliocêntrica, Aristarco de Samos não é o precursor de Copérnico. Ora, Copérnico acusou todas as teorias astronômicas anteriores à sua de serem sistemas? irracionais?. Um precursor seria um pesquisador de vários tempos, desenraizado de seu enquadramento cultural e reinserido em outro. Em suma?, enquanto não estabelecermos explicitamente, através de uma análise crítica dos textos, a existência, entre um pensador do passado e outro do presente, de uma identidade? de questão, de intenção de pesquisa? e de significação dos conceitos diretrizes, só arbitrariamente poderemos falar de precursor. Koyré   tem razão quando diz: "A noção de precursor é muito perigosa para o historiador das ciências. E verdade, sem dúvida?, que as ideias? têm um desenvolvimento? quase autônomo, isto é, nascidas num espírito?, elas chegam à maturidade e dão fruto em outro: donde ser possível fazermos a história dos problemas? e de suas soluções. Também é verdade que as gerações posteriores não estão interessadas nas que as precederam, senão na medida em que veem nelas seus ancestrais ou seus precursores. No entanto, é evidente — ou deveria sê-lo — que ninguém jamais se considerou precursor de outrem nem pôde fazê-lo. Por isso, considerá-lo como tal, é o melhor meio? de se impedir de compreendê-lo" (La révolution astronomique, p. 79).

Deleuze

Le thème du précurseur c’est, beaucoup de gens l’ont dit? déjà, le thème du précurseur c’est l’un des thèmes les plus dangereux qui soient, et en fait on s’aperçoit chaque fois que c’est compliqué… Vous savez, il faut surtout pas tomber dans l’idée : « Ah ! l’évolutionnisme, il était déjà dans Empédocle, et cætera…». C’est des stupidités, enfin… Ce n’est pas du tout ça que je veux dire.

Mais, en revanche, si je pense qu’en effet, il n’y a jamais de précurseur, que c’est complètement idiot? de chercher des gens qui auraient déjà soutenu une espèce d’évolutionnisme avant Darwin, et cætera…, en revanche, je crois fort que se passe un phénomène, dans l’histoire? de la pensée, qui est très très curieux… Que quelqu’un, avec des moyens déterminés – dans le cas de Spinoza   avec des concepts, découvre à son époque quelque chose?, qui dans un autre domaine, ne sera découvert que bien après et avec de tout autres moyens. Si bien qu’il n’est pas du tout précurseur… Mais il y a des phénomènes de résonances, et la résonance, ça ne se fait pas seulement entre les divers domaines à une même époque, ça se fait entre un domaine, par? exemple au 17e siècle, et un domaine du 20e siècle.


CANGUILHEM, G. Études d’Histoire et de Philosophie des Sciences. Paris: Vrin, 1970a.

DELEUZE, Gilles. Sur Spinoza. Transcriptions de cours. Vincennes 1978-1981.

KOYRÉ, A. Do Mundo Fechado ao Universo Infinito. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.