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Horizonte e Complementaridade. Sempre o Mesmo acerca do Mesmo.

Eudoro de Sousa (HCSM:166-167) – teoria dramática do conhecimento

Sempre o mesmo acerca do mesmo

domingo 7 de novembro de 2021, por Cardoso de Castro

Eudoro de Sousa  . Horizonte e Complementaridade. Sempre o mesmo acerca do mesmo. Lisboa, INCM, 2002, p. 166-167

5.a V. fala da necessidade de construir-se uma teoria dramática do conhecimento. Que o levou a senti-la?
7.a Haverá espaço para a filosofia fora do círculo definido pelo mito seu conatural, o «mito do Homem», como V. o chama?

5.a e 7.a Eu não falo na necessidade de construir-se uma teoria dramática do conhecimento. Ou, se falo, mais uma vez me apressei demasiadamente; só digo que se podería construir uma teoria dramática do conhecimento. Com efeito, parece-me por de mais incoerente que o drama da fabricação (cf. 2.a) se limite apenas ao chamado mundo material. Ao longo da história desenrola-se (ou a história faz que se desenrole) um só drama, sobre um tablado que parece nu, pois só tem uma imperceptível divisória: de um lado fabricam-se coisas, do outro lado elaboram-se conceitos e teorias; de um lado fabricam-se objectos, e do outro constrói-se um mundo objectivo, aquele de que se pode falar, sem cometer graves equívocos. Dizível e objectivável vão a par, ou, como V. evoca um raciocínio kantiano, podemos dizer que o dizer só se refere ao fenômeno. De modo que, cada um de nós [166] é um actor cuja acção cria o próprio cenário em que decorrem todos os actos do drama que desempenha, com a agravante de sermos todos nós obrigados a recitar sempre o mesmo libreto, a caminhar pelo palco em trajectórias pré-fixadas, diante do mesmo cenário, diante dos mesmos espectadores que somos nós, apenas desdobrados. Só não creio que nos seja dado o escrever o texto de outro drama. Acontece apenas o que precedentemente já disse: cada vez mais numerosos são os actores que tentam retirar-se do palco, pela direita, pela esquerda ou pelo fundo, ficar bem quietos atrás dos bastidores ou destruir tudo, na melhor das hipóteses, só pelo tédio da infindável repetição. Outro drama é só o avesso de outro mito (agora saltei para uma resposta à 7.a questão); mas estou em crer que permanecerá sempre a necessidade da codificação filosófica, paralela ou convergente, em relação à codificação mítica; isto é, sempre persistirá a necessidade de passar, por via da racionalidade, de um pré-racional e um transracional. Há uma coisa de comum a todas e quaisquer imagens do homem: em todo caso ele terá sempre razão, mesmo quando a tenha só cripticamente. Com efeito, hoje bem se vê como a razão se oculta na manifesta crise da linguagem falada e escrita. Pode-lhe parecer que, neste ponto, esteja eu pronunciando um panegírico da Razão; ou antes, como V. muito bem me conhece, isto é o que parecerá ao leitor desprevenido. Mas não é assim. A verdade é que até o próprio mito tem sua razão; que ele espera sempre, para afirmá-la e confirmá-la, que o exercício do pensamento lógico-discursivo chegue até o seu limite. E é aí precisamente, o ponto em que se fecha o círculo que começa e acaba no que chamei pré-racional e transracional.