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FILOSOFIA E CONSCIÊNCIA

Fernandes (1995:131-132) – realidade virtual

CAPÍTULO 2 APARÊNCIA E REALIDADE: AS IMITAÇÕES DO SER E O SER DAS IMITAÇÕES

domingo 7 de novembro de 2021

FERNANDES, Sérgio L. de C.. Filosofia e Consciência. uma investigação ontológica da Consciência. Rio de Janeiro: Areté Editora, 1995, p. 131-132

Há um assunto muito delicado, aparentemente superficial e nada? transcendental?, por natural?ístico que é, mas que precisa ser ventilado. O leitor, se já não experimentou, deve ter? notícia dessas máquinas que produzem “realidade? virtual?”. Com um par? de fones de ouvido, viseiras especiais, etc. — a limitação dos recursos é apenas contingente?, dado? o estado? atual? da tecnologia? — podemos passar algum tempo? “esquiando” na Suíça, ou “pilotando” um carro de corrida. Mas em que consiste a “virtualidade?”, por oposição, presume-se, à “realidade” de tais experiências? Haverá alguma distinção ontologicamente relevante? entre a “realidade” e a “realidade virtual”? Entre o sonho? da borboleta e o sonho de Chuang Tzu  ? O livro que o leitor tem nas mãos está projetado? aí, no espaço, diante dele, e permanecendo no tempo, enquanto ele o lê. A neve, a paisagem, os esquis também estão ali, diante de nós. As viseiras e os fones especiais são, como todas as máquinas, extensões protéticas do corpo? humano? — no caso, do cérebro humano. Este é um “alucinador” virtual, por excelência. Ou não sabe o leitor que o livro e tudo o mais que ele vê no espaço que o circunda também pode ser descrito como processos? neuronais no seu cérebro? Um ente, já vimos, é o que corresponde à sua descrição, ou seja, a identificações materiais?. E se temos que “decidir”, então estabelecemos fronteiras habituais entre o que chamaremos de “realidade” qualificada?, ou seja, virtual, e “realidade” não qualificada, ou seja, o que não consideramos, ingenuamente, como produzido pelo cérebro. Contemple o leitor a belíssima pintura reproduzida na tela do seu micro computador. Abra, agora?, sua “torre”, e só ver?á circuitos etc. A pintura lhe aparece como virtual relativamente ao hardware por ele examinado. Mas, enquanto o leitor faz isso, um [131] neurocientista lhe abre a caixa craniana, de maneira indolor? e imperceptível. Ora, este neurocientista não verá, no córtex exposto do leitor, os circuitos que este vê, mas, sim, neurônios, sinapses etc. (se munidos das necessárias extensões protéticas do olho?, como microscópios etc.). Os circuitos vistos pelo leitor parecerão ao neurocientista virtuais relativamente ao hardware por ele examinado. Mas, enquanto o neurocientista faz isto, um segundo neurocientista — neurocientista₂ — abre a caixa craniana do primeiro?. E o neurocientista₂ não verá, no córtex exposto do neurocientista₁, os neurônios e os padrões sinápticos que este vê, mas, sim, outros neurônios, outras sinapses etc. E, assim, indefinidamente.

Somos pontos no centro de um círculo. Esses pontos sempre podem projetar-se nas distâncias geradas na estrutura? transcendental da intencionalidade?: quando cegos?, justamente porque não veem a estrutura em si, podem “ver o mundo?”; quando videntes, porque tomam alguma estrutura dessas como objeto?, cegam-se para o que antes era? o “mundo”. Ou vemos com o que não vemos, ou não vemos mais o que víamos, para ver aquilo com que víamos. Mas vemos sempre com o que, ou em virtude? do que não vemos. E o que não vemos não traz em si a marca, o critério, do que vemos. Toda realidade é virtual. [1]


EDELMAN, G. 1987: Neural Darwinism. The Theory of Neuronal Group Selection. Basic Books.

EDELMAN, G. 1989: The Remembered Present: A Biological Theory of Consciousness. Basic Books.

EDELMAN, G. 1992: Bright Air, Brilliant Fire. Basic Books

KOSSLYN, S.M. 1980: Image & Mind. Harvard UP


[1V. KOSSLYN 1980 & EDELMAN 1987, 1989 e 1992.

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