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O anjo da história

Benjamin (AH) – progresso

sábado 6 de novembro de 2021

Excertos de BENJAMIN, Walter. O anjo da história. Organização e tradução de João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2012 (epub)

? um quadro de Klee intitulado Angelus Novus. Representa um anjo? que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa? que olha fixamente. Tem os olhos? esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história? deve ter esse? aspecto?. Voltou o rosto para o passado?. A cadeia de fatos? que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe? sem fim?, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Esse vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro?, a que ele volta as costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até o céu?. Aquilo a que chamamos o progresso? é este vendaval.


A teoria? social?-democrata, e ainda mais a sua prática, foi determinada por um conceito? de progresso que não levou em conta? a realidade?, mas partiu de uma pretensão dogmática. O progresso, tal como o imaginavam as cabeças dos social-democratas, era?, por um lado, um progresso da própria humanidade? (e não apenas das suas capacidades e conhecimentos). Em segundo lugar, era um progresso que nunca estaria concluído (correspondendo a uma perfectibilidade infinita? da humanidade). E era visto?, em terceiro lugar, como essencialmente? imparável (com um percurso autônomo de forma? contínua ou espiralada). Qualquer desses atributos é controverso, e a nossa crítica? poderia começar? por qualquer um deles. Mas, quando as posições se extremam, a crítica tem de recuar até a raiz? desses atributos e fixar-se num ponto? que é comum? a todos. A ideia? de um progresso do gênero? humano? na história não se pode separar da ideia da sua progressão ao longo de um tempo? homogêneo e vazio?. A crítica da ideia dessa progressão tem de ser a base? da crítica da própria ideia de progresso.


[...] Mas é preciso não esquecer? que a técnica? não é uma pura manifestação? das ciências? da natureza?, é também uma manifestação histórica. Enquanto tal, ela obriga-nos a testar a separação? positivista? e não dialética? que se tentou instituir entre as ciências da natureza e as “ciências do espírito?”. As questões? que a humanidade coloca à natureza são codeterminadas pelo estágio da sua produção?. É esse o ponto em que o positivismo fracassa, porque, na evolução? da técnica, só foi capaz de reconhecer os progressos da técnica, não os retrocessos da sociedade?. Mas não se apercebeu de que essa evolução foi decisivamente determinada pelo capitalismo. E também aos positivistas entre os teóricos social-democratas escapou o fato de que tal evolução tornou cada vez mais precário o ato?, que se revelava cada vez mais urgente, de uma futura tomada de posse dessa técnica pelo proletariado. E ignoraram o lado destrutivo desses desenvolvimentos? porque se tinham alheado do lado destrutivo da dialética.