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A OBRA DE ARTE NA ERA DA SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA

Benjamin (OAERT) – A OBRA DE ARTE NA ERA... (a fotografia)

sábado 6 de novembro de 2021

A controvérsia travada no decurso do século XIX, entre a pintura e a fotografia relativamente ao valor? artístico? dos seus produtos, parece hoje dúbia e confusa. Mas isto não invalida o seu significado?, podendo mesmo? sublinhá-lo. De facto?, essa controvérsia foi expressão? de uma transformação? na história? mundial?, de que nenhum dos intervenientes teve consciência?. Na medida? em que a era? da reprodutibilidade técnica? da arte a desligou dos seus fundamentos de culto?, extinguiu para sempre a aparência? da sua autonomia?. Mas a alteração? da função? da arte, que com isso se verificou, deixou de existir? na perspectiva? do século. O mesmo sucedeu no século XX, que assistiu evolução? do cinema.

Já se tinha dedicado muita reflexão? vã à questão? de saber? se a fotografia seria uma arte – sem se ter? questionado o facto de, através da invenção? da fotografia, se ter alterado o caráter? global da arte – e, logo a seguir, os teóricos? do cinema sucumbiram ao mesmo erro?. Mas as dificuldades que a fotografia tinha levantado relativamente à estética? tradicional?, eram uma brincadeira de crianças comparadas com as que foram provocadas pelo cinema. Daí a violência? cega que caracteriza a teoria do cinema nos seus primórdios. Assim, Abel Gance, por exemplo?, compara o filme com o hieróglifo: "Eis como, em consequência? de um retrocesso altamente curioso, regressamos ao nível de expressão dos Egípcios... A linguagem? das imagens? ainda não atingiu a sua maturidade porque os nossos olhos? ainda não evoluíram o suficiente. Ainda não existe suficiente respeito?, culto por aquilo que elas exprimem." [1] Ou, Séverin-Mars escreve: "A que arte estava reservado um sonho?, que... fosse, em simultâneo, poético e real?! Considerado de tal ponto? de vista?, o cinema representaria um meio? de expressão absolutamente incomparável e, na sua atmosfera, só poderiam mover-se pessoas? de pensamento? muito nobre?, em momentos de total perfeição? e mistério? do trajeto da sua vida?.” [2] Por seu lado, Alexandre Arnoux conclui uma fantasia? sobre o cinema mudo com a seguinte pergunta?: "Não deveriam todas as ousadas descrições de que aqui nos servimos tender para a definição? de oração??” [3] É muito instrutivo observar? como o esforço? de atribuir o filme à "arte" força? estes teóricos, sem qualquer pejo, a reconhecer nele elementos? de culto. E, no entanto, na época em que se publicavam tais especulações, já existiam obras? como "L’opinion? publique?" ou "La ruée vers l´or”?. Isso não impede Abel Gance de estabelecer paralelos com os hieróglifos, e Séverin-Mars de falar? de filmes, corno se poderia falar de quadros de Fra Angelico. É significativo que, ainda hoje, autores particularmente reacionários procurem um significado do filme mesma direção, senão no sagrado?, pelo menos no sobrenatural?. A propósito? da versão em filme, de Reinhardt, do Sonho de Uma Noite de Verão, Werfel comenta que, indubitavelmente, era a cópia estéril do mundo exterior?, com as suas ruas, interiores, estações de caminho? de ferro, restaurantes, automóveis e estâncias balneárias, que tinha impedido, até então, o cinema de atingir o império da arte.

"O filme ainda não apreendeu o seu verdadeiro? sentido?, suas verdadeiras possibilidades... estas consistem na sua faculdade? única de, com meios naturais? e um poder de persuasão? incomparável, expressar a ambiência do conto? de fadas, do maravilhoso, o sobrenatural." [4]


Ver online : A OBRA DE ARTE NA ERA DA SUA REPRODUTIBILIDADE TÉCNICA


[1Abel Gance, op. cit, págs. 100/101.

[2Citado por Abel Gance, op. cit, pág. 100.

[3Alexandre Arnoux; Cinéma. Paris 1929, pag. 28.

[4Franz Werfel: "Sonho de Uma Noite de Verão". Um filme de Shakespeare e Reinhardt. "Neues Wiener Journal", cit. Lu, 15 de Novembro 1935.