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No mesmo barco : ensaio sobre a hiperpolítica

Sloterdijk (MB:38-43) – a paideia a seriviço da polis

2 Atletismo estatal

sexta-feira 5 de novembro de 2021

Excerto de SLOTERDIJK  , Peter. No mesmo barco : ensaio sobre a hiperpolítica. Tr. Claudia Cavalcanti. São Paulo: Estação Liberdade, 1999, p. 38-43

A educação?, paideia, só se explicita de fato? como teoria? do adestramento aristocrata na cidade?, no palco da história? das ideias?, e sobressai imediatamente por meio? de um grotesco? acento? típico? das grandes civilizações?: o que a educação expressamente realizada de fato significa é denunciado na ideia? construtivista? de Platão de dizimar as famílias dos guardas, a fim? de incumbir à nova elite? filosófico?-militar a criação? de novas gerações de excelência. O gênio? de Platão de criar metáforas? sintomáticas se mostra com a maior expressividade nesse detalhe de A República?, pois toca certeiro no mistério? de funcionamento? das grandes civilizações — a saber? a questão? de como se poderia adestrar o animal? familiar? e de horda, o homo sapiens, transformando-o num zoon? politikon. A inesquecível tese? da zoologia platônico-aristotélica tem como objetivo? fazer? com que de antemão surjam do Estado?, em pequenos rebanhos, seres vivos, tais quais produtos de um único? regaço político que produz reis e artesãos na mesma ninhada. Portanto, será possível? o homem? como politikós? Como o melhor? homem no Estado encontra o seu lugar? Vamos dar primeiro? a resposta falsa — para que se faça sentir? maior necessidade? da certa. De uma perspectiva? plebeia moderna?, que nada? entende de atletismo de Estado, a réplica é lapidar - Beaumarchais colocou-lhes o seu Fígaro na boca: o que o Sr. Conde já fez de grande? “Ele se deu ao trabalho? de nascer”. Com isso está estabelecido o moderno igualitarismo — como princípio? de igualdade? do homem diante dos úteros físicos. No entanto, a lucidez de Platão foi além? do discurso? vazio? de Fígaro, pois ele estabelece que o fato de nascer no seio de uma família não basta para produzir? o estadista.

Naturalmente, toda criança se origina de uma mãe, mas nem toda mãe se chama Atenas. A política? se inicia com o renascimento da mãe física? para a metafórica - o próprio? Estado é como um regaço superior?; ele tece o invólucro imaginário? e psico-acústico que se estende sobre toda a pólis como espírito? comunitário?. A esfera? mágica? psico-acústica da pequena e antiga horda deve então ser reproduzida como círculo mundial?, como cosmo?. O mundo político é tudo o que chega ao interior? do círculo maior. Nascer no Estado significa, portanto, entrar naquele círculo principal que poder?-se-ia definir? como grande regaço e, para falar? tecnicamente, como configuração política do útero social?. Nele repousa a resposta à pergunta? sobre como se pode deixar participar? centenas de milhares ou milhões de indivíduos? numa coisa? em comum. E fazer política não é outra coisa senão salvaguardar essa figura?-regaço. É daí que se explicaram a atenção? de Platão pelo papel? social da música? e seu sentido? vigilante para a união? de todos os cidadãos num corpus comum de lendas de deuses? e heróis?. Em sua busca de regras para o melhor Estado, ele imagina até programas de reformas para a música, poesia? e teologia?; ele tampouco recua diante de novos modelos de reprodução eugênica, radicalmente estatizada. Com um surpreendente grau? de mobilidade lógica? ele experimenta alternativas de reprodução humana — até chegar ao ponto? em que desiste do princípio do nascimento do ser humano do ventre de mães naturais?. Platão altera o funcionamento de mitos? matriarcais do nascimento do homem a partir da Terra? em prol dos objetivos de mães artificiais, políticas; numa controvertida passagem — significativamente no diálogo? do estadista — ele faz aparecer? o gênero? a partir de um surgimento alternativo, de acordo? com a doutrina de que, sob o domínio? de Cronos, se realizou a corrida no sentido contrário, de forma? que antigamente o sol? nascia no Ocidente e os homens teriam surgido prontos do seio da Terra como anciãos e sem necessitar de formação?, a fim de, no decorrer da vida?, serem cada vez? mais jovens e por último? morrerem como fetos num regaço feminino?, como se numa cova. Isso resulta na visão? de uma sociedade? de adultos sem problemas? de incubação — o mais antigo opus commune, a repetição? do homem pelo homem, parece surgida como que por milagre?; então, a priori?, adultos podem se encontrar iguais e livres?, logo em seguida ao seu surgimento da Terra política, na ágora, a fim de trocar entre si alguns logoi? sobre ta megala. Nem sempre Platão vai direto ao ponto, sua sabedoria? sempre saberá como ligar o livre jogo? da análise? às evidências práticas. Assim, por exemplo?, na esplendidamente cínica doutrina da nobre? mentira? de Estado, que permite a um criador político mobilizar todos os membros de uma coletividade em favor de uma doce e vantajosa ilusão? compartilhada por todos. O terceiro livro da República? contém um dos mais claros momentos na história de ideias políticas; aqui, com jovialidade verdadeiramente olímpica - a palavra? não poderia encontrar lugar melhor—, o problema de grupos humanos díspares ao extremo? mentirem-se coletivamente é promovido a tema? numa unidade? mais elevada; Sócrates aparece com um ousado “conto? frígio”, do qual espera efeitos especiais de união estatal. O mito que Sócrates apresenta, quase sorrateiramente, afirma que todos os membros dessa cidade, por mais que pareçam desiguais, são filhos da mesma terra-mãe estatal; esta teria produzido de seu regaço filhos com uma alma? de ouro?, outros com uma alma de prata e por fim também os com uma de bronze. Consequentemente, diferentes quanto ao dote e valor?, os cidadãos deveriam entender-se como filhos de uma mesma mãe e comprovar, para além dos limites? de classes, o devido amor? recíproco?. Por conseguinte, está imposta a primazia da unidade, a partir de consanguinidade imaginária, diante da variedade da natureza metálica. O Estado permanece uma mãe metafórica superior, que coloca os cidadãos sob o laço social da fantasiada comunidade-regaço. Uma tal hiper-horda política seria uma variante em grande escala da configuração sócio-uterina, na medida? em que consiste num grupo? total a partir de muitas hordas, casas, famílias e clãs dispersos. Com isso, a política, segundo Platão, continua sendo?, sempre até um certo grau, gerenciamento de fusão? ou um trabalho no hiper-útero imaginário para crianças políticas. Quem podería contestar que o conto frígio foi uma digna porta de entrada para a problemática? que hoje é discutida sob o nome? de Corporate Identity?-Policy?


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