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Meditação da Técnica

Ortega y Gasset (MT:A2) – IV CONCLUSÃO

sexta-feira 5 de novembro de 2021, por Cardoso de Castro

ORTEGA Y GASSET  , José. Meditação da Técnica. Tradução e Prólogo de Luís Washington Vita. Rio de Janeiro: Livro Íbero-Americano, 1963, p. 129-155

português

Destas considerações sobre a polêmica aberta na Inglaterra em torno das investigações físicas mais características da hora atual se depreende, pelo menos, que esta grande ciência atravessa uma etapa perigosa. Perigosa porque caminha sem clareza suficiente sobre si mesma. Não se sabe bem qual é o caráter de conhecimento próprio à física. Não se sabe bem qual é o papel da experiência e o do puro raciocínio na faina de sua edificação. E nem sequer se sabe bem o que seus grandes iniciadores dos séculos XVI e XVII — Kepler, Galilei, Newton — pretenderam fazer.

Porque dar como coisa patente e indiscutível, consoante intenta o Dr. Dingler, que a obra de Galilei consiste em desprezar os raciocínios a priori, como fundamento da física, e partir, sem mais, da observação, é uma arbitrariedade do enérgico doutor.

Conceda-me o leitor a satisfação de ler agora o que, em 1927, escrevia eu como nota a meu ensaio "La filosofia de la historia de Hegel   y la historiologia"[fn]Veja-se o livro Goethe   desde dentro, Madrid, 1933, [Tomo IV das Obras Completas][/fn]:

"Nada houvera surpreendido tanto a Galilei, Descartes   e demais instauradores da nuova scienza como saber que três séculos mais tarde seriam considerados como os descobridores e entusiastas do ’experimento’. Ao estatuir Galilei a lei do plano inclinado, foram os escolásticos aqueles que se faziam fortes no experimento contra aquela lei. Porque, com efeito, os fenômenos contradizem a fórmula de Galilei. É este um bom exemplo para entender o que significa a ’análise da natureza’ diante da simples observação dos fenômenos. O que observamos no plano inclinado é sempre um desvio da lei da queda dos corpos, não somente no sentido de que nossas medidas dão apenas valores aproximados àquela, senão que o fato tal e como se apresenta não é uma queda. Ao interpretá-lo como uma queda, Galilei começa por negar o dado sensível, se volta contra o fenômeno e opõe a ele um ’fato imaginário’, que é a lei: o puro cair no puro vazio de um corpo sobre outro. Isto lhe permite decompor (analisar) o fenômeno, medir o desvio entre este e o comportamento ideal de dois corpos imaginários. Esta parte do fenômeno, que é desvio da lei da queda, é, por sua vez, interpretada imaginariamente como choque com o vento e roçar do corpo sobre o plano inclinado, que são outros dois fatos imaginários, outras duas leis  . Depois pode recompor-se o fenômeno, o fato sensível como intersecção dessas várias leis  , como combinação de vários fatos imaginários.

"O que interessa a Galilei não é, pois, adaptar suas ideias aos fenômenos, mas, ao contrário, adaptar os fenômenos mediante uma interpretação a certas ideias rigorosas e, a priori, independentes do experimento; em suma, a formas matemáticas. Esta era sua inovação; portanto, tudo o contrário do que vulgarmente se acreditava há cinquenta anos. Não observar, mas construir a priori, matematicamente, é o específico do galileismo. Por isso dizia para diferenciar seu método: ’Giudicare, signore Rocco, qual dei due modi di filosofare cammini più a segno, o il vostro físico puro e simplice bene, o il mio condito con qualche spruzzo di matematica’ (Opere, II, 329) .

"Com clareza quase ofensiva aparece éste espírito num lugar de Toscanelli: ’Che i principii della dottrina de motu siano veri o falsi a me importa poquissimo. Poiché se non son veri, fingasi che sian veri conforme habbiamo supposto, e poi prendasi tutte le altre specoíazioni derívate da essi principa non come cosi miste, ma pure geometrich. Io fingo o suppongo que qualch corpo o punto se mouova all (ingiù de all’insù con la nota proporzione e horizontalmente con moto equabile. Quando questo sia io dico che seguirá tutto quello che ha detto il Galilei, ed io anchora. Se poi le palle di piombo, di ferro, di pietra, non osservano quella supposta proporzione, suo danno, noi diremmo che non parliamo di esse’ (Opere, ed. Faenza, 1919, vol. III, 357).

"De modo que se os fenômenos — as bolas de chumbo, de ferro e de pedra — não se comportam consoante nossa construção, pior para elas, suo danno.

"Claro está que a física atual se diferencia muito da de Galilei e Toscanelli, não somente por seu conteúdo, mas por seu método. Mas esta diferença metódica não é contraposição, senão ao contrário, continuação e aperfeiçoamento, depuração e enriquecimento daquela tática intelectual descoberta pelos gigantes do pós-renascimento."

Dez anos se passaram e, ao que pôde ver o leitor, toda a vanguarda da física vem a coincidir da maneira mais literal com aquela caracterização minha, incluindo nela as frases dos clássicos que eu adotava, uma das quais, a mais audaz, a de Toscanelli, era bem pouco conhecida. Como Milne diz, provocando a zanga de Dingler: "Não importa que as coisas não coincidam com o pormenor da construção matemática" (Milne fala propriamente da extrapolação), o grande Toscanelli diz que se as coisas não se comportam como a teoria, "pior para elas". Ora, Toscanelli é o máximo discípulo de Galilei e é o chefe da geração imediata a este. Que resta da patética afirmação do Dr. Dingler sobre a fidelidade sem par ao programa galileano das gerações subsequentes? Claro que, no fundo, tem razão, contra sua vontade. Toscanelli é fiel a Galilei, porque o programa de Galilei não é o que o Dr. Dingler supõe.

Quando, na altura de 1920 ou 1921 Einstein visitou Madrid me ocorreu dizer-lhe: "Acabará o senhor fazendo da física uma geometria!" Não são para serem enunciadas aqui as razões que me moviam já naquela época a pensar assim, porque sua compreensão requer inexcusavelmente certo, ainda que bem modesto, tecnicismo. (Para o leitor matemático me basta referir-me à evidente tendência que manifestava desde logo a mecânica relativista em absorver a dinâmica na cinemática.) Os que assim são para dizer são os espantos que fez Einstein, os olhos estupefactos que pôs. Era toda a cenografia e o jogo pantomímico com que se costuma enfrentar a audição de uma gigantesca estupidez, uma dessas cretinices sem tratamento nem ortopedia possíveis . Estou tão convencido de que vimos a este mundo para não entender-nos uns aos outros, somos na mútua incompreensão tão geniais e empregamos tal refinamento, que se tornou para mim em regozijante diversão estudar esta arte de não entender-nos, analisar suas diferentes formas e reconstruir em cada caso seu mecanismo. A diversão chega ao superlativo quando o mal-entendido sou eu e diante de mim vejo uma pessoa convencida plenamente de que sou um imbecil. Neste alvoroço entre o altruísmo muito mais do que se suspeita, porque na maioria das ocasiões eu sei que o outro necessita acreditar que sou um imbecil, convém-lhe convencer-se disso para nutrir a fé em si mesmo que leva ferida ou claudicante. Faço-lhe, pois, um grande favor sendo eu um mentecapto. Não era este, está claro, o caso de Einstein, pelo menos naquele momento. Poucos homens tiveram tanto direito como ele em acreditar em si mesmos, posto que vinham a adular-lhe até as próprias constelações . Precisamente sua cerração — que é enorme — provém do mecanismo inverso. Para compreender temos que estar bastante alerta, isto é, bem prevenidos de que não vamos compreender . Ora, é isto muito difícil quando o Zodíaco veio a dar-nos de golpe a razão e passeamos pelo planeta, levando como balangandãs, dependurados na corrente do relógio, o próprio Sagitário e o Leão, a Balança e a Virgem. Por isso Einstein se crê com certo direito a não dizer mais que parvoíces quando fala de assuntos alheios à física.

E mesmo neste assunto que pertencia à física podia ter-se poupado os espantos. E, com efeito, um fato que hoje Milne chama com todas suas letras geometria à física que se está fazendo e que declara ter sido levado a esta direção pela teoria da relatividade.

Mas não olvidemos, antes de tudo, e depois de tudo, o principal ensinamento que desta cacofonia na física devemos reter: a falta de clareza em que esta ciência se acha hoje com referência a si mesma como ciência. Porque esta conversão da física em geometria que a vanguarda da física está executando não é mais, como o próprio Milne diz, que um "fato surpreendente", isto é, um fenômeno surgido na vida do pensamento, mas cujo sentido e cujos fundamentos não conhecemos.

E esta falta de clareza na ciência mais exemplar procede da mesma causa que a falta de clareza reinante hoje nas demais ordens da vida; por exemplo, na política, a saber: da resistência anárquica a submeter toda disciplina a uma filosofia que o seja de verdade, portanto, que seja uma arquitetura radical de nossas ideias. Como uma coletividade numerosa não pode viver sem um poder público e sua política, a exuberante civilização europeia não pode existir sem a instância última de uma filosofia. Nem sequer durante a Idade Média foi isto possível, apesar de que a Religião conservava toda sua vigência sobre as almas. O escolasticismo foi durante muitos séculos o agente policial das ideias ocidentais, inclusive das ideias teológicas.

La Nación, de Buenos Aires, 7 de novembro de 1937.

original

De estas consideraciones sobre la polémica abierta en Inglaterra en torno a las investigaciones físicas más características de la hora actual se desprende, por lo menos, que esta gran ciencia atraviesa una etapa peligrosa. Peligrosa porque camina sin claridad suficiente sobre sí misma. No se sabe bien cuál es el carácter de conocimiento propio a la física. No se sabe bien cuál es el papel de la experiencia y el del puro razonamiento en la faena de su edificación. Y ni siquiera se sabe bien lo que sus grandes iniciadores de los siglos XVI y XVII —Kepler, Galileo, Newton— pretendieron hacer.

Porque dar como cosa patente e incuestionable, según intenta el doctor Dingler, que la obra de Galileo consiste en desechar los razonamientos a priori, como fundamento de la física, y partir, sin más, de la observación, es una arbitrariedad del enérgico doctor.

Concédame el lector la satisfacción de leer ahora lo que en 1927 escribía yo como nota a mi ensayo La filosofía de la historia de Hegel   y la historiología[20]:

«Nada hubiera sorprendido tanto a Galileo, Descartes   y demás instauradores de la nuova setenta como saber que tres siglos más tarde iban a ser considerados como los descubridores y entusiastas del “experimento”. Al estatuir Galileo la ley del plano inclinado, fueron los escolásticos quienes se hacían fuertes en el experimento contra aquella ley. Porque, en efecto, los fenómenos contradecían la fórmula de Galileo. Es éste un buen ejemplo para entender lo que significa el “análisis de la naturaleza” frente a la simple observación de los fenómenos. Lo que observamos en el plano inclinado es siempre una desviación de la ley de caída, no sólo en el sentido de que nuestras medidas dan sólo valores aproximados a aquélla, sino que el hecho tal y como se presenta no es una caída. Al interpretarlo como una caída, Galileo comienza por negar el dato sensible, se revuelve contra el fenómeno y opone a él un “hecho imaginario”, que es la ley: el puro caer en el puro vacío de un cuerpo sobre otro. Esto le permite descomponer (analizar) el fenómeno, medir la desviación entre éste y el comportamiento ideal de dos cuerpos imaginarios. Esta parte del fenómeno, que es desviación de la ley de caída, es, a su vez, interpretada imaginariamente como choque con el viento y roce del cuerpo sobre el plano inclinado, que son otros dos hechos imaginarios, otras dos leyes  . Luego puede recomponerse el fenómeno, el hecho sensible como nudo de esas varias leyes  , como combinación de varios hechos imaginarios.

»Lo que interesa a Galileo no es, pues, adaptar sus ideas a los fenómenos, sino al revés, adaptar los fenómenos mediante una interpretación a ciertas ideas rigorosas y a priori independientes del experimento; en suma, a formas matemáticas. Ésta era su innovación; por tanto, todo lo contrario de lo que vulgarmente se creía hace cincuenta años. No observar, sino construir a priori, matemáticamente, es lo específico del galileísmo. Por eso decía para diferenciar su método: “Giudicate, signore Rocco, qual dei due modi di filosofare cammini piú a segno, o il vostro físico puro e simplice bene, o il mio condito con qualche spruzzo di matemática” (Opere, II, 329).

»Con claridad casi ofensiva aparece este espíritu en un lugar de Toscanelli: “Che i principii della dottrina de motu siano veri o falsi a me importa poquissimo. Poichè se non son veri, fingasi che sian veri conforme habbiamo supposto, e poi prendansi tutte le altre specolazioni derívate da essi principii non come cosi miste, ma pure geometriche lo fingo o suppongo que qualche corpo o punto si muova all’ingiù de all’insù con la nota proporzione ed horizontalmente con moto equabile. Quando questo sia io dico che seguirà tutto quello che ha detto il Galileo, ed io anchora. Se poi le palle di piombo, di ferro, di pietra, non osservano quella supposta proporzione, suo danno, noi diremmo che non parliamo di esse” (Opere-Faenza, 1919. Vol. III, 357).

»De modo que si los fenómenos —las bolas de plomo, de hierro y de piedra— no se comportan según nuestra construcción, peor para ellas, suo danno.

»Claro es que la física actual se diferencia mucho de la de Galileo y Toscanelli, no sólo por su contenido, sino por su método. Pero esta diferencia metódica no es contraposición, sino, al contrario, continuación y perfeccionamiento, depuración y enriquecimiento de aquella táctica intelectual descubierta por los gigantes del postrenacimiento».

Diez años han pasado, y, a lo que ha podido ver el lector, toda la vanguardia de la física viene a coincidir de la manera más literal con aquella caracterización mía, incluyendo en ella las frases de los clásicos que yo adoptaba, una de las cuales, la más audaz, la de Toscanelli, era muy poco conocida. Como Milne dice, provocando el enojo de Dingler: «No importa que las cosas no coincidan con el detalle de la construcción matemática» (Milne habla propiamente de la extrapolación), el gran Toscanelli dice que si las cosas no se comportan como la teoría, «peor para ellas». Ahora bien: Toscanelli es el máximo discípulo de Galileo y es el jefe de la generación inmediata a éste. ¿Qué queda de la patética afirmación del doctor Dingler sobre la fidelidad sin par al programa galileano de las generaciones subsecuentes? Claro que, en el fondo, tiene razón, contra su voluntad. Toscanelli es fiel a Galileo, porque el programa de Galileo no es el que el doctor Dingler supone.

Cuando hacia 1920 o 1921 visitó Einstein Madrid, me ocurrió decirle: «¡Acabará usted haciendo de la física una geometría!» No son para enunciadas aquí las razones que me movían ya entonces a pensar así, porque su comprensión requiere inexcusablemente cierto, aunque muy modesto, tecnicismo. (Para el lector matemático me basta referirme a la evidente tendencia que manifestaba desde luego la mecánica relativista a absorber la dinámica en la cinemática). Los que sí son para dichos son los aspavientos que hizo Einstein, los ojos estupefactos que puso. Era toda la escenografía y el juego pantomímico con que se suele afrontar la audición de una gigantesca estupidez, una de esas estupideces sin tratamiento ni ortopedia posibles. Estoy tan convencido de que hemos venido a este mundo para no entendernos los unos a los otros, somos en la mutua incomprensión tan geniales y empleamos tal refinamiento, que se ha tornado para mí en regocijante diversión estudiar este arte de no entendernos, analizar sus diferentes formas y reconstruir en cada caso su mecanismo. La diversión llega al superlativo cuando el mal entendido soy yo y ante mí veo una persona convencida plenamente de que soy un imbécil. En este alborozo entra el altruismo por más de lo que se sospecha, porque en la mayor parte de las ocasiones yo sé que el otro necesita creer que soy un imbécil, le conviene convencerse de ello para nutrir la fe en sí mismo que lleva herida o claudicante. Le hago, pues, un gran favor siendo yo un mentecato. No era éste, claro está, el caso de Einstein, por lo menos en aquel momento. Pocos hombres han tenido tanto derecho como él a creer en sí mismos, puesto que venían a adularle hasta las mismas constelaciones. Precisamente su cerrazón —que es enorme— proviene del mecanismo inverso. Para comprender tenemos que estar muy alerta, es decir, muy prevenidos de que no vamos a comprender. Ahora bien: esto es muy difícil cuando todo el Zodíaco ha venido a darnos de golpe la razón y paseamos por el planeta, llevando como dijes, colgados de la cadenilla del reloj, al propio Sagitario y al León, la Balanza y la Virgen. Por eso Einstein se cree con cierto derecho a no decir más que bobadas cuando habla de asuntos ajenos a la física.

Y aun en este asunto que pertenecía a la física podía haberse ahorrado los aspavientos. Es, en efecto, un hecho que hoy Milne llama con todas sus letras geometría a la física que se está haciendo y que declara haber sido impulsada en esta dirección por la teoría de la relatividad.

Pero no olvidemos, ante todo y después de todo, la principal enseñanza que de esta bronca en la física debemos retener: la falta de claridad en que esta ciencia se halla hoy respecto a si misma como ciencia. Porque esta conversión de la física en geometría qué la vanguardia de los físicos está ejecutando, no es más, como el propio Milne dice, que un «hecho sorprendente», es decir, un fenómeno surgido en la vida del pensamiento, pero cuyo sentido y cuyos fundamentos no conocemos.

Y esta falta de claridad en la ciencia más ejemplar procede de la misma causa que la falta de claridad reinante hoy en los demás órdenes de la vida; por ejemplo, en la política, a saber: de la resistencia anárquica a someter toda disciplina a una filosofía que lo sea de verdad, por tanto que sea una arquitectura radical de nuestras ideas. Como una colectividad numerosa no puede vivir sin un poder público y su política, la exuberante civilización europea no puede existir sin la instancia última de una filosofía. Ni siquiera durante la Edad Media fue esto posible, a pesar de que la Religión conservaba toda su vigencia sobre las almas. El escolasticismo fue durante muchos siglos el gendarme de las ideas occidentales, inclusive de las ideas teológicas.

La Nación, de Buenos Aires, 7 de noviembre de 1937.


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