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Meditação da Técnica

Ortega y Gasset (MT:C1) – I PRIMEIRA ESCARAMUÇA COM O TEMA

Capítulo I

quinta-feira 4 de novembro de 2021

ORTEGA Y GASSET  , José. Meditação da Técnica. Tradução e Prólogo de Luís Washington Vita.

PREFÁCIO
Com o nome de Meditação da técnica, ofereço ao público um curso desenvolvido no ano de 1933 na Universidade de Verão de Santander, que então foi inaugurada. Este curso, como observará em seguida o leitor, não foi, propriamente, escrito, pois consiste em anotações feitas às pressas para o uso da cátedra. Não se busque nelas nem mesmo, talvez, asseada correção gramatical. Tal e qual foram pronunciadas estas lições apareceram em La Nación, de Buenos Aires, segmentadas mecanicamente em artigos dominicais.

Não devia publicá-las em volume, pois nem sua forma nem seu conteúdo são trabalho concluso. Mas em La Nación jaz trabalho meu deste gênero, e igualmente imaturo, para encher muitos volumes. Nesse trabalho eu acredito que existem, toscas ainda ou balbuciantes, ideias que podem ser de importância. Eu esperava, para publicá-las, a hora de dar-lhes figura mais nobre e mais depurada entranha. Mas vejo que os editores fraudulentos do Chile recortavam de La Nación estas informais prosas minhas e formavam com elas volumes. Em vista do que decidi fazer concorrência a esses piratas do Pacífico e cometer a fraude de publicar eu estes livros seus, que são meus.

José Ortega y Gasset  

português

Um dos temas? que nos próximos? anos será debatido com maior brio é o do sentido?, vantagens, danos e limites? da técnica?. Sempre considerei que a missão do escritor é prever com ampla antecipação? o que será problema?, anos mais tarde, para seus leitores e proporcionar-lhes a tempo?, isto é, antes de que o debate surja, ideias? claras sobre a questão?, de modo? que entrem no fragor da contenda com o ânimo sereno de quem, em princípio?, já a tem resolvida. On ne doit écrire que pour faire? connaître? la vérité? — dizia Malebranche, voltando as costas à literatura. Há? muito tempo, dando-se ou não conta? disso, o homem? ocidental não espera nada? da literatura e volta a sentir? fome e sede de ideias claras e distintas sobre as coisas? importantes.

Assim sendo?, agora? me atrevo a remeter a La Nación as notas, nada literárias, de um curso universitário dado? há dois? anos, em que se procurava responder a esta pergunta?: Que é a técnica?

Intentemos um primeiro? ataque, ainda tosco e de longe, a essa interrogação?.

Acontece que, quando chega o inverno, o homem sente frio. Este "sentir frio o homem" é um fenômeno? em que aparecem unidas duas coisas bem distintas. Uma, o fato? de que o homem encontra em torno de si essa realidade? chamada frio. Outra, que essa realidade lhe agride, que se apresenta diante dele com um caráter? negativo?. Que quer dizer aqui negativo? Alguma coisa? bem clara. Tomemos o caso extremo?. O frio é tal que o homem se sente que morre, isto é, sente que o frio o mata, o aniquila, o nega. Pois bem, o homem não quer morrer, ao contrário, normalmente anela sobreviver. Estamos tão habituados a experimentar nos demais e em nós este desejo? de viver, de afirmar-nos diante de toda circunstância negativa, que nos custa um pouco tomar consciência? do estranho que é, e nos parece absurda ou talvez ingênua a pergunta: Por que o homem prefere viver a deixar de ser? E, contudo, trata-se de uma das perguntas mais justificadas e discretas que possamos fazer-nos. Nestes casos costuma-se falar? em instinto? de conservação. Mas acontece: 1.°, que a ideia? de instinto é em si mesma bastante obscura e nada esclarecedora; 2.°, que ainda que fosse clara a ideia, é coisa notória que no homem os instintos estão quase apagados, pois o homem não vive, em definitivo, de seus instintos, já que se governa mediante outras faculdades? como a reflexão? e a vontade?, que reatuam sobre os instintos. A prova? disso é que alguns homens preferem morrer a viver, e, seja lá por que motivo?, anulam em si esse? suposto? instinto de conservação.

É, portanto, falha a explicação pelo instinto. Com ele ou sem ele concluímos sempre que o homem sobrevive porque quer e isto é o que despertava em nós uma curiosidade? talvez impertinente. Por que normalmente quer o homem viver? Por que não lhe é indiferente? desaparecer? Que empenho tem em estar? no mundo??

Vamos agora entrever a resposta. Basta-nos, ao menos por hoje, com partir do fato bruto: que o homem quer viver e, porque quer viver, quando o frio ameaça com destruí-lo, o homem sente a necessidade? de evitar o frio e proporcionar-se calor. O relâmpago da tempestade invernal acende um ponto? do bosque: o homem então se aproxima ao fogo? benéfico que o acaso? lhe proporcionou para esquentar-se. Esquentar-se é um ato? pelo qual o homem atende a sua necessidade de evitar o frio, aproveitando sem mais o fogo que encontra pela frente. Digo isto com o sobressalto com que se diz sempre um truísmo?. Contudo, nos convém — logo os senhores irão ver? — esta humildade? inicial que nos identifica com Calino. O importante é que não resulte que além? de dizer truísmos os dizemos sem entendê-los. Isso seria o cúmulo, um cúmulo que com grande frequência praticamos. Anote-se, pois, que esquentar-se é a operação? com a qual procuramos receber? sobre nós um calor que já está aí, que encontramos — e que essa operação se reduz a exercer uma atividade? com que o homem se encontra dotado evidentemente: a de poder caminhar? e assim aproximar-se ao fogo que aquece. Outras vezes? o calor não provém de um incêndio, porquanto o homem, transido de frio, se refugia numa caverna que encontra em sua paisagem.

Outra necessidade do homem é alimentar-se, e alimentar-se é colher o fruto da árvore e comê-lo, ou então a raiz? mastigável ou ainda o animal? que cai sob sua mão. Outra necessidade é beber, etc.

Ora, a satisfação? destas necessidades costuma impor outra necessidade: a de deslocar-se, caminhar, isto é, suprimir as distâncias, e como às vezes importa que esta supressão se faça em bem pouco tempo, necessita o homem suprimir tempo, encurtá-lo, ganhá-lo. O inverso acontece quando um inimigo — a fera ou outro homem — põe em perigo sua vida?. Necessita fugir?, isto é, lograr no menor tempo a maior distância. Seguindo por este modo chegaríamos, com um pouco de paciência, a definir? um sistema? de necessidades com o qual o homem se encontra. Esquentar-se, alimentar-se, caminhar, etc., são um repertório de atividades que o homem possui, evidentemente, com o qual se encontra da mesma forma? como se encontra com as necessidades delas decorrentes.

Com ser tudo isto tão óbvio que — repito — encabula um pouco enunciá-lo, convém reparar na significação? que aqui tem o termo? necessidade. Que quer dizer que o esquentar-se, alimentar-se, caminhar são necessidades do homem? Sem dúvida? que são elas condições naturalmente necessárias para viver. O homem reconhece esta necessidade material? ou objetiva e porque a reconhece a sente subjetivamente como necessidade. Mas note-se que esta sua necessidade é puramente condicional. A pedra? solta no ar? cai necessariamente, com necessidade categórica ou incondicional. Mas o homem pode perfeitamente não alimentar-se, como agora o Mahâtma Gandhi. Não é, pois, o alimentar-se necessário por si, é necessário para viver. Terá, pois, tanto de necessidade quanto seja necessário viver se se há de viver. Este viver é, pois, a necessidade originária de que todas as demais são meras consequências. Ora, já indicamos que o homem vive porque quer. A necessidade de viver não lhe é imposta à força?, como lhe é imposto à matéria não poder aniquilar-se. A vida — necessidade das necessidades — é necessária apenas num sentido subjetivo?; simplesmente porque o homem decide autocraticamente viver. É a necessidade criada por um ato de vontade, ato cujo sentido e origem? prosseguiremos olhando de viés e de que partimos como de um fato bruto. Seja lá por que razão?, acontece que o homem costuma ter um grande empenho em sobreviver, em estar no mundo, apesar de? ser o único? ente conhecido que tem a faculdade — ontológica? ou metafisicamente tão estranha, tão paradoxal, tão conturbada — de poder aniquilar-se e deixar de estar aí, no mundo.

E, pelo visto, esse empenho é tão grande que quando o homem não pode satisfazer as necessidades inerentes a sua vida, porque a natureza? ao derredor não lhe propicia os meios inescusáveis, o homem não se resigna. Se, por falta? de incêndio ou de caverna, não pode exercer a atividade ou fazer de esquentar-se, ou por falta de frutos, raízes, animais, a de alimentar-se, o homem põe em movimento? uma segunda linha de atividades: faz fogo, faz um edifício, faz agricultura ou caçada. É o caso que aquele repertório de necessidades e o de atividades que as satisfazem diretamente, aproveitando os meios que estão já aí quando estão, são comuns ao homem e ao animal. A única coisa da qual não podemos estar certos é de se o animal tem o mesmo? empenho que o homem em viver. Dir-se-á que é imprudente e até injusta esta dúvida. Por que o animal há de ter menos apego à vida que o homem? O que ocorre é que não tem os dotes intelectuais? do homem para defender sua vida. Tudo isto é provavelmente bastante discreto?, mas uma consideração um pouco cautelosa, que se atem aos fatos, encontra-se irrefragavelmente com que o animal, quando não pode exercer a atividade de seu repertório elemental para satisfazer uma necessidade — por exemplo?, quando não há fogo nem caverna — não faz nada mais e se deixa morrer. O homem, ao contrário, dispara um novo tipo? de fazer que consiste em produzir? o que não estava aí na natureza, seja porque em absoluto? não esteja, seja porque não está quando faz falta. Natureza não significa aqui senão o que rodeia ao homem, a circunstância. Assim faz fogo quando não há fogo, faz uma caverna, isto é, um edifício, quando não existe na paisagem, monta um cavalo ou fabrica um automóvel para suprimir espaço? e tempo. Ora, note-se que fazer fogo é um fazer bem diverso de esquentar-se, que cultivar um campo? é um fazer bem diverso de alimentar-se, e que fazer um automóvel não é correr. Agora começa a ver-se por que tivemos que insistir na truística definição de esquentar-se, alimentar-se e deslocar-se.

Aquecimento, agricultura e fabricação? de carros ou automóveis não são, pois, atos em que satisfazemos nossas necessidades, já que, ao contrário, implicam uma supressão daquele repertório primitivo? de fazeres em que diretamente procuramos satisfazê-las. Em suma?, a esta satisfação e não a outra coisa se encaminha este segundo repertório, mas — ei-lo! — supõe ele uma capacidade? que é precisamente o que falta ao animal. Não é tanto inteligência? o que lhe falta — sobre isto falaremos um pouco, se houver tempo — como o ser capaz de desprender-se transitoriamente dessas urgências vitais, desgrudar-se delas e ficar-disponível para ocupar-se? em atividades que, por si, não são satisfação de necessidades. O animal, pelo contrário, está sempre e indefectivelmente preso a elas. Sua existência? não é mais que o sistema dessas necessidades elementares que chamamos orgânicas? ou biológicas e o sistema de atos que as satisfazem. O ser do animal coincide com esse duplo sistema ou, dito? em outras palavras?, o animal não é mais que isso. Vida, no sentido biológico ou orgânico da palavra, é isso. E eu? pergunto: tem sentido, referindo-se a um tal ser, falar de necessidades? Porque, lembro aos senhores, que, referido este conceito? de necessidade ao homem, consistia nas condições sine quibus non com que o homem se encontra para viver. Elas, pois, não são sua vida ou, dito ao contrário, sua vida não coincide, pelo menos totalmente, com o perfil de suas necessidades orgânicas. Se coincidisse, como acontece no animal, se seu ser consistisse estritamente e só em comer, beber, esquentar-se, etc., não as sentiria como necessidades, isto é, como imposições que, de fora?, chegam a seu autêntico? ser, com que este não tem outro remédio? senão contar, mas que não o constituem . Carece, pois, de bom-senso supor que o animal tem necessidades no sentido subjetivo que a este termo corresponde referido ao homem. O animal sente fome, mas como não tem outra coisa que fazer senão sentir fome e tratar de comer, não pode sentir tudo isto como uma necessidade, como alguma coisa com que é preciso contar, que não há outro remédio senão fazer e que lhe é imposto. Ao contrário, se o homem conseguisse não ter essas necessidades e, consequentemente, não ter que ocupar-se em satisfazê-las, ainda lhe restaria muito que fazer, muito âmbito de vida, precisamente as tarefas (quehaceres) e a vida que ele considera como o mais seu. Precisamente porque não sente o esquentar-se e o comer como o seu, como aquilo em que sua verdadeira vida consiste e de outro lado não tem outro remédio senão aceitá-lo, é pelo que se lhe apresenta com o caráter específico de necessidade, de inevitabilidade. E isso, inesperadamente, nos descobre a constituição? estranhíssima do homem: enquanto todos os demais seres coincidem com suas condições objetivas — com a natureza ou circunstância — o homem não coincide com esta, já que é alguma coisa alheia e distinta de sua circunstância; mas não tendo outro remédio, se quer ser e estar nela, tem que aceitar as condições que esta lhe impõe. Daí que se lhe apresentem com um aspecto? negativo, forçado e penoso.

Por outro lado, isto esclarece ura pouco que o homem possa desentender-se provisoriamente dessas necessidades, as suspenda ou contenha e, distanciado delas, possa transladar-se para outras ocupações? que não são sua imediata satisfação.

O animal não pode retirar-se de seu repertório de atos naturais, da natureza, porque não é senão ela e não teria, ao distanciar-se dela onde meter?-se. Mas o homem, pelo visto, não é sua circunstância, já que está somente submerso nela e pode em alguns momentos sair dela e pôr?-se em si, recolher-se, ensimesmar-se, e só Consegue ocupar-se em coisas que não são direta e imediatamente atender aos imperativos? ou necessidades de sua circunstância. Nestes momentos extra ou sobrenaturais de ensimesmamento e retração em si inventa e executa esse segundo repertório de atos: faz fogo, faz uma casa, cultiva o campo e monta o automóvel.

Notemos que todos estes atos têm uma estrutura? comum?. Todos eles pressupõem e levam em si a invenção? de um procedimento que nos permite, dentro? de certos limites, obter com segurança, a nosso ver e conveniências, o que não existe na natureza, mas que necessitamos. Não importa, pois, que na circunstância, aqui e agora, não haja fogo. Fazemo-lo, isto é, executamos aqui e agora um certo esquema? de atos que previamente havíamos inventado de uma vez para sempre. Este procedimento consiste amiúde na criação? de um objeto? cujo simples? funcionamento? nos proporciona isso que carecemos, o instrumento? ou aparelho. Tais são os dois palitos e a isca com que o homem primitivo faz fogo ou a casa que levanta e o separa do extremo frio ambiente?.

De onde resulta que estes atos modificam ou reformam a circunstância ou natureza, conseguindo que nela haja o que não há — seja que não existe aqui e agora quando se necessita, seja que em absoluto não existe. Pois bem, estes são os atos técnicos, específicos do homem. O conjunto deles é a técnica, que podemos, desde logo, definir como a reforma que o homem impõe à natureza em vista da satisfação de suas necessidades. Estas, vimos, eram imposições da natureza ao homem. O homem responde impondo por sua vez uma mudança? à natureza. É, pois, a técnica, a reação? enérgica contra a natureza ou circunstância que leva a criar entre esta e o homem uma nova natureza posta sobre aquela, uma sobrenatureza. Anote-se, portanto: a técnica não é o que o homem faz para satisfazer suas necessidades. Esta expressão? é equívoca e valeria também para o repertório biológico dos atos animais. A técnica é a reforma da natureza, dessa natureza que nos faz necessitados e indigentes, reforma em sentido tal que as necessidades ficam, a ser possível?, anuladas por deixar de ser problema sua satisfação. Se sempre que sentimos frio a natureza automaticamente pusesse à nossa disposição? fogo, é evidente que não sentiríamos a necessidade de esquentar-nos, como normalmente não sentimos a necessidade de respirar, já que simplesmente respiramos sem ser-nos isso problema algum. Pois isso faz a técnica, precisamente isso: pôr-nos o calor junto à sensação de frio e anular praticamente esta enquanto necessidade, indigência, negação?, problema e angústia?.

Fica aqui esta primeira e tosca aproximação à pergunta: Que é a técnica? Mas, agora, uma vez obtida essa aproximação, é quando começam a complicar-se as coisas e a comportar-se um tanto divertidas, como veremos nas próximas lições.

original

Uno? de los temas que en los próximos años se va a debatir con mayor brío es el del sentido, ventajas, daños y límites de la técnica. Siempre he considerado que la misión del escritor es prever con holgada anticipación lo que va a ser problema, años más tarde, para sus lectores y proporcionarles a tiempo, es decir, antes de que el debate surja, ideas claras sobre la cuestión, de modo que entren en el fragor de la contienda con el ánimo sereno de quien, en principio, ya la tiene resuelta. On ne doit écrire que pour faire connaître la vérité —decía Malebranche volviendo la espalda a la literatura. Hace mucho tiempo, dándose o no cuenta de ello, el hombre occidental no espera nada de la literatura y vuelve a sentir hambre y sed de ideas claras y distintas sobre las cosas importantes.

Así ahora me atrevo a remitir a La Nación las notas, nada literarias, de un curso universitario dado hace dos años, en que se intentaba contestar a esta pregunta: ¿Qué es la técnica?

Intentemos un primer ataque, aun tosco y desde lejos, a esa interrogación.

Acontece que cuando llega el invierno, el hombre siente frío. Este «sentir frío el hombre» es un fenómeno en que aparecen unidas dos cosas muy distintas. Una, el hecho de que el hombre encuentre en torno a sí esa realidad llamada frío. Otra, que esa realidad le ofende, que se presenta ante él con un carácter? negativo. ¿Qué quiere decir aquí negativo? Algo muy claro. Tomemos el caso extremo. El frío es tal que el hombre se siente morir, esto es, siente que el frío le mata, le aniquila, le niega. Ahora bien; el hombre no quiere morir, al contrario, normalmente anhela pervivir. Estamos tan habituados a experimentar en los demás y en nosotros este deseo de vivir, de afirmarnos frente a toda circunstancia negativa, que nos cuesta un poco caer en la cuenta de lo extraño que es, y nos parece absurda o tal vez ingenua la pregunta: ¿Por qué el hombre prefiere vivir a dejar de ser? Y, sin embargo, se trata de una de las preguntas más justificadas y discretas que podamos hacernos. Suele salírsele al paso hablando del instinto de conservación. Pero acaece: 1.º, que la idea? de instinto es en sí misma muy oscura y nada esclarecedora; 2.º, que aunque fuese clara la idea, es cosa notoria que en el hombre los instintos están casi borrados, porque el hombre no vive, en definitiva, de sus instintos, sino que se gobierna mediante otras facultades como la reflexión y la voluntad, que reobran sobre los instintos. La prueba de ello es que algunos hombres prefieren morir a vivir y, por los motivos que sean, anulan en si ese supuesto instinto de conservación.

Es, pues, fallida la explicación por el instinto. Con él o sin él desembocamos siempre en que el hombre pervive porque quiere y esto es lo que despertaba en nosotros una curiosidad acaso impertinente. ¿Por qué normalmente quiere el hombre vivir? ¿Por qué no le es indiferente desaparecer? ¿Qué empeño tiene en estar en el mundo?

Nosotros vamos ahora a soslayar la respuesta. Nos basta, al menos por hoy, con partir del hecho bruto: que el hombre quiere vivir y, porque quiere vivir, cuando el frío amenaza con destruirle, el hombre siente la necesidad de evitar el frío y proporcionarse calor. El rayo de la tormenta invernal incendia una punta del bosque: el hombre entonces se acerca al fuego benéfico que el azar le ha proporcionado para calentarse. Calentarse es un acto por el cual el hombre subviene a su necesidad de evitar el frío, aprovechando sin más el fuego que encuentra ante si. Digo esto con el azoramiento con que se dice siempre una perogrullada. Sin embargo, nos conviene —ya lo verán ustedes— esta humildad inicial que nos empareja con Perogrullo. Ahora no vaya a resultar que encima de decir perogrulladas las digamos sin entenderlas. Eso sería el colmo, un colmo que con gran frecuencia practicamos. Conste, pues, que calentarse es la operación con la cual procuramos recibir sobre nosotros un calor que está ya ahí, que encontramos —y que esa operación se reduce a ejercitar una actividad con que el hombre se encuentra dotado desde luego: la de poder caminar y así acercarse al foco caliente. Otras veces el calor no proviene de un incendio, sino que el hombre, transido de frío, se guarece en una caverna que encuentra en su paisaje.

Otra necesidad del hombre es alimentarse, y alimentarse es coger el fruto del árbol y comérselo, o bien la raíz masticable, o bien el animal que cae bajo la mano. Otra necesidad es beber, etcétera.

Ahora bien; la satisfacción de estas necesidades suele imponer otra necesidad: la de desplazarse, caminar, esto es, suprimir las distancias, y como a veces importa que esta supresión se haga en muy poco tiempo, necesita el hombre suprimir tiempo, acortarlo, ganarlo. Lo inverso acontece cuando un enemigo —la fiera u otro hombre— pone en peligro su vida. Necesita huir, es decir, lograr en el menor tiempo la mayor distancia. Siguiendo por este modo llegaríamos, con un poco de paciencia, a definir un sistema de necesidades con que el hombre se encuentra. Calentarse, alimentarse, caminar, etcétera, son un repertorio de actividades que el hombre posee, desde luego, con que se encuentra lo mismo que se encuentra con las necesidades a que ellas subvienen.

Con ser todo esto tan obvio que —repito— da un poco de vergüenza enunciarla, conviene reparar en el significado? que aquí tiene el término? necesidad. ¿Qué quiere decir que el calentarse, alimentarse, caminar, son necesidades del hombre? Sin duda que son ellas condiciones naturalmente necesarias para vivir. El hombre reconoce esta necesidad material u objetiva y porque la reconoce la siente subjetivamente como necesidad. Pero nótese que ésta su necesidad es puramente condicional. La piedra suelta en el aire cae necesariamente, con necesidad categórica o incondicional. Pero el hombre puede muy bien no alimentarse, como ahora el mahatma Gandhi. No es pues, el alimentarse necesario por sí, es necesario para vivir. Tendrá, pues, tanto de necesidad cuanto sea necesario vivir si se ha de vivir. Este vivir es, pues, la necesidad originaria de que todas las demás son meras consecuencias. Ahora bien: ya hemos indicado que el hombre vive porque quiere. La necesidad de vivir no le es impuesta a la fuerza, como le es impuesto a la materia no poder aniquilarse. La vida —necesidad de las necesidades— es necesaria sólo en un sentido subjetivo; simplemente porque el hombre decide autocráticamente vivir. Es la necesidad creada por un acto de voluntad, acto cuyo sentido y origen seguiremos soslayando y de que partimos como de un hecho bruto. Sea por lo que sea, acontece que el hombre suele tener un gran empeño en pervivir, en estar en el mundo, a pesar de ser el único ente conocido que tiene la facultad —ontológica o metafísicamente tan extraña, tan paradójica, tan azorante— de poder aniquilarse y dejar de estar ahí, en el mundo.

Y por lo visto ese empeño es tan grande, que cuando el hombre no puede satisfacer las necesidades inherentes a su vida, porque la naturaleza en torno no le presta los medios? inexcusables, el hombre no se resigna. Si, por falta de incendio o de caverna, no puede ejercitar la actividad o hacer de calentarse, o por falta de frutos, raíces, animales, la de alimentarse, el hombre pone en movimiento una segunda línea de actividades: hace fuego, hace un edificio, hace agricultura o cacería. Es el caso que aquel repertorio de necesidades y el de actividades que las satisfacen directamente aprovechando los medios que están ya ahí cuando están, son comunes al hombre y al animal. Lo único de que no podemos estar seguros es de si el animal tiene el mismo empeño que el hombre en vivir. Se dirá que es imprudente y hasta injusta esta duda. ¿Por qué el animal ha de tener menos apego a la vida que el hombre? Lo que pasa es que no tiene las dotes intelectuales del hombre para defender su vida. Todo esto es probablemente muy discreto, pero una consideración un poco cautelosa, que se atiene a los hechos, se encuentra irrefragablemente con que el animal, cuando no puede ejercer la actividad de su repertorio elemental para satisfacer una necesidad —por ejemplo, cuando no hay fuego ni caverna—, no hace nada más y se deja morir. El hombre, en cambio, dispara un nuevo tipo de hacer que consiste en producir lo que no estaba ahí en la naturaleza, sea que en absoluto no esté, sea que no está cuando hace falta. Naturaleza no significa aquí sino lo que rodea al hombre, la circunstancia. Así hace fuego cuando no hay fuego, hace una caverna, es decir, un edificio, cuando no existe en el paisaje, monta un caballo o fabrica un automóvil para suprimir espacio y tiempo. Ahora bien; nótese que hacer fuego es un hacer muy distinto de calentarse, que cultivar un campo es un hacer muy distinto de alimentarse, y que hacer un automóvil no es correr. Ahora empieza a verse por qué antes tuvimos que insistir en la perogrullesca definición de calentarse, alimentarse y desplazarse.

Calefacción, agricultura y fabricación de carros o automóviles no son, pues, actos en que satisfacemos nuestras necesidades, sino que, por el pronto, implican lo contrario: una suspensión de aquel repertorio primitivo de haceres en que directamente procuramos satisfacerlas. En definitiva, a esta satisfacción y no a otra cosa va este segundo repertorio, pero —ahí está— supone él una capacidad que es precisamente lo que falta al animal. No es tanto inteligencia lo que le falta —sobre esto ya hablaremos algo, si hay tiempo— como el ser capaz de desprenderse transitoriamente de esas urgencias vitales, despegarse de ellas y quedar franco para ocuparse en actividades que, por sí, no son satisfacción de necesidades. El animal, por el contrario, está siempre e indefectiblemente prendido a ellas. Su existencia no es más que el sistema de esas necesidades elementales que llamamos orgánicas o biológicas y el sistema de actos que las satisfacen. El ser del animal coincide con ese doble sistema o, dicho en otro giro, el animal no es más que eso. Vida, en el sentido biológico u orgánico de la palabra?, es eso. Y yo pregunto: ¿tiene sentido, refiriéndose a un ser tal, hablar de necesidades? Porque recuerden ustedes que referido este concepto de necesidad al hombre, consistía en las condiciones sine quibus non con que el hombre se encuentra para vivir ellas, pues, no son su vida o, dicho al revés, su vida no coincide, por lo menos totalmente, con el perfil de sus necesidades orgánicas. Si coincidiera, como acontece en el animal, si su ser consistiese estrictamente y sólo en comer, beber, calentarse, etcétera, no las sentiría como necesidades, esto es, como imposiciones que desde fuera llegan a su auténtico ser, con que éste no tiene más remedio que contar, pero que no lo constituyen. Carece, pues, de buen sentido suponer que el animal tiene necesidades en el sentido subjetivo que a este término corresponde referido al hombre. El animal siente hambre, pero como no tiene otra cosa que hacer sino sentir hambre y tratar de comer, no puede sentir todo esto como una necesidad, como algo con que hay que contar, que no hay más remedio que hacer y que le viene impuesto. En cambio, si el hombre consiguiera no tener esas necesidades y consecuentemente no tener que ocuparse en satisfacerlas, aún le quedaría mucho que hacer, mucho ámbito de vida, precisamente los quehaceres y la vida que él considera como lo más suyo. Precisamente porque no siente el calentarse y el comer como lo suyo, como aquello en que su verdadera vida consiste y de otro lado no tiene más remedio que aceptarlo, es por lo que se le presenta con el carácter específico de necesidad, de ineludibilidad. Lo cual inesperadamente nos descubre la constitución extrañísima del hombre; mientras todos los demás seres coinciden con sus condiciones objetivas —con la naturaleza o circunstancia—, el hombre no coincide con ésta sino que es algo ajeno y distinto de su circunstancia; pero no teniendo más remedio si quiere ser y estar en ella tener que aceptar. Las condiciones que ésta le impone. De aquí que se le presenten con un aspecto negativo, forzado y penoso.

Por otra parte?, esto aclara un poco que el hombre pueda desentenderse provisionalmente de esas necesidades, las suspenda o contenga y distanciado de ellas pueda vacar a otras ocupaciones que no son su inmediata satisfacción.

El animal no puede retirarse de su repertorio de actos naturales, de la naturaleza, porque no es sino ella y no tendría al distanciarse de ella dónde meterse. Pero el hombre, por lo visto, no es su circunstancia, sino que está solo sumergido en ella y puede en algunos momentos salirse de ella, y meterse en sí, recogerse, ensimismarse y sólo consigo ocuparse en cosas que no son directa e inmediatamente atender a los imperativos o necesidades de su circunstancia. En estos momentos extra o sobrenaturales de ensimismamiento y retracción en sí, inventa y ejecuta ese segundo repertorio de actos: hace fuego, hace una casa, cultiva el campo y arma el automóvil.

Notemos que todos estos actos tienen una estructura común. Todos ellos presuponen y llevan en sí la invención de un procedimiento que nos permite, dentro de ciertos límites, obtener con seguridad, a nuestro antojo y conveniencia, lo que no hay en la naturaleza, pero que necesitamos. No importa, pues, que en la circunstancia, aquí y ahora, no haya fuego. Lo hacemos, es decir, ejecutamos aquí y ahora un cierto esquema de actos que previamente habíamos inventado de una vez para siempre. Este procedimiento consiste a menudo en la creación de un objeto cuyo simple funcionamiento nos proporciona eso que habíamos menester, el instrumento o aparato. Tales son los dos palitos y la yesca con que el hombre primitivo hace fuego o la casa que levanta y le separa del extremo frío ambiente.

De donde resulta que estos actos modifican o reforman la circunstancia o naturaleza, logrando que en ella haya lo que no hay —sea que no lo hay aquí y ahora cuando se necesita, sea que en absoluto no lo hay. Pues bien; éstos son los actos técnicos, específicos del hombre. El conjunto de ellos es la técnica, que podemos, desde luego, definir, como la reforma que el hombre impone a la naturaleza en vista de la satisfacción de sus necesidades. Éstas, hemos visto, eran imposiciones de la naturaleza al hombre. El hombre responde imponiendo a su vez un cambio a la naturaleza. Es, pues, la técnica, la reacción enérgica contra la naturaleza o circunstancia que lleva a crear entre ésta y el hombre una nueva naturaleza puesta sobre aquélla, una sobrenaturaleza. Conste, pues: la técnica no es lo que el hombre hace para satisfacer sus necesidades. Esta expresión es equívoca y valdría también para el repertorio biológico de los actos animales. La técnica es la reforma de la naturaleza, de esa naturaleza que nos hace necesitados y menesterosos, reforma en sentido tal que las necesidades quedan a ser posible anuladas por dejar de ser problema su satisfacción. Si siempre que sentimos frío la naturaleza automáticamente pusiese a nuestra vera fuego, es evidente que no sentiríamos la necesidad de calentarnos, como normalmente no sentimos la necesidad de respirar, sino que simplemente respiramos sin sernos ello problema alguno. Pues eso hace la técnica, precisamente eso: ponernos el calor junto a la sensación de frío y anular prácticamente ésta en cuanto necesidad, menesterosidad, negación, problema y angustia.

Quede aquí esta primera y tosca aproximación a la pregunta: ¿Qué es la técnica? Pero ahora, una vez lograda esa aproximación, es cuando empiezan a complicarse las cosas y a ponerse un tanto divertidas, como veremos en las lecciones próximas.


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