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Confrontação de Heidegger com a Modernidade

Zimmerman – Metafísica Producionista

Tecnologia, Política e Arte

quarta-feira 3 de novembro de 2021, por Cardoso de Castro

      

Análise do desdobramento do pensamento   de Heidegger   sobre a técnica, sustentando um diálogo   com pensamentos contemporâneos, p.ex. Jünger  , Spengler   e outros. A contextualização sócio-política é também retratada enquanto meio no qual a "questão da técnica" ganha ainda mais sentido.

      
    • Introdução
      • Excelente análise da questão da técnica em Heidegger, contextualizada na sua constituição de questionamento relevante a nossa época.
      • Para Heidegger a técnica moderna tem três significados inter-relacionados:
        • primeiro, as técnicas, dispositivos, sistemas, e processos de produção usualmente associados com o industrialismo;
        • segundo, a visão   de mundo racionalista, científica, mercantilista, utilitária, antropocêntrica, usualmente associada com a Modernidade;
        • terceiro, o modo de compreensão   contemporâneo ou o modo de descobrir coisas que torna possível tanto os processos de produção industrial quanto a visão de mundo modernista. Heidegger sustenta que este último significado da “técnica moderna” é o mais importante de todos.
      • Tanto o industrialismo quanto a modernidade são sintomas do des-cobrimento de coisas como matéria-prima a ser usada na expansão do escopo do poder tecnológico para si próprio  .
        • Este des-cobrimento uni-dimensional das coisas como matéria-prima, segundo Heidegger, não é o resultado de uma decisão   humana, mas de desenvolvimentos dentro da “história do ser” ela mesma.
        • O estágio técnico nesta história assim transformou como as coisas são compreendidas, o que faz com que as pessoas sejam compelidas a tomar parte na ordem que se assenta e adotar a visão de mundo modernista a ela relacionada.
      • Como Kant  , Heidegger acreditava que a tarefa do filósofo era desvendar as condições transcendentais que possibilitam o conhecimento e a ação humanos. Estas condições não são em si coisas, mas tornam possível nossa experiência objetiva de coisas.
        • Em sua análise da técnica moderna, Heidegger tentou descobrir as condições necessárias para a possibilidade de nossa experiência uni-dimensional de entidades como matéria-prima.
      • Como Hegel  , Heidegger sustentou que as atividades humanas são em grande parte não auto-referenciadas e auto-originadas, mas ao contrário guiadas e configuradas por um “jogo  ” histórico de linguagem e conceitos que não está sob o controle humano.
        • Este jogo conceitual-linguístico determina as categorias que configuram as possibilidades da ação, do conhecimento e da crença humanas em determinada época histórica.
      • Enquanto Heidegger rejeita a visão de Hegel que a história é um movimento   progressivo em direção   da divina consciência de si, ambos tentaram desvendar a natureza dos “movimentos” conceituais e ontológicos que marcaram as diferentes épocas históricas dentro das quais a humanidade ocidental foi “projetada”.
      • Heidegger acreditava que estes movimentos marcados por épocas não eram em si visões de mundo (Weltanschauungen), mas sim as condições ontológicas necessárias para a emergência de uma visão de mundo particular.
        • Para Heidegger, então, a visão de mundo chamada “Modernidade” nunca foi um termo final na explicação da situação   contemporânea, mas ao invés um sintoma de um movimento mais profundo que se oculta.
        • Sustenta que o movimento destas épocas históricas começou com a metafísica de Platão e culminou na era técnica.
        • Os principais períodos da história Ocidental — Grego, Romano, Medieval, Iluminista, Técnico — marcam, para Heidegger, os estágios de um longo declínio na compreensão da humanidade Ocidental daquilo que significa para alguma coisa, “ser”.
          • Na era técnica, em particular, para alguma coisa “ser” significa para ela ser matéria-prima para o auto-aperfeiçoamento   do sistema técnico.
      • Interpretação   da técnica moderna distinta da antropológica, que guarda   uma perspectiva evolucionista da técnica.
        • Para Heidegger a técnica industrial não é fruto   de evolução, mas de um modo de compreensão uni-dimensional do que "são" as coisas; cada época determina a manifestação   das coisas; algo "ser" significa "ser des-encoberto  " ou "ser manifesto  ".
    • Nova Ordem de Trabalho  
      • Confrontação com a Modernidade
        • Modernidade como estágio final da história do declínio do Ocidente desde os Gregos até o niilismo técnico do século XX. Os Gregos iniciaram uma "metafísica producionista" quando concluíram que "ser", para um ente  , significava ser produzido.
        • Relação   ambígua com a política reacionária da Alemanha dos anos 1920
        • A emergência dolorosa da Alemanha moderna e industrial
        • Ataques à Modernidade do movimento Völkisch
        • Impacto da Grande Guerra  
      • Primeiras críticas da técnica moderna
        • Sob a perspectiva das visões anti-modernistas H. não vê a técnica moderna como neutra, nem como evolução da humanidade, mas como sintoma do declínio da compreensão do "ser do ente"; a partir dos anos 1930 defende uma transformação   na relação com a técnica, onde o trabalhador não seria mais escravo   de suas exigências, mas um autêntico produtor de coisas.
        • A cotidianidade do homem   moderno revela uma sociedade urbano-industrial onde o que há de essencial, eterno e transcendente é posto em jogo.
        • Influência de Oswald Spengler  , embora com reservas H. prefira reconhecer   um caráter metafísico na base da decadência do Ocidente.
        • A. Primeiras críticas da Tradição   Iluminista
          • Berço cultural em vilarejo rural
          • Formação católica
          • Estudos de teologia, com interesse   particular na salvação   e na "justificação" do homem.
          • Passagem para filosofia, e da justificação para a autenticidade.
          • Leituras de Kierkegaard   e Nietzsche   reforçam sentido de desespero   quanto a Modernidade e a sociedade de massa  .
          • Encontros com a poesia expressionista e Dostoievsky, enfatizam o domínio   transcendental além do material.
          • Tese de doutorado sobre o psicologismo em 1914 e Habilitação sobre Duns Scotus: ambos já refletem uma preocupação, que vai acompanhá-lo, em demonstrar   que a estrutura   transcendental da existência humana não pode ser reduzida ou compreendida em termos de princípios da ciência natural. A existência humana foi incapaz de ser objetivada até então. Cabe a filosofia promover a regeneração espiritual da humanidade, alienada de si própria pela Modernidade e industrialização.
          • Na palestras de Freiburg (1919-1923) concebia seu próprio trabalho como como um desafio à Modernidade. Em suas palestras sobre a filosofia do valor   argumenta que se usa o termo cultura (Kultut) para descrever povos historicamente auto-conscientes, que se comprometeram com metas de configuração (Gestaltung) do mundo, realizando grandes coisas através de ciência e tecnologia: "No final do século XIX, realizações especiais eram consideradas em termos de técnica e da base teórica que a sustenta: ciência natural. Fala-se da Idade da CIência natural, e do Século da Técnica. (GA 56/57). Heidegger considera uma Kultur orientada para realizações o ápice da desprezível Zivilization Iluminista.
          • Inaceitável também para H. o ideal de "homem culto" (gebilder Mensch), tipicamente um acadêmico formado por anos nos clássicos e dedicado a sustentação dos padrões de "alta cultura" contra a "cultura de massa" mercantilista. A "salvação’ está na busca do fundamento ontológico primal   que serviu de fonte   à cultura grega.
          • O Iluminismo defendia a auto-afirmação da razão   e liberdade humanas. Para H, no entanto, o Iluminismo era de fato um evento maior no caminho   para o niilismo da Modernidade. Não era um agente   de liberdade mas algo dominado pela "ciência natural matematizada e ... o pensamento racional em geral... (GA 56/57). A experiência objetivante (Erfahrung) da ciência des-vivifica (ent-lebt) a experiência vivida (Erlebnis) das pessoas. (GA 56/57). Considere como a visão racional-geométrica do espaço e do tempo   e a objetivante visão científica dos objetos transformam ferramentas do meio ambiente (Umwelt) em objetos desconectados da experiência vivida. H. recomenda o "ver" intuitivo de uma fenomenologia afinada com a vida. Uma filosofia mais primordial do que a atividade   diligente   (Betrieb) da ciência normal, foi a investigação apaixonada na origem autêntica (Ursprung) e começo (Anfang) das coisas (GA 61). A Filosofia foi um affair existencial, "uma maneira de comportar-se" (Patão nunca definiria a filosofia como techne   - como um disciplina técnica dentro da estrutura da universidade moderna) (GA 61).
          • Em 1921, H argumenta que a sua geração vivia ao fim de uma tradição e o começo de uma nova (GA 61). A decadência do Ocidente era o resultado inevitável de um intrínseco movimento humano para a ruína (Ruinanz), longe de vislumbres primais. A tarefa da filosofia era lutar contra esta decadência e apelar a Volk para o encontro originário como o ser do ente (GA 61).
        • B. A crítica da Modernidade e da Cultura de Massa em Ser e Tempo
        • C. A apropriação crítica de Spengler no tocante à técnica
      • Heidegger, Nacional Socialismo e Técnica Moderna
        • Preocupação com questões urgentes da "existência fática" e problemas de história da metafísica. Relações entre decadência do Ocidente no niilismo e declínio da humanidade ocidental na compreensão do ser.
        • A tese Jünger   de que a Gestalt do trabalhador mobilizava o planeta   em um frenesi técnico, similar a Spengler, Scheler   e outros. Jünger expressa melhor a condição metafísica do Ocidente no fim da história da metafísica. Jünger não aceita explicações marxistas e liberais para a Modernidade industrial. A transformação industrial é uma manifestação empírica de um poder oculto que metamorfoseia o mundo, tomando a forma da Gestalt do trabalhador, enquanto última manifestação histórica da Vontade de Poder de Nietzsche. H. adota o que Jünger denomina a história da Vontade de Poder, sob a denominação de "história do ser".
        • Ilusão   das possibilidades do Nacional Socialismo
        • Apreciação da importância dos escritos de Jünger
        • Apoio à quimera   do Nacional Socialismo - um sonho   filosófico
        • Revisitando a história oficial de eventuais associações com o Nazismo
      • Jünger e a Gestalt do Trabalhador
        • Modernismo reacionário
        • A experiência de guerra de Jünger: encontros com a vontade primal
        • Mobilização total: a técnica como fenômeno estético
        • Conceito de Gestalt do trabalhador
      • Apropriação de H. do pensamento de Jünger
        • Discurso de Reitorado 1933
        • Discursos políticos sobre a natureza do trabalho e o estado   do trabalhador
        • Aprorpiação da retórica de Jünger
      • O pensamento de Jünger no conceito maduro de técnica em Heidegger
        • Canalizando a expressão   primal
        • Transformação do conceito de Gestalt do trabalhador
        • H. muda de atitude sobre a visão futurista de Jünger
        • Atitude pós-guerra de H. em relação da era técnica
      • Nietzsche e a Obra de Arte
        • A visão trágica da vida
        • O Nacional Socialismo como "Nacional Esteticismo"
        • Nietzsche - visão de arte
      • Hölderlin   e o Poder da Arte
        • Papel do poeta transformando o espírito   alemão
        • Tarefa ungida a Alemanha
        • Mutações na visão do destino trágico da Alemanha
        • Terra  , mundo e criação autêntica
        • Morte de Deus   em Auschwitz
    • Crítica de Heidegger
      • Equipamento, Trabalho, Mundo e Ser
        • A. O mundo da atelier
        • B. A dívida de Heidegger para Kant e Aristóteles  
        • C. O papel da temporalidade na compreensão do ser
      • Ser e Tempo: penúltimo estágio da metafísica producionista
        • Dreyfus   argumenta que a orientação instrumentalista de Ser e Tempo promove o des-coberta tecnológica dos entes. Neste capítulo, Zimmerman, embora reconhecendo que muitas passagens de Ser e Tempo confirmam esta interpretação de Dreyfus, outras passagens de obras anteriores ajudam explicar e assim temperar o aparente instrumentalismo de Ser e Tempo.
        • A. A ontologia instrumentalista inicial de Heidegger.
          • A orientação instrumentalista de Ser e Tempo pode ser protamente reconhecida na seguinte afirmação: "Manualidade (Zuhandenheit) é um modo pelo qual os entes como são em si mesmos são definidos ontológico-categorialmente." (SZ 71) Sobre esta afirmação Heidegger nota que na vida diária do camponês e o trabalhador, "a madeira é uma floresta de lenha, a montanha   uma pedreira, o rio um potencial hidráulico, o vento é o vento na velas" (SZ 70). Vinte anos depois, alcançada sua concepção da tecnologia moderna, afirma que na era tecnológica "a terra agora se revela como um mina de carvão, o solo como um depósito mineral..." (Questão da Técnica).
          • Embora similares estas afirmações levam Dreyfus a propor que Ser e Tempo ocupa uma passagem fundamental entre uma compreensão tecnológica do ser e a compreensão instrumentalista grega do ser. O instrumentalismo de ST não é ainda totalmente tecnológico, porque configura o equipamento não em termos de tecnologia matematicamente estruturada mas em termos de atelier do artesão. Além do mais, ST ainda não falas da natureza como "dis-ponibilidade" (Bestand) indiferenciada. No entanto, apesar de qualquer similaridade entre o atelier descrito em ST e a oficina insdutrial, Heidegger localizou a oficina em um "mundo" que parece crescentemente tecnológico.
          • Descrevendo o atelier como uma "região" relativamente autônoma, Heidegger explica que esta região é um elemento   de uma totalidade de regiões, "a mundanidade do mundo" (SZ 86), o que para dreyfus significa uma expansão do local para um global. Ele reconhece que esta tendência a totalizar é um fenômeno especificamente moderno, ainda não revelado. Desde o princípio Heidegger discerniu este movimento totalizador no modo da humanidade moderna de estar "próxima" a coisas. Somente o Dasein   existe em um mundo; logo, somente o Dasein pode estar próximo ou afastado dos entes que se apresentam dentro do mundo. Um pedra   pode estar tocando outra, mas não "próxima" a outra, do mesmo modo que uma pessoa   está próxima de um familiar, mesmo distante. Heidegger usou o termo entfernen, aproximadamente traduzido por "dis-tanciar" de algo, para descrever o processo ontológico de a-proximar as coisas. A tentativa de fazer tudo igualmente próximo e disponível emerge da ontologia crescentemente unid-dimensional da modernidade: tudo aparece ser nada além de várias espécies de matéria que podem ser usadas e trocadas á vontade. Todas as maneiras   pelas quais aceleramos as coisas, como somos mais ou menos compelidos hoje em dia, nos levam em direção a conquista do distante. Com o rádio, por exemplo, Dasein expandiu de tal modo seu ambiente cotidiano que realizou uma dis-tanciamento do "mundo" - um dis-tanciamento que, em seu sentido para o Dasein, ainda não pode ser visualizado". (SZ 105) Heidegger argumenta que a moderna humanidade não mais "habita" autenticamente a Terra. Mais tarde, em suas palestras sobre Hölderlin, afirma que habitar   ocorre somente quando os entes são "reunidos" (versammelt) em um mundo no qual a integridade das coisas é preservada. Este mundo seria intrinsecamente "local", limitado ao lugar de um modo totalmente estranho ao alcance planetário da moderna tecnologia.
        • B. Evidência por uma ontologia não-instrumentalista no pensamento inicial de Heidegger
        • C. O artesanato grego e as origens da metafísica producionista
        • D. Ciência e fenomenologia como des-cobrimento e pro-dução autênticas
      • História da Metafísica Producionista
      • Ciclos de produção do "animal   laborante": uma manifestação da vontade da vontade
        • A. Crítica da idéia que os humanos são animais racionais
        • B. Concepção de Hannah Arendt   do "animal laborante"
        • C. O caráter cibernético da moderna tecnologia: a vontade quer a si mesma
        • D. Michel Foucault   e a demanda pelo bio-poder
      • Como a moderna técnica transforma a mundo cotidiano - e aponta para um novo
        • A. Como os novos dispositivos técnicos alteram a vida cotidiana
        • B. A transformação técnica do espaço e tempo
        • C. A funcionalização do trabalho, trabalhador e equipamento
        • D. Gestell: a "essência" da moderna técnica
        • E. Liberação   da moderna técnica
      • Produção autêntica: techne como a arte do des-cobrimento ontológico
        • A. Uma dualidade surpreendente: ser como auto-emergência e ser como aparição
        • B. Produção autêntica como techne e poiesis
        • C. A obra de arte, a coisa e a produção autêntica
        • D. Rilke, Cézanne e o des-encobrimento da "coisa"
        • E. Heidegger e "ecologia profunda"
        • F. Deixando o corpo humano "ser"
      • Reflexões críticas sobre o conceito de Heidegger da técnica moderna

Ver online : Heidegger’s Confrontation with Modernity