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O Visível e o Invisível

Merleau-Ponty (VI:107-112) – da questão an sit a qui sit

quarta-feira 3 de novembro de 2021, por Cardoso de Castro

Excerto de MERLEAU-PONTY  , Maurice. O Visível e o Invisível. Tr. José Artur Gianotti e Armando Mora d’Oliveira. São Paulo  : Perspectiva, 2003, p. 107-112.

português

Então, se a questão não pode mais ser a do an sit, ela se transforma na do quid sit, e nada mais resta senão procurar o que é o mundo, a verdade e o ser, nos termos da cumplicidade que temos com eles. Ao mesmo tempo que se renuncia à dúvida, também se renuncia à afirmação de uma exterioridade absoluta, de um mundo ou de um Ser que fossem um indivíduo maciço, voltamo-nos para esse Ser que duplica, em toda a sua extensão, nossos pensamentos, já que são pensamentos de alguma coisa e que eles próprios não são nada, sendo, portanto, sentido e sentido do sentido. Não somente este sentido que se vincula às palavras e pertence à ordem dos enunciados e das coisas ditas, a uma região circunscrita do mundo, a certo gênero do Ser — mas sentido universal, capaz de sustentar tanto as operações lógicas e a linguagem como o desdobramento do mundo. Ele será aquilo sem o que não haveria nem mundo nem linguagem, nem o que quer que seja, será a essência. Quando se reporta do mundo àquilo que o faz mundo, dos seres àquilo que os faz ser, o puro olhar, que não subentende nada, que não tem atrás de si, como o de nossos olhos, as trevas de um corpo e de um passado, não poderia aplicar-se a algo que esteja diante de si sem restrição nem condição: àquilo que faz com que o mundo seja mundo, a uma gramática imperiosa do ser, a núcleos de sentido indecomponíveis, redes de propriedades inseparáveis. As essências são este sentido intrínseco, estas necessidades de princípio, seja qual for a realidade em que [107] se misturam e se confundem (sem que, aliás, suas implicações deixem de fazer-se valer), único ser legítimo ou autêntico que tem a pretensão e direito a ser, e que é afirmativo por si próprio, já que é o sistema de tudo o que é possível para o olhar de um espectador puro, traçado ou desenho daquilo que, em todos os níveis, é alguma coisa — alguma coisa em geral, ou alguma coisa material, ou alguma coisa espiritual, ou alguma coisa viva.

É muito mais pela questão quid sit do que pela dúvida que a filosofia logra separar-se de todos os seres, pois os muda em sentido deles mesmos — procedimento que já é da ciência quando, para responder às questões da vida que não são mais do que hesitação entre o sim e o não, discute as categorias recebidas, inventa novos gêneros do Ser, um novo céu de essências. Mas não termina esse trabalho: não separa essas essências inteiramente do mundo, mas mantém-nas sob a jurisdição dos fatos que amanhã podem demandar outra elaboração. Galileu   dá apenas um esboço da coisa material, e a física clássica inteira vive de uma essência da Physis que talvez não seja a sua essência verdadeira: é preciso manter os seus princípios e, graças a alguma hipótese auxiliar, levar até eles a mecânica ondulatória? Ou, pelo contrário, defrontamo-nos com uma nova essência do mundo material? É preciso conservar a essência marxista da história e tratar como variáveis empíricas e confusas os fatos que parecem pô-la em questão ou, pelo contrário, estamos num ponto de inflexão onde, sob a essência marxista da história, transparece uma essência mais autêntica e mais plena? A questão permanece indecisa no saber científico porque nele verdades de fato e verdades de razão se imbricam umas nas outras, sendo a circunscrição dos fatos, como a elaboração das essências, conduzidas por pressupostos que cabe interrogar, se se pretende saber plenamente o que a ciência quer dizer. A filosofia seria também essa leitura do sentido levado a cabo, ciência exata, a única exata, pois é a única que esgota o esforço de saber o que é a Natureza, a História, o Mundo e o Ser, quando tomamos com eles, não somente o contato parcial e abstrato da experiência e do cálculo físicos ou da análise histórica, mas o contato total de quem, vivendo no mundo e no Ser, pretende ver plenamente sua vida, em particular a vida do conhecimento, e, habitante do mundo, tenta pensar-se no mundo, pensar o mundo nele mesmo, separar suas essências confundidas e formar, enfim, a significação “Ser” [1]. [108]

Quando a filosofia encontra sob a dúvida um “saber” prévio, em torno das coisas e do mundo como fatos e como fatos duvidosos, um horizonte que engloba tanto nossas negações como nossas afirmações quando mergulha nesse horizonte, é certo que deve definir de novo este novo algo. Define-o perfeita ou suficientemente dizendo que é a essência? A questão da essência é a questão última? Com a essência e o puro espectador que a vê chegamos verdadeiramente à origem? A essência é, por certo, dependente. Sempre se faz o inventário das necessidades da essência na base de uma suposição (a mesma que retorna tão frequentemente em Kant  ): se este mundo deve existir para nós, ou se deve haver um mundo, ou se deve haver alguma coisa, é preciso então que obedeçam a tal e tal lei de estrutura. Mas de onde tiramos a hipótese, mas de onde sabemos que há alguma coisa, que há um mundo? Este saber está sotoposto à essência, é a experiência de que a essência faz parte e que ela não envolve. O ser da essência não é primeiro, não repousa sobre si mesmo, não sendo ele que nos pode ensinar o que seja o Ser. A essência não é a resposta à questão filosófica, esta não é posta em nós por um espectador puro: consiste antes em saber como e sobre que fundo se estabelece o espectador puro, de que fonte mais profunda ele se alimenta. Sem as necessidades de essência, as conexões inabaláveis, as implicações irresistíveis, as estruturas resistentes e estáveis não haveria nem mundo, nem algo em geral, nem Ser; mas sua autoridade de essências, seu poder afirmativo, sua dignidade de princípios não são evidentes. Das essências que encontramos, não temos o direito de dizer que revelam o sentido primitivo do Ser, que são o possível em si, todo o possível, reputando impossível tudo o que não obedece a suas leis  , nem tratar o Ser e o mundo como consequências suas: elas são apenas a maneira ou o estilo, são o Sosein mas não o Sein. E se dizemos com fundamento que todo pensamento, o nosso e o alheio, as respeita, se possuem valor universal, é na medida em que outro pensamento fundado em outros princípios deveria, para ser reconhecido por nós, entrar em comunicação conosco, prestar-se às condições do nosso, de nossa experiência, tomar lugar em nosso mundo e, finalmente, na medida em que todos os pensadores e todas as essências possíveis se abrem a uma única experiência e ao mesmo mundo. Não há dúvida de que, para estabelecermos e enunciarmos isso mesmo, usamos essências, a necessidade dessa conclusão é uma necessidade de essência, mas não ultrapassa os limites de um pensamento, não se impõe a todos, nem mesmo sobrevive à minha intuição de momento, só valendo para mim como verdade duradoura porque minha experiência se liga [109] a ela e à dos outros, abrindo-se para um único mundo, inscrevendo-se num único Ser. É, portanto, à experiência que pertence o poder ontológico último, e as essências, as necessidades de essência, a possibilidade interna ou lógica, não obstante a solidez e a incontestabilidade que possuem aos olhos do espírito, apenas têm força e eloquência porque todos os meus pensamentos e os pensamentos alheios são tomados no tecido de um único Ser. O puro espectador em mim, que ergue toda coisa à essência, que produz suas ideias, somente tem garantias de com elas tocar o Ser porque emerge numa experiência atual rodeada por experiências atuais, pelo mundo atual, pelo Ser atual que é o solo do Ser predicativo. As possibilidades de essência podem bem envolver e dominar os fatos, derivam, todavia, de outra possibilidade mais fundamental: a que trabalha minha experiência, que a abre para o mundo e para o Ser e que, por certo, não os encontra diante dela como fatos mas anima e organiza sua facticidade. Quando a filosofia deixa de ser dúvida para fazer-se desvendamento, explicitação, já que se separou dos fatos e dos seres, o campo que abre é decerto feito de significações ou de essências, mas que não se bastam, reportando-se abertamente aos nossos atos de ideação, e são por eles colhidos de um ser bruto onde se trata de encontrar em estado selvagem os responsáveis por nossas essências e significações.

Quando me pergunto o que é o algo, ou o mundo, ou a coisa material, não sou ainda o puro espectador que, pelo ato de ideação, virei a ser; sou um campo de experiências onde se desenham somente a família das coisas materiais e outras famílias, e o mundo como seu estilo comum; a família das coisas ditas e o mundo da palavra como seu estilo comum e, enfim, o estilo abstrato e desencarnado do algo em geral. Para daí passar às essências, devo intervir ativamente, fazer variar as coisas e o campo, não por alguma manipulação, mas sem tocá-lo, supondo mudado ou pondo fora de circuito tal relação ou tal estrutura, observando o que resulta para as outras de modo a detectar aquelas separáveis da coisa e aquelas que, pelo contrário, não se poderiam suprimir ou alterar sem que a coisa deixe de ser ela mesma. A essência emerge desta prova — não é, pois, um ser positivo, É um invariante; exatamente: aquilo cujo movimento ou ausência alteraria ou destruiria a coisa; e a solidez e essenciabilidade da essência é exatamente medida pelo poder que possuímos de variar a coisa. Uma essência pura, que não fosse de modo algum contaminada e baralhada pelos fatos, só podería resultar de uma tentativa de variação total. Exigiria também um espectador sem segredos, sem latência, para termos [110] certeza de que nada teria sido introduzido subrepticiamente. Para reduzir verdadeiramente uma experiência à sua essência, seria preciso tomar em relação a ela uma distância que a pusesse inteiramente sob nosso olhar com todos os subentendidos de sensoriabilidade ou de pensamento operando nela, fazendo-a e fazendo-nos passar inteiramente para a transparência do imaginário, pensá-la sem o apoio de nenhum solo. Em suma, recuar para o fundo do nada. Só então poderíamos saber quais os momentos que constituem positivamente o ser dessa experiência. Mas seria ela uma experiência, já que eu a sobrevoaria? E se tentasse mantê-la como uma adesão em pensamento, seria precisamente uma essência que eu veria? Toda ideação, porque é uma ideação, se faz num espaço de existência, sob a garantia de minha duração que deve retornar a si mesma para encontrar aí a ideia que pensava há um instante, passando para os outros a fim de encontrá-la também neles. Toda ideação se sustenta nesta árvore de minha duração e das durações; essa seiva ignorada nutre a transparência da ideia; atrás da ideia há a unidade, a simultaneidade de todas as durações reais e possíveis, a coesão total de um único Ser. Sob a solidez da essência e da ideia há o tecido da experiência, essa carne do tempo, e é por isso que não estou certo de ter perfurado até o núcleo duro do ser; meu incontestável poder de tomar terreno, de extrair o possível do real não vai até dominar todas as implicações do espetáculo e fazer do real uma simples variante do possível; ao contrário, os mundos e os seres possíveis é que são variantes, duplos do mundo e do Ser atuais. Tenho campo bastante para substituir por outros tais momentos de minha experiência, constatando, assim, que isso não a suprime, e determinar, por conseguinte, o inessencial. Mas o que resta depois dessas eliminações pertence necessariamente ao Ser de que se trata? Seria preciso, para afirmá-lo, sobrevoar meu campo, suspender ou, pelo menos, reativar todos os pensamentos sedimentados de que está cercado, e, em primeiro lugar, o meu tempo, o meu corpo — o que não é apenas impossível de fato mas me privaria precisamente dessa coesão espessa do mundo e do Ser sem a qual a essência é loucura subjetiva e arrogância. Há, portanto, para mim, o inessencial, e há uma zona, um oco, onde se reúne o que não é inessencial, impossível; não há visão positiva que me dê definitivamente a essencialidade da essência.

Diremos, então, que a perdemos, que somente a temos em princípio, que se situa no limite de uma idealização sempre imperfeita? Este pensamento duplo que opõe o princípio e o fato apenas salva, sob o nome de “princípio”, um preconceito da essência, quando é o momento [111] de decidir se é fundado. Para salvar o preconceito, acantona-nos no relativismo, quando, ao contrário, renunciando à essência intemporal e sem localização, talvez obtivéssemos um verdadeiro pensamento da essência. É por termos começado pela antítese do fato e da essência, daquilo que existe individualizado num ponto do espaço e do tempo e daquilo que é para sempre e em parte alguma, que finalmente fomos conduzidos a tratar a essência como uma ideia-limite, isto é, torná-la inacessível. Pois está aí o que nos obrigaria a procurar o ser da essência como uma segunda positividade além da ordem dos “fatos”, a sonhar com uma variação da coisa que elimina tudo o que não é autenticamente ela, fazendo-a aparecer inteiramente nua quando está sempre vestida — um trabalho impossível da experiência sobre a experiência que a desproviria de sua facticidade como se fosse uma impureza. Talvez, ao contrário, se reexaminássemos a antítese do fato e da essência, pudéssemos redefini-la de uma maneira que a ela nos desse acesso, pois que não estaria além, mas no âmago desse enovelamento da experiência sobre a experiência que há pouco se constituía em dificuldade.

A bifurcação da essência e do fato impõe-se apenas para um pensamento que contempla o ser de alhures e, por assim dizer, frontalmente. Se sou kosmotheoros, meu olhar soberano encontra as coisas cada uma em seu tempo, em seu lugar, como indivíduos absolutos numa única localização espacial e temporal. Já que participam de seus lugares das mesmas significações, somos levados a conceber, transversal a essa multiplicidade plana, uma outra dimensão, o sistema de significações sem localização nem temporalidade. Depois do que, sendo necessário recoser e compreender como as duas ordens se ligam através de nós, chegamos ao inextricável problema da intuição das essências. Mas sou kosmotheoros? Mais exatamente: sou-o em última instância? Sou eu, primitivamente, poder de contemplar, puro olhar que fixa as coisas em seu lugar temporal e espacial, e as essências, num céu invisível, esse raio do saber que deveria surgir de nenhuma parte? Ora, enquanto me instalo nesse ponto zero do Ser, bem sei que ele possui com a localidade e a temporalidade um vínculo misterioso: amanhã, dentro em pouco, esta visão mergulhante, com tudo o que envolve, vai cair numa certa data do calendário, determinar-lhe-ei um certo ponto de aparição na terra e na minha vida. É de crer que o tempo continuou a correr por baixo e a terra a existir. Dado que, entretanto, passei para o outro lado, em vez de dizer que estou no tempo e no espaço ou que não estou em parte alguma, por que antes não dizer que estou em toda a parte, sempre, ao estar neste momento e neste local? [112]

original

Alors, si la question ne peut plus être celle du an sit, elle devient celle du quid sit, il ne reste qu’à chercher ce que c’est que le monde, et la vérité, et l’être, aux termes de la complicité que nous avons avec eux. En même temps qu’au doute, on renonce à l’affirmation d’un dehors absolu, d’un monde ou d’un Être qui seraient un individu massif, on se tourne vers cet Être qui double sur toute leur étendue nos pensées, puisqu’elles sont pensées de quelque chose et qu’elles-mêmes ne sont pas rien, qui donc est sens, et sens du sens. Non seulement ce sens qui s’attache aux mots et appartient à l’ordre des énoncés et des choses dites, à une région circonscrite du monde, à un certain genre de l’Être, – mais sens universel, qui soit capable de soutenir aussi bien les opérations logiques et le langage que le déploiement du monde. Il sera ce sans quoi il n’y aurait ni monde, ni langage, ni quoi que ce soit, il sera l’essence. Quand il se reporte du monde à ce qui le fait monde, des êtres à ce qui les fait être, le regard pur, qui ne sous-entend rien, qui n’a pas derrière lui, comme celui de nos yeux, les ténèbres d’un corps et d’un passé, ne saurait s’appliquer qu’à quelque chose qui soit devant lui, sans restriction ni condition : à ce qui fait que le monde est monde, à une grammaire impérieuse de l’Être, à des noyaux de sens indécomposables, des réseaux de propriétés inséparables. Les essences sont ce sens intrinsèque, ces nécessités de principe, quoi qu’il en soit des réalités où elles se mélangent et se brouillent (sans que d’ailleurs leurs implications cessent de s’y faire valoir), seul être légitime ou authentique, qui a prétention et droit à l’être et qui est affirmatif de lui-même, parce qu’il est le système de tout ce qui est possible au regard d’un pur spectateur, l’épure ou le dessin de ce qui, à tous les niveaux, est quelque chose, – quelque chose en général, ou quelque chose de matériel, ou quelque chose de spirituel, ou quelque chose de vivant.

Par la question quid sit, mieux que par le doute, la philosophie réussit à se déprendre de tous les êtres, parce qu’elle les change en leur sens, – démarche qui est déjà celle de la science, quand, pour répondre aux questions de la vie qui ne sont qu’hésitation entre le oui et le non, elle met en cause les catégories reçues, invente de nouveaux genres de l’Être, un nouveau ciel d’essence. Mais ce travail, elle ne le termine pas : ses essences, elle ne les dégage pas tout à fait du monde, elle les maintient sous la juridiction des faits, qui demain peuvent appeler une autre élaboration. Galilée ne donne qu’une esquisse de la chose matérielle, et la physique classique tout entière vit sur une essence de la Physis qui n’en est peut-être pas l’essence vraie : faut-il en garder les principes et, moyennant quelque hypothèse auxiliaire, y ramener tant bien que mal la mécanique ondulatoire ? Ou, au contraire, sommes-nous en vue d’une nouvelle essence du monde matériel ? Faut-il garder l’essence marxiste de l’histoire, et traiter comme variantes empiriques et brouillées les faits qui paraissent la remettre en cause, ou, au contraire, sommes-nous à un tournant où, sous l’essence marxiste de l’histoire, transparaît une essence plus authentique et plus pleine ? La question reste indécise dans le savoir scientifique parce qu’en lui vérités de fait et vérités de raison empiètent les unes sur les autres et que le découpage des faits, comme l’élaboration des essences, y est conduit sous des présupposés qu’il reste à interroger, si l’on doit savoir pleinement ce que la science veut dire. La philosophie serait cette même lecture du sens menée à son terme, science exacte, la seule exacte, parce qu’elle seule va jusqu’au bout de l’effort pour savoir ce que c’est que la Nature et l’Histoire et le Monde et l’Être, quand nous prenons avec eux, non seulement le contact partiel et abstrait de l’expérience et du calcul physiques ou de l’analyse historique, mais le contact total de celui qui, vivant dans le monde et dans l’Être, entend voir pleinement sa vie, notamment sa vie de connaissance, et qui, habitant du monde, essaie de se penser dans le monde, de penser le monde en lui-même, de démêler leurs essences brouillées et de former enfin la signification « Être »1.

Quand la philosophie trouve sous le doute un « savoir » préalable, autour des choses et du monde comme faits et comme faits douteux, un horizon qui englobe nos négations comme nos affirmations, et, quand elle s’enfonce dans cet horizon, il est sûr qu’elle doit définir à nouveau ce nouveau quelque chose. Le définit-elle bien ou suffisamment en disant que c’est l’essence ? La question de l’essence est-elle la question ultime ? Avec l’essence et le spectateur pur qui la voit, sommes-nous vraiment à la source ? L’essence est certainement dépendante. L’inventaire des nécessités d’essence se fait toujours sous une supposition (la même qui revient si souvent chez Kant  ) : si ce monde doit exister pour nous, ou s’il doit y avoir un monde, ou s’il doit y avoir quelque chose, alors il faut qu’ils observent telle et telle loi de structure. Mais d’où tenons-nous l’hypothèse, d’où savons-nous qu’il y a quelque chose, qu’il y a un monde ? Ce savoir-là est au-dessous de l’essence, c’est l’expérience dont l’essence fait partie et qu’elle n’enveloppe pas. L’être de l’essence n’est pas premier, ne repose pas sur lui-même, ce n’est pas lui qui peut nous apprendre ce que c’est que l’Être, l’essence n’est pas la réponse à la question philosophique, la question philosophique n’est pas posée en nous par un pur spectateur : elle est d’abord de savoir comment, sur quel fond, s’établit le pur spectateur, à quelle source plus profonde lui-même puise. Sans les nécessités d’essence, les connexions inébranlables, les implications irrésistibles, les structures résistantes et stables, il n’y aurait ni monde, ni quelque chose en général, ni Être ; mais leur autorité d’essences, leur puissance affirmative, leur dignité de principes ne vont pas de soi. Des essences que nous trouvons, nous n’avons pas le droit de dire qu’elles donnent le sens primitif de l’Être, qu’elles sont le possible en soi, tout le possible, et de réputer impossible tout ce qui n’obéit pas à leurs lois  , ni de traiter l’Être et le monde comme leur conséquence : elles n’en sont que la manière ou le style, elles sont le Sosein et non le Sein, et si nous sommes fondés à dire que toute pensée aussi bien que la nôtre les respecte, si elles ont valeur universelle, c’est en tant qu’une autre pensée fondée sur d’autres principes devrait, pour se faire reconnaître de nous, entrer en communication avec nous, se prêter aux conditions de la nôtre, de notre expérience, prendre place dans notre monde, et, finalement, que tous les penseurs et toutes les essences possibles ouvrent sur une seule expérience et sur le même monde. Sans doute, pour établir et énoncer cela même, nous usons des essences, la nécessité de cette conclusion est une nécessité d’essence, mais elle ne franchit les limites d’une pensée, et ne s’impose à toutes, elle ne survit même à mon intuition du moment et ne vaut pour moi comme vérité durable que parce que mon expérience se relie à elle-même, et se relie à celle des autres en ouvrant sur un seul monde, en s’inscrivant à un seul Être. C’est donc à l’expérience qu’appartient le pouvoir ontologique ultime, et les essences, les nécessités d’essence, la possibilité interne ou logique, toutes solides et incontestables qu’elles soient sous le regard de l’esprit, n’ont finalement leur force et leur éloquence que parce que toutes mes pensées et les pensées des autres sont prises dans le tissu d’un seul Être. Le pur spectateur en moi, qui élève toute chose à l’essence, qui produit ses idées, n’est assuré avec elles de toucher l’Être que parce qu’il émerge dans une expérience actuelle environnée par des expériences actuelles, par le monde actuel, par l’Être actuel, qui est le sol de l’Être prédicatif. Les possibilités d’essence peuvent bien envelopper et dominer les faits, elles dérivent elles-mêmes d’une autre possibilité, et plus fondamentale : celle qui travaille mon expérience, l’ouvre au monde et à l’Être, et qui, certes, ne les trouve pas devant elle comme des faits, mais anime et organise leur facticité. Quand la philosophie cesse d’être doute pour se faire dévoilement, explicitation, puisqu’elle s’est détachée des faits et des êtres, le champ qu’elle s’ouvre est bien fait de significations ou d’essences, mais qui ne se suffisent pas, qui, ouvertement, se rapportent à nos actes d’idéation et sont prélevées par eux sur un être brut où il s’agit de retrouver à l’état sauvage les répondants de nos essences et de nos significations.

Quand je me demande ce que c’est que le quelque chose ou le monde ou la chose matérielle, je ne suis pas encore le pur spectateur que, par l’acte d’idéation, je vais devenir ; je suis un champ d’expériences où se dessinent seulement la famille des choses matérielles et d’autres familles, et le monde comme leur style commun ; la famille des choses dites et le monde de la parole comme leur style commun, et enfin le style abstrait et décharné du quelque chose en général. Pour passer de là aux essences, il me faut intervenir activement, faire varier les choses et le champ, non par quelque manipulation, mais sans y toucher, supposant changé ou mettant hors circuit tel rapport ou telle structure, notant ce qu’il en résulte pour les autres, de manière à repérer ceux d’entre eux qui sont séparables de la chose et ceux au contraire qu’on ne saurait supprimer ou changer sans que la chose cesse d’être elle-même. L’essence émerge de cette épreuve, – elle n’est donc pas un être positif. Elle est un in-variant ; exactement : ce dont le changement ou l’absence altérerait ou détruirait la chose ; et la solidité, l’essentialité de l’essence est exactement mesurée par le pouvoir que nous avons de varier la chose. Une essence pure qui ne fût pas du tout contaminée et brouillées par les faits ne pourrait résulter que d’un essai de variation totale. Elle exigerait un spectateur lui-même sans secrets, sans latence, si nous devions être certains que rien n’y fût subrepticement introduit. Pour réduire vraiment une expérience en son essence, il nous faudrait prendre envers elle une distance qui la mît tout entière sous notre regard avec tous les sous-entendus de sensorialité ou de pensée qui jouent en elle, la faire passer et nous faire passer tout entiers à la transparence de l’imaginaire, la penser sans l’appui d’aucun sol, bref, reculer au fond du néant. Alors seulement il nous serait donné de savoir quels moments font positivement l’être de cette expérience. Mais serait-ce encore une expérience, puisque je la survolerais ? Et si je tentais de lui maintenir comme une adhésion en pensée, est-ce à proprement parler une essence que je verrais ? Toute idéation, parce que c’est une idéation, se fait dans un espace d’existence, sous la garantie de ma durée qui doit revenir en elle-même pour y retrouver la même idée que je pensais il y a un instant et passer dans les autres pour la rejoindre aussi en eux. Toute idéation est portée par cet arbre de ma durée et des durées ; cette sève ignorée nourrit la transparence de l’idée ; derrière l’idée, il y a l’unité, la simultanéité de toutes les durées réelles et possibles, la cohésion d’un bout à l’autre d’un seul Être. Sous la solidité de l’essence et de l’idée, il y a le tissu de l’expérience, cette chair du temps, et c’est pourquoi je ne suis pas sûr d’avoir percé jusqu’au noyau dur de l’être : mon incontestable pouvoir de prendre du champ, de dégager du réel le possible, ne va pas jusqu’à dominer toutes les implications du spectacle et à faire du réel une simple variante du possible ; ce sont au contraire les mondes et les êtres possibles qui sont des variantes, et comme des doubles, du monde et de l’Être actuels. J’ai assez de champ pour remplacer par d’autres tels moments de mon expérience, pour constater que cela ne la supprime pas, donc pour déterminer l’inessentiel. Mais ce qui reste après ces éliminations appartient-il nécessairement à l’Être dont il s’agit ? Il me faudrait, pour l’affirmer, survoler mon champ, suspendre ou du moins réactiver toutes les pensées sédimentées dont il est environné, et d’abord mon temps, mon corps, – ce qui ne m’est pas seulement impossible en fait, mais me priverait précisément de cette cohésion en épaisseur du monde et de l’Être sans laquelle l’essence est folie subjective et arrogance. Il y a donc pour moi de l’inessentiel, et il y a une zone, un creux, où se rassemble ce qui n’est pas inessentiel, pas impossible, il n’y a pas de vision positive qui me donne définitivement l’essentialité de l’essence.

Dirons-nous alors que nous la manquons, que nous ne l’avons qu’en principe, qu’elle est à la limite d’une idéalisation toujours imparfaite ? Cette pensée double qui oppose le principe et le fait ne sauve sous le nom de « principe » qu’un préjugé de l’essence, quand c’est le moment de décider s’il est fondé, et pour sauver le préjugé nous cantonne dans le relativisme, quand, au contraire, on obtiendrait peut-être, en renonçant à l’essence intemporelle et sans localité, une vraie pensée de l’essence. C’est pour avoir commencé par l’antithèse du fait et de l’essence, de ce qui est individué dans un point de l’espace et du temps et de ce qui est à jamais et nulle part, qu’on est finalement conduit à traiter l’essence comme une idée-limite, c’est-à-dire à la faire inaccessible. Car c’est là ce qui nous obligeait à chercher l’être de l’essence comme une seconde positivité par-delà l’ordre des « faits » ; à rêver d’une variation de la chose qui en élimine tout ce qui n’est pas authentiquement elle et la fasse paraître toute nue alors qu’elle est toujours vêtue, – d’un impossible travail de l’expérience sur l’expérience qui la dépouillerait de sa facticité comme d’une impureté. Peut-être au contraire, si l’on réexaminait l’anti-thèse du fait et de l’essence, pourrait-on la redéfinir d’une manière qui nous y donne accès, parce qu’elle ne serait pas au-delà, mais au cœur de cet enroulement de l’expérience sur l’expérience qui tout à l’heure faisait difficulté.

La bifurcation de l’essence et du fait ne s’impose qu’à une pensée qui regarde l’être d’ailleurs, et pour ainsi dire de front. Si je suis kosmotheoros, mon regard souverain trouve les choses chacune en son temps, en son lieu, comme individus absolus dans un emplacement local et temporel unique. Puisqu’elles participent de leur place aux mêmes significations, on est amené à concevoir, transversale à cette multiplicité plate, une autre dimension, le système de significations sans localité ni temporalité. Après quoi, comme il faut bien recoudre, et comprendre comment les deux ordres se relient à travers nous, on en arrive à l’inextricable problème de l’intuition des essences. Mais suis-je kosmotheoros ? Plus exactement : le suis-je à titre ultime ? Suis-je primitivement pouvoir de contempler, pur regard qui fixe les choses en leur place temporelle et locale et les essences dans un ciel invisible, ce rayon du savoir qui devrait surgir de nulle part ? Or, pendant que je m’installe en ce point zéro de l’Être, je sais bien qu’il a avec la localité et la temporalité une mystérieuse attache : demain, tout à l’heure, cette vue plongeante, avec tout ce qu’elle enveloppe, va tomber à une certaine date du calendrier, je lui assignerai un certain point d’apparition sur la terre et dans ma vie. Il faut croire que le temps a continué de couler par-dessous, et la terre d’exister. Puisque, pourtant, j’étais passé de l’autre côté, au lieu de dire que je suis dans le temps et dans l’espace, ou que je ne suis nulle part, pourquoi ne pas dire plutôt que je suis partout, toujours, en étant à ce moment et ce lieu ?


Ver online : Le visible et l’invisible


[1À margem: O que há de verdadeiro: o que não é nada é ALGO, contudo: este algo não é duro como diamante, não é in condicionado, ERFAHRUNG (experiência).