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O Olho e o Espírito

Merleau-Ponty (OE) – ciência manipula as coisas

Capítulo I

terça-feira 2 de novembro de 2021

Excerto de MERLEAU-PONTY  , Maurice. O Olho e o Espírito. Tr. Cassio de Arantes Leite. Belo Horizonte: Cosac Naify, 2014 (ebook)

português

A ciência? manipula as coisas? e renuncia habitá-las. [1] Estabelece modelos internos delas e, operando sobre esses índices ou variáveis as transformações? permitidas por sua definição?, só de longe? em longe se confronta com o mundo? real?. Ela é, sempre foi, esse? pensamento? admiravelmente ativo, engenhoso, desenvolto, esse parti pris de tratar todo ser como “objeto? em geral?”, isto é, ao mesmo? tempo? como se ele nada? fosse para nós e estivesse no entanto predestinado aos nossos artifícios.

Mas a ciência clássica conservava o sentimento? da opacidade do mundo, e é a este que ela entendia juntar?-se por suas construções, razão? pela qual se acreditava obrigada a buscar para suas operações um fundamento? transcendente? ou transcendental. Há? hoje — não na ciência, mas numa filosofia? das ciências bastante difundida — isto de inteiramente novo: que a prática construtiva se considera e se apresenta como autônoma, e o pensamento se reduz deliberadamente ao conjunto das técnicas? de tomada ou de captação que ele inventa. Pensar? é ensaiar, operar, transformar, sob a única reserva de um controle experimental? em que intervêm apenas fenômenos altamente “trabalhados”, os quais nossos aparelhos antes produzem do que registram. Daí toda sorte? de tentativas errantes. Jamais como hoje a ciência foi sensível? às modas intelectuais?. Quando um modelo? foi bem-sucedido? numa ordem? de problemas?, ela o aplica em toda parte?. Nossa embriologia, nossa biologia? estão atualmente repletas de gradientes que não percebemos com exatidão como se distinguem daquilo que os clássicos chamavam ordem ou totalidade?, mas a questão? não é colocada, não deve sê-lo. O gradiente é uma rede que se lança ao mar sem saber o que recolherá. Ou, ainda, é a estreita ramificação sobre a qual se farão cristalizações imprevisíveis. Essa liberdade? de operação? certamente tem condições de superar? muitos dilemas vãos, contanto que de vez em quando se determine o ponto?, se pergunte por que o instrumento? funciona aqui, fracassa alhures, em suma?, contanto que essa ciência fluente compreenda a si mesma, se veja como construção sobre a base? de um mundo bruto ou existente, e não reivindique para operações cegas o valor? constituinte que os “conceitos? da natureza?” podiam ter numa filosofia idealista. Dizer que o mundo é por definição nominal o objeto X de nossas operações é levar ao absoluto? a situação de conhecimento? do cientista?, como se tudo o que existiu ou existe jamais tivesse existido senão para entrar no laboratório. O pensamento “operatório” torna-se uma espécie? de artificialismo absoluto, como vemos na ideologia? cibernética?, na qual as criações humanas são derivadas de um processo? natural de informação, mas ele próprio concebido sobre o modelo das máquinas humanas. Se esse tipo? de pensamento toma a seu encargo o homem? e a história?, e se, fingindo ignorar o que sabemos por contato e por posição?, empreende construí-los a partir de alguns indícios abstratos, como o fizeram nos Estados Unidos uma psicanálise? e um culturalismo decadentes, já que o homem se torna de fato? o manipulandum que julga ser, entramos num regime? de cultura? em que não há mais nem verdadeiro? nem falso? no tocante ao homem e à história, num sono ou num pesadelo dos quais nada poderia despertá-lo.

É preciso que o pensamento de ciência — pensamento de sobrevoo, pensamento do objeto em geral — torne a se colocar? num “há” prévio, na paisagem, no solo do mundo sensível? e do mundo trabalhado tais como são em nossa vida?, por nosso corpo?, não esse corpo possível? que é lícito afirmar ser uma máquina? de informação, mas esse corpo atual? que chamo meu, a sentinela que se posta silenciosamente sob minhas palavras? e sob meus atos?. É preciso que com meu corpo despertem os corpos associados, os “outros”, que não são meus congêneres, como diz a zoologia, mas que me frequentam, que frequento, com os quais frequento um único? ser atual, presente, como animal? nenhum frequentou os de sua espécie, seu território ou seu meio?. Nessa historicidade primordial, o pensamento alegre e improvisador da ciência aprenderá a ponderar sobre as coisas e sobre si mesmo, voltará a ser filosofia…

original

La science manipule les choses et renonce à les habiter. Elle s’en donne des modèles internes et, opérant sur ces indices ou variables les transformations permises par? leur définition, ne se confronte que de loin en loin avec le monde actuel. Elle est, elle a toujours été, cette pensée admirablement active, ingénieuse, désinvolte, ce parti pris de traiter tout être comme « objet en général », c’est-à-dire à la fois comme s’il ne nous était rien et se trouvait cependant prédestiné à nos artifices.

Mais la science classique gardait le sentiment de l’opacité du monde, c’est lui qu’elle entendait rejoindre par ses constructions, voilà pourquoi elle se croyait obligée de chercher pour ses opérations un fondement transcendant ou transcendantal. Il y a aujourd’hui — non dans la science, mais dans une philosophie des sciences assez répandue — ceci de tout nouveau que la pratique constructive se prend et se donne pour autonome, et que la pensée se réduit délibérément à l’ensemble des techniques de prise ou de captation qu’elle invente. Penser, c’est essayer, opérer, transformer, sous la seule réserve d’un contrôle expérimental où n’interviennent que des phénomènes? hautement « travaillés », et que nos appareils produisent plutôt qu’ils ne les enregistrent. De là toutes sortes de tentatives vagabondes. Jamais comme aujourd’hui la science n’a été sensible aux modes? intellectuelles. Quand un modèle a réussi dans un ordre de problèmes, elle l’essaie partout. Notre embryologie, notre biologie sont à présent toutes pleines de gradients dont on ne voit pas au juste comment ils se distinguent de ce que les classiques appelaient ordre ou totalité, mais la question n’est pas posée, ne doit pas l’être. Le gradient est un filet qu’on jette à la mer sans savoir ce qu’il ramènera. Ou encore, c’est le maigre rameau sur lequel se feront des cristallisations imprévisibles. Cette liberté d’opération est certainement en passe de surmonter beaucoup de dilemmes vains, pourvu que de temps à autre on fasse le point, qu’on se demande pourquoi l’outil fonctionne ici, échoue ailleurs, bref que cette science fluente se comprenne elle-même, qu’elle se voie comme construction sur la base d’un monde brut ou existant et ne revendique pas pour des opérations aveugles la valeur constituante que les « concepts de la nature » pouvaient avoir dans une philosophie idéaliste. Dire que le monde est par définition nominale l’objet X de nos opérations, c’est porter à l’absolu la situation de connaissance du savant, comme si tout ce qui fut ou est n’avait jamais été que pour entrer au laboratoire. La pensée « opératoire » devient une sorte d’artificialisme absolu, comme on voit dans l’idéologie cybernétique, où les créations humaines sont dérivées d’un processus naturel d’information, mais lui-même conçu sur le modèle des machines humaines. Si ce genre de pensée prend en charge l’homme et l’histoire, et si, feignant d’ignorer ce que nous en savons par contact et par position, elle entreprend de les construire à partir de quelques indices abstraits, comme l’ont fait aux États-Unis une psychanalyse et un culturalisme décadents, puisque l’homme devient vraiment le manipulandum qu’il pense être, on entre dans un régime de culture où il n’y a plus ni vrai ni faux touchant l’homme et l’histoire, dans un sommeil ou un cauchemar dont rien ne saurait le réveiller.

Il faut que la pensée de science — pensée de survol, pensée de l’objet en général — se replace dans un « il y a » préalable, dans le site, sur le sol? du monde sensible et du monde ouvré tels qu’ils sont dans notre vie, pour notre corps, non pas ce corps possible dont il est loisible de soutenir qu’il est une machine à information, mais ce corps actuel que j’appelle mien, la sentinelle qui se tient silencieusement sous mes paroles et sous mes actes. Il faut qu’avec mon corps se réveillent les corps associés, les « autres », qui ne sont pas mes congénères, comme dit? la zoologie, mais qui me hantent, que je hante, avec qui je hante un seul Être actuel, présent, comme jamais animal n’a hanté ceux de son espèce, son territoire ou son milieu. Dans cette historicité primordiale, la pensée allègre et improvisatrice de la science apprendra à s’appesantir sur les choses mêmes et sur soi-même, redeviendra philosophie…


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[1Publicado originalmente em Art de France , n. 1, 1961.