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Transformação da Filosofia I

Apel (TF1:26-31) – Verdade versus método?

Filosofia analítica, semiótica, hermenêutica

terça-feira 2 de novembro de 2021, por Cardoso de Castro

      

APEL  , Karl-Otto. Transformação   da Filosofia I. Filosofia analítica, semiótica, hermenêutica. Tr. Paulo Astor Soethe. São Paulo: Loyola, 2000, p.

      

Face ao questionamento histórico de um conceito cientificamente reduzido de racionalidade metódica, parecemos estar próximos de colocar em questão o paradigma   do método científico em geral, e de, em vez dele, ter em vista — como caminho   determinativo [26] para uma transformação   da filosofia — uma forma fenomenológica de pensamento  , que se aproveite das discrepâncias entre o conceito moderno de método e a experiência pré-científica de vida [Leben] e de mundo [Welt] (ou seja, a experiência que ainda não chega a ser metódico-abstrativa). Ao lado da fenomenologia do “mundo da vida” [Lebenswelt], que tem como ponto de partida a fase tardia de Husserl  , pode-se contar aqui sobretudo com a “fenomenologia hermenêutica”: ela tem em Heidegger   seu ponto de partida e veio a ser desenvolvida por H.-G. Gadamer  , sob o título característico de Verdade   e Método [1] [Wahrheit und Methode, 1960], como contraponto à filosofia orientada metodologicamente. Em primeiro lugar, a “fenomenologia hermenêutica” pode requerer para si a vantagem   de estabelecer um liame entre duas emancipações: de um lado, a emancipação da experiência da metafísica dogmática e da filosofia das visões de mundo e, de outro, a emancipação das restrições cientificistas. Na filosofia tardia de Heidegger, a reconstrução e destruição crítica da metafísica ocidental parece mesmo estabelecer um contínuo   com o distanciamento crítico da ciência e da técnica modernas, nas quais o ser humano   “dispõe” [stellt] do mundo e, retroativamente, a partir desse próprio   mundo, de si mesmo  . Agora algumas coisas parecem ficar mais claras quanto ao método da disponibilização matemática e experimental do ente  , tão progressivo na confrontação do ser humano com o mundo da natureza: é possível compreender melhor por que tal método, nessa circunstância  , e ao ser reaplicado à esfera   social, pode tornar-se um instrumento de dominação cuja modulação funcional é praticamente imperscrutável ou impassível de sofrer   crítica. Nesse ponto, pode estabelecer-se a correlação entre o pensamento de Heidegger e a crítica neomarxista da “razão instrumental” e do “homem unidimensional” (Horkheimer  , Adorno   e sobretudo H. Marcuse  ).

Em lugar das coações categoriais de pensamento e comportamento   que partem da “disponibilização” [Gestell] técnico-científica — ainda que não em lugar das coações sócio-econômicas que poderiam estar associadas a isso —, a fenomenologia hermenêutica de [27] proveniência heideggeriana proporciona, em primeiro lugar, o desvendamento da experiência cotidiana; a seguir, sobretudo, o da experiência poética, e o da experiência pré-metafísica — esta última, a ser reconstruída a partir dos fragmentos dos pré-socráticos   —, em que o sentido do ser torna-se disponível, ainda sem considerar a “disponibilização”. Pode-se supor que nesse ponto, com os assim chamados “pensadores da linguagem” (Rosenzweig  , Buber   e Rosenstock-Huessy) [2], seja também validada a experiência existencial do “eu-tu”, atestada, por exemplo, na tradição   bíblica, pelo menos enquanto essa tradição não esteja subordinada à gramática greco-ontológica que valorize a experiência objetiva expressa no pronome “isso”. Na “hermenêutica filosófica” de Gadamer, o pensamento fenomenológico ingressa em uma relação   crítica mais estreita com a ideia do método, já que ela se tornara determinativa para as ciências humanas, em especial no historicismo semipositivista do século XIX. O desvendamento da experiência refere-se, agora, aos fenômenos das condições existenciais de possibilidade do “Compreender”, “esquecidos” nas metodologias histórico-hermenêuticas — isso sem falar de suas reduções neopositivistas: mencione-se como exemplo o fenômeno da circunscrição   de todos os atos subjetivos ou de todas as operações do Compreender a um acontecimento da própria transmissão da tradição, no qual não pode haver qualquer conscientização definitiva, nem tampouco uma objetivação metódica da “pré-estrutura  ” [Vorstruktur] existencial (ou seja, do “pré-entendimento” constitutivo, e portanto dos inevitáveis “preconceitos” [Vorurteile]).

Um dos principais méritos da fenomenologia hermenêutica em geral parece-me residir no seguinte: mesmo em meio à “lógica   científica” moderna — e a “metodologia” popperiana inclui-se aí —, ela opõe resistência ao processo de atrofia que sofrem a teoria   e a crítica do conhecimento de origem   kantiana. Além de tornar novamente visíveis os pressupostos transcendentais da lógica científica, sobre os quais já não se falava, revelando-os como pressupostos da relação sujeito-objeto cartesiano-kantiana, ela ainda descobriu, por meio da [28] radicalização do interesse   em apropriar-se do “compreender”, estruturas semitranscendentais que simplesmente não podem ser concebidas de acordo   com o esquema da relação sujeito-objeto cartesiano-kantiana. Entre elas, destaca-se a assim chamada “pré-estrutura existencial” do compreender descoberta por Heidegger: como estrutura do “ser-no-mundo” [In-der-Welt-Sein  ] (do “ser que ao encontrar o ente intramundano” é o ser que possibilita as intenções), ela implica ao mesmo tempo   a superação do idealismo epistemológico; como estrutura do “ser-com” [Mitsein], possibilita ao mesmo tempo a superação do solipsismo metódico; como estrutura do pré-entendimento, marcada desde o início linguística e historicamente, possibilita ademais o questionamento da alternativa abstrata entre apriorismo e empirismo, por meio da figura de pensamento do “círculo hermenêutico”; e, como estrutura do “ser-que-se-antecipa” do ser-aí [Sich-vorweg-Seins des Daseins], no modo da “preocupação” [Sorge] voltada ao futuro, ela implica o questionamento da ideia do conhecimento livre de interesses de algo como algo, ainda presente   em Hus-serl. [3] — Na descoberta da “pré-estrutura” do Compreender esteve sempre assinalada, desde o início, a possibilidade da elaboração de pressupostos semitranscendentais de uma teoria do conhecimento inédita. É o que ocorre, sobretudo, com a tematização da linguagem como um a priori   ineludível do Compreender — que talvez não seja sequer passível de reconstrução [4]. Esteve assinalada ainda — no “ser-que-se-antecipa” — a tematização dos “êxtases” do “tempo original” (futuro, presente, passado) e dos respectivos modos   do conhecimento: o “esboço do Compreender” (fantasia  ), ligado ao futuro (que transcende o presente); a apreensão   sensível  , ligada ao presente; e a lembrança, ligada ao tempo passado; ou ainda — no ser-no-mundo — o “a priori do corpo”, elaborado sobretudo por M. Merleau-Ponty   como condição do conhecimento (“ponto de vista da posse do mundo”) [5]; e, finalmente, a possibilidade perseguida sobretudo pelo [29] próprio Heidegger de uma fundação da verdade qua corretismo [Richtigkeit] dos juízos ou das asserções em meio à “descoberta” acobertante de sentido, ou em seu “desocultamento” ocultante, em razão da “síntese hermenêutica” (tal como foi chamada de início) de algo como algo, em sua “circunstância explicativa” ou “significância” [Bedeutsamkeit].

A relevância epistemológica da radicalização existencial-ontológica da ideia de hermenêutica introduzida por Heidegger, mostrou-se, a meu ver, sobretudo na superação da ideia do “Compreender” como um método concorrente ao “Elucidar” causal-analítico como resposta   científica a perguntas do tipo “por quê?”. Enquanto a lógica científica neopositivista partia da ideia do “Compreender” como “método” (nem mesmo Dilthey   a representou dessa maneira), e enquanto lhe contrapunha a tese da função psicológico-heurística meramente auxiliar do compreender, no contexto de descoberta da “Elucidação” de comportamentos [6], a nova “hermenêutica” pôde demonstrar   que o “Compreender”, como maneira do ser-no-mundo peculiar ao homem, já é pressuposta, na epistemologia, na constituição dos dados da experiência, assim como na resposta a perguntas do tipo “o quê?”. Com isso, por um lado, a problemática ligada ao Compreender, como problemática transcendental da constituição, veio juntar  -se à problemática heideggeriana da “verdade” como descerramento de sentido, posicionando-se na retaguarda da problemática semitranscendental [quasi-transzendental] da constituição dos dados por meio de teorias científicas, reconhecida no “racionalismo crítico” de Popper  . Por outro lado, revelou-se que a questão mais específica do assim chamado Compreender das ciências humanas só se coloca de forma adequada se não estiver subordinada, de antemão, à problemática da Elucidação científica; ela deve, sim, ser vista em conjunto com o “acordo mútuo” [Verständigung] metacientífico entre os cientistas [7], já pressuposto em todo anseio   elucidativo, e que se dá acerca dos objetos a ser tematizados e da abordagem metodológica [30] de seu respectivo programa de pesquisa. Consideremos a função semitranscendental do esclarecimento de um pré-entendimento categorial [kategoriales Vorverständnis] da experiência, aqui implícita: ela se dá através de um “pré-acordo mútuo” [Vorverständigung] intersubjetivo quanto à linguagem científica, quanto aos modelos teóricos, quanto ao “processamento” de “teorias” ou mesmo de “programas de pesquisa” inteiros, segundo medidas estabelecidas pelo “círculo hermenêutico” de uma antecipação   apriorística e de uma correção empiricamente condicionada do Compreender algo como algo; ora, essa função transporta a problemática hermenêutica — embora isso possa soar estranho aos ouvidos de muitos — para bem perto da problemática da reconstrução linguística e da explicação de conceitos tematizada na semântica construtiva de Carnap. Aqui — e não na dimensão da Elucidação causal (Explanation), aberta e limitada desde sempre pelo interesse cognitivo científico-tecnológico — poder-se-ia falar, em todo caso, de uma relação de concorrência entre a filosofia construtiva linguístico-analítica e a filosofia linguístico-hermenêutica. Essa relação, porém, pode se transformar muito facilmente em uma relação de complementaridade, conforme demonstra, de maneira muito especial, a abordagem da Escola de Erlang, no sentido de uma reconstrução imediata do acordo mútuo obtido por meio da linguagem na dimensão pragmática do uso dialógico da linguagem [8].


Ver online : La Transformacion De La Filosofia I


[1H.-G. Gadamer, Wahrheit und Methode, Tübingen 1960, 2a ed. 1965.

[2Cf. W. Rohrbach, Das Sprachdenken Eugen Rosenstock-Huessys, tese de doutoramento apresentada na cidade de Saarbrücken 1970.

[3Cf. minha tese de doutoramento (não publicada): Dasein und Erkennen: eine erkenntnistheoretische Interpretation der Phiolosophie M. Heideggers, Bonn 1950.

[4Cf. K.-O. Apel, Die Idee der Sprache in der Tradition des Humanismus, von Dante bis Vico, Bonn 1963, “Introdução”.

[5Cf A. Podlech, Der Leib als Weise des In-der-Welt-Seins, Bonn 1956.

[6V. vol. 2, pp. 59ss., pp. 119ss„ entre outras.

[7V. vol. 2, pp. 58ss., pp. 128ss., entre outras; v. também K.-O. Apel, “Communication and the Foundations of the Humanities”, in: Acta Sociologica, 1972, η. 1; versão ampliada in: Man and World, vol. 5, η. 1 (1972).

[8Cf. W. Kamlah e P. Lorenzen, Logische Propädeutik, loc. cit., e K. Lorenz, Elemente der Sprachkritik, Frankfurt 1971.