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Conhecimento e Interesse

Habermas (CI:212-213) – ciências e linguagem

Razão e interesse

terça-feira 2 de novembro de 2021, por Cardoso de Castro

HABERMAS  , Jürgen. Conhecimento e Interesse. Tr. José N. Heck. Rio de Janeiro: Zahar, 1982, p. 212-213

Peirce   incentivou a auto-reflexão das ciências naturais, Dilthey   a das ciências do espírito; ambos até um ponto em que os interesses orientadores do conhecimento se tornaram palpáveis. A pesquisa empírico-analítica é a continuação sistemática de um processo cumulativo de aprendizagem, o qual se exerce, ao nível pré-científico, no círculo funcional do agir instrumental. A investigação hermenêutica dá uma forma metódica a um processo de compreensão entre indivíduos (e da compreensão de si) que, na fase pré-científica, está integrada em um complexo de tradições, próprio a interações mediatizadas simbolicamente. No primeiro caso trata-se da produção de um saber tecnicamente explorável, no segundo, da elucidação de um saber praticamente eficaz. A análise empírica descerra o pano da realidade sob o ponto de vista da disponibilidade técnica possível sobre processos objetivados da natureza, enquanto a hermenêutica assegura a intersubjetividade de uma compreensão entre indivíduos, capaz de orientar a ação (horizontalmente, em vista da interpretação de culturas estranhas, e verticalmente, tendo em vista a apropriação de tradições próprias) [213]. As ciências experimentais, em sentido estrito» estão submetidas às condições transcendentais da atividade instrumental, enquanto as ciências hermenêuticas operam ao nível de uma atividade própria à comunicação.

Em ambos os casos a constelação da linguagem, da atividade e da. experiência é basicamente diferente. No círculo funcional do agir instrumental a realidade consitui-se como quinta-essência daquilo que, sob o ponto de vista de uma possível disponibilidade técnica, pode ser experimentado: à realidade objetivada em condições transcendentais corresponde uma experiência restrita. A linguagem dos enunciados empírico-analíticos acerca da realidade toma corpo sob as mesmas condições. Proposições teóricas fazem parte de uma linguagem formalizada ou, no mínimo, passível de formalização. De acordo com sua forma lógica trata-se de cálculos que, por meio de uma manipulação ordenada dos signos, nós mesmos produzimos e cada qual pode reconstruir a qualquer momento. Sob as condições de um agir instrumental a linguagem pura constitui-se como quinta-essência de tais conexões simbólicas, as quais podem ser engendradas através de um ato operatório de acordo com leis   estabelecidas. A ‘‘linguagem pura” deve-se a uma abstração operada a partir do material desordenado das linguagens ordinárias, tanto quanto a “natureza” objetivada deve-se a uma abstração feita a partir do material caótico da experiência cotidiana. Uma e outra, a linguagem restrita, não menos do que. a experiência delimitada, são definidas pelo fato de resultarem de operações, sejam essas efetuadas com signos ou com corpos móveis. Assim como o agir instrumental em si, também o emprego linguístico que o integra é monológico. Ele assegura às proposições teóricas uma coerência sistemática entre si, e isso de acordo com regras dedutivas cogentes. A função transcendental da atividade instrumental é corroborada por processos relativos à articulação de teoria e experiência: a observação sistemática possui a forma de uma demonstração experimental (ou quase experimental), permitindo registrar sucessos de operações mensuráveis. Estas tornam possíveis a predicação irreversivelmente unívoca de acontecimentos, constados por via operativa, a signos interligados de modo sistemático. Caso ao quadro da pesquisa empírico-analítica correspondesse um sujeito transcendental, a medida seria a realização sintética que o caracterizaria de forma mais genuína. É por isso que apenas uma teoria do medir pode esclarecer as condições de objetividade de um conhecimento possível no sentido das ciências nomológicas.


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