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Técnica e Ciência como Ideologia

Habermas (TCI:51-52) – Gehlen e a técnica

A Herbert Marcuse nos seus 70 anos

terça-feira 2 de novembro de 2021

HABERMAS  , Jürgen. A técnica e ciência como “ideologia”. Tr. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, sem data, p. 51-52

Se o fenômeno a que Marcuse   liga a sua análise de sociedade?, a saber?, a peculiar fusão de técnica e dominação, de racionalidade? e opressão, não pudesse interpretar-se de outro modo? a não ser supondo que no a priori? material? da ciência e da técnica se oculta um projecto? de mundo? determinado por interesses? de classe? e pela situação histórica, um «projecto», como Marcuse   diz, seguindo o Sartre   fenomenológico — então, não podería pensar?-se uma emancipação sem uma revolução prévia da própria ciência e técnica. Em algumas passagens, Marcuse   sente-se tentado a enlaçar? esta ideia? de uma nova ciência com a promessa, familiar? na mística judaica e protestante, de uma «ressurreição» da natureza? caída»: um topos? que, como se sabe, entrou na filosofia? de Schelling   (e de Baader  ) através do pietismo? suábio e reaparece nos Manuscritos de Paris em Marx   e, hoje, constitui a ideia central da filosofia de Bloch e, de foi ma reflexiva, alimenta também as esperanças mais secretas de Benjamim, Horkheimer   e Adorno  . E assim também Marcuse  : «O que eu? quero real?çar é que a ciência, em virtude? do seu próprio método e dos seus conceitos?, projectou e fomentou um universo? no qual a dominação da natureza se vinculou com a dominação dos homens — vínculo que tende a afectar [50] fatalmente este universo enquanto todo. A natureza, compreendida e dominada pela ciência, surge de novo no aparelho de produção e de destruição, que mantém e melhora a vida? dos indivíduos e, ao mesmo? tempo?, os submete aos senhores do aparelho. Assim, a hierarquia? racional funde-se com a social? e, nesta situação, uma mudança na direcção do progresso?, que conseguisse romper este vínculo fatal, influenciaria também a própria estrutura? da ciência—o projecto da ciência. Sem perder o seu carácter racional, as suas hipóteses desenvolver?-se-iam num contexto experimental? essencialmente? diverso (no de um mundo libertado); a ciência chegaria, por conseguinte, a conceitos sobre a natureza essencialmente distintos e estabelecería factos? essencialmente diferentes» [1].

De modo muito consequente?, Marcuse   não só tem diante dos olhos? uma outra forma?ção de teorias?, mas também uma metodologia? da ciência diferente nos seus princípios. O enquadramento transcendental? em que a natureza se convertería em objecto? de uma nova experiência já não mais seria o círculo funcional? da acção instrumental, mas, em vez? do ponto? de vista? da possível disposição técnica, surgiría o de um carinhoso cuidado? que libertaria o potencial da natureza: «existem duas? formas de dominação: uma repressiva e outra libertadora» [2]. A isto importa contrapor que a ciência moderna? só se podia conceber como um projecto historicamente sem precedentes se, pelo menos, fosse pensável um projecto alternativo e, além disso, uma nova ciência alternativa? deveria incluir a definição de uma nova técnica. Uma tal consideração desanima-nos, já que a técnica, se em geral? pudesse reduzir-se a um projecto histórico, teria evidentemente de conduzir a um «projecto» do gênero humano? no seu conjunto, e não a um projecto historicamente super?ável.

Arnold Gehlen   chamou a atenção e, segundo me parece, de forma concludente para o facto de que existe uma conexão [51] imanente? entre a técnica, que conhecemos e a estrutura da acção racional dirigida a fins?. Se entendermos o círculo funcional da acção controlada pelo êxito como a unificação de decisão racional e de acção instrumental, então podemos reconstruir a história da técnica sob o ponto de vista de uma objectivação gradual da acção racional teleológica. Em qualquer dos casos, a evolução técnica ajusta-se ao modelo? interpretativo, segundo o qual o gênero humano teria projectado, uma a uma, ao nível dos meios técnicos, as componentes elementares do círculo funcional da acção racional teleológica, que inicialmente radica no organismo? humano, e assim ele seria dispensado das funções correspondentes [3]. Primeiro?, reforçaram-se e substituíram-se as funções do aparelho locomotor (mãos e pernas); em seguida, a produção da energia? (o corpo? humano), depois, as funções do aparelho dos sentidos? (olhos, ouvidos, pele) e, por fim?, as funções do centro de controlo (do cérebro). Se, pois, se tem presente? que a evolução técnica obedece a uma lógica que corresponde à estrutura da acção racional teleológica e controlada pelo êxito — e isto significa: à estrutura do trabalho? — então, não se vê como poderíamos renunciar à técnica, isto é, à nossa técnica, substituindo-a por uma qualitativamente distinta, enquanto não se modificar a organização da natureza humana e enquanto houvermos de manter a nossa vida por meio? do trabalho social e com. a ajuda dos meios que substituem o trabalho.


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[1Ibid., pp. 180 e s.

[2Ibid., p. 247.

[3«Esta lei enuncia um acontecer intratécnico, um decurso que, no seu conjunto, não foi querido pelo homem, mas esta lei impõe-se, por assim dizer, pela rectaguarda ou instintivamente, ao longo de toda a história da cultura humana. Além disso, segundo esta lei, não pode haver nenhum desenvolvimento da técnica para além do estádio da automatização mais completa possível, pois, não podería especificar-se mais nenhum âmbito da actividade funcional humana, que se pudesse objcctivar.» (A. Gehlen, «Anthropologische Ansicht der Technik», in Technik im technischen Zeitalter, 1965).