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Técnica e Ciência como Ideologia

Habermas (TCI) – racionalidade e racionalização

A Herbert Marcuse nos seus 70 anos

terça-feira 2 de novembro de 2021, por Cardoso de Castro

HABERMAS  , Jürgen. A técnica e ciência como “ideologia”. Tr. Artur Morão. Lisboa: Edições 70, sem data

Max Weber   introduziu o conceito de «racionalidade» para definir a forma da actividade econômica capitalista, do tráfego social regido pelo direito privado burguês e da dominação burocrática. Racionalização çignifica, em primeiro lugar, a ampliação das esferas sociais, que ficam submetidas aos critérios da decisão racional. A isto corresponde a industrialização do trabalho social; com a consequência de que os critérios da acção instrumental penetram também noutros âmbitos da vida (urbanização das formas de existência, tecnificação do tráfego e da comunicação). Em ambos os casos, trata-se da implantação do tipo de acção racional relativamente a fins: aqui, trata-se da organização dos meios e, além, da encolha entre alternativas. Por fim, a planificação pode conceber-se como uma acção racional dirigida a fins de segundo grau: visa a instauração, melhoria ou ampliação dos próprios sistemas de acção racional e dirigida a fins. A «racionalização» progressiva da sociedade depende da institucionalização do progresso científico e técnico. Na medida em que a técnica e a ciência pervadem as esferas institucionais da sociedade e transformam assim as próprias instituições, desmoronam-se as antigas legitimações, A secularização e o «desencantamento» das cosmovisões orientadoras [45] da acção, da tradição cultural no seu conjunto, é o reverso de uma «racionalidade» crescente da acção social.

Herbert Marcuse   tomou como ponto de partida estas análises para demonstrar que o conceito formal da racionalidade, que Max Weber   extraiu da acção racional do empresário capitalista e do trabalhador industrial, da pessoa jurídica abstracta e do funcionário moderno, e que associou a critérios da ciência e da técnica, tem implicações determinadas com conteúdo próprio. Marcuse   está convencido de que, naquilo que Max Weber   chamou «racionalização», não se implanta a «racionalidade» como tal, mas, em nome da racionalidade, uma forma determinada de dominação política oculta. Porque a racionalidade deste tipo só se refere à correcta eleição entre estratégias, à adequada utilização de tecnologias e à pertinente instauração de sistemas (em situações dadas para fins estabelecidos), èla subtrai o entrelaçamento social global de interesses em que se elegem estratégias, se utilizam tecnologias e se instauram sistemas, a uma reflexão e reconstrução racionais. Essa racionalidade estende-se, além disso, apenas às situações de emprego possível da técnica e exige, por isso, um tipo de acção que implica dominação quer ‘ sobre a natureza ou sobre a sociedade. A acção racional dirigida a fins é, segundo a sua própria estrutura, exercício de controles. Por conseguinte, a «racionalização» das relações vitais segundo critérios desta racionalidade equivale à institucionalização de uma dominação que, enquanto política, se torna irreconhecível: a razão técnica de um sistema social de acção racional dirigida a fins não abandona o seu conteúdo político. Na sua crítica a Max Weber  , Marcuse   chega a esta conclusão: «O conceito de razão técnica é talvez também em si mesmo ideologia. Não só a sua aplicação, mas já a própria técnica é dominação metódica, científica, calculada e calculante (sobre a natureza e sobre o homem). [46] Determinados fins e interesses da dominação não são outorgados à técnica apenas «posteriormente» e a partir de fora — inserem-se já na própria construção do aparelho técnico; a técnica é, em cada caso, um projecto histórico-social; nele se projecta o que uma sociedade e os interesses nela dominantes pensam fazer com os homens e com as coisas. Um tal fim de dominação é «material» e, neste sentido, pertence à própria forma da razão técnica» [1].

Já em 1956, num contexto inteiramente diverso, Marcuse   chamara a atenção para o peculiar fenômeno de que, nas sociedades capitalistas industriais avançadas, a dominação tende a perder o seu carácter explorador e opressor e a tornar-se «racional», sem que por isso se desvaneça a dominação política: «A dominação está ainda apenas condicionada pela capacidade de e pelo interesse em manter o aparelho no seu conjunto e em o alargar» [2]. A racionalidade da dominação mede-se pela manutenção de um sistema que pode permitir-se converter em fundamento da sua legitimação o incremento das forças produtivas associado ao progresso técnico-científico, embora, por outro lado, o estado das forças produtivas represente precisamente também o potencial, pelo qual medidas «as renúncias e as incomodidades impostas aos indivíduos estas surgem cada vez mais como desnecessárias e irracionais» [3]. Marcuse   pretende reconhecer a repressão objectivamente supérflua na «sujeição intensificada dos indivíduos ao imenso aparelho de produção e de distribuição, na desprivatização do tempo livre, na quase indiferenciável fusão do trabalho social produtivo e destrutivo». Mas, paradoxalmente, esta repressão pode desvanecer-se da consciência da população, porque a legitimação da dominação assumiu um novo carácter: a saber, a referência «à crescente produtividade e ao [47] crescente domínio .da natureza, que também proporcionam aos indivíduos uma vida mais confortável».


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[1«Industrialisierung und Kapitalismus im Werk Max Webers» in Kultur und Gesellschaft, II, Francoforte, 1965.

[2«Trieblehre und Freiheit», in Freud in der Gegenwart, Frankf. Beit. z.”Soz., Vol. VI, 1957.

[3Ibid., p. 403.