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Simulacros e simulação

Baudrillard (SS) – cultura e simulacro

A PRECESSÃO DOS SIMULACROS

segunda-feira 1º de novembro de 2021, por Cardoso de Castro

      

BAUDRILLARD  , Jean. Simulacros e simulação. Tr. Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio d’água, 1991

      

português

Se outrora pudemos tomar pela mais bela alegoria   da simulação a fábula de Borges em que os cartógrafos do Império desenham um mapa tão detalhado que acaba por cobrir exactamente o território (mas o declínio do Império assiste ao lento esfarrapar deste mapa e à sua ruína, podendo ainda localizar-se alguns fragmentos nos desertos – beleza metafísica desta abstração   arruinada, testemunha de um orgulho   à medida do Império e apodrecendo como uma carcaça, regressando à substância   do solo, de certo modo como o duplo acaba por confundir-se com o real   ao envelhecer) – esta fábula está terminada para nós e tem apenas o discreto encanto dos simulacros da segunda categoria  .

Hoje a abstracção já não é a do mapa, do duplo, do espelho   ou do conceito. A simulação já não é a simulação de um território, de um ser referencial, de uma substância. É a geração pelos modelos de um real sem origem   nem realidade: hiper-real. O território já não precede o mapa, nem lhe sobrevive. É agora o mapa que precede o território – precessão dos simulacros – é ele que engendra o território cujos fragmentos apodrecem lentamente sobre a extensão   do mapa. É o real, e não o mapa, cujos vestígios subsistem aqui e ali, nos desertos que já não são os do Império, mas o nosso. O deserto   do próprio   real.

De facto, mesmo invertida, a fábula é inutilizável. Talvez subsista apenas a alegoria do Império. Pois é com o mesmo imperialismo que os simuladores actuais tentam fazer coincidir o real, todo o real, com os seus modelos de simulação. Mas já não se trata de mapa nem de território. Algo desapareceu: a diferença   soberana de um para o outro, que constituía o encanto da abstracção. Pois é na diferença que consiste a poesia do mapa e o encanto do território, a magia   do conceito e o encanto do real. Este imaginário da representação, que culmina e ao mesmo tempo   se afunda no projecto louco dos cartógrafos, de uma coextensividade ideal do mapa e do território, desaparecer na simulação – cuja operação é nuclear e genética e já não especular e discursiva. A toda a metafísica que desaparece. Já não existe o espelho do ser e das aparências, do real e do seu conceito. Já não existe coextensivida de imaginária: é a miniaturização genética que é a dimensão da simulação. O real é produzido a partir de células miniaturizadas, de matrizes e de memórias, de modelos de comando – e pode ser reproduzido um número   indefinido de vezes a partir dai Já não tem de ser racional, pois já não se compara com nenhuma instância, ideal ou negativa. É apenas operacional. Na verdade  , já não é o real, pois já não está envolto em nenhum imaginário. É um hiper-real, produto de síntese irradiando modelos combinatórios num hiperespaço sem atmosfera.

Nesta passagem a um espaço cuja curvatura já não é a do real, nem a da verdade, a era da simulação inicia-se, pois, com uma liquidação de todos os referenciais – pior  : com a sua ressurreição   artificial nos sistemas de signos, material mais dúctil que o sentido, na medida em que se oferece a todos os sistemas de equivalência, a todas as oposições binárias, a toda a álgebra combinatória. Já não se trata de imitação  , nem de dobragem, nem mesmo de paródia. Trata-se de uma substituição no real dos signos do real, isto é, de uma operação de dissuasão de todo o processo real pelo seu duplo operatório, máquina   sinalética metaestável. programática, impecável  , que oferece todos os signos do real e lhes curto-circuita todas as peripécias. O real nunca mais terá oportunidade   de se produzir- tal é a função vital do modelo num sistema de morte, ou antes de ressurreição antecipada que não deixa já qualquer hipótese ao próprio acontecimento da morte. Hiper-real, doravante ao abrigo do imaginário, não deixando lugar senão à recorrência orbital dos modelos e à geração simulada das diferenças.

Dissimular é fingir não ter o que se tem. Simular é fingir ter o que não se tem. O primeiro refere-se a uma presença, o segundo a uma ausência. Mas é mais complicado  , pois simular não é fingir: “Aquele que finge uma doença   pode simplesmente meter-se na cama e fazer crer que está doente. Aquele que simula uma doença determina em si próprio alguns dos respectivos sintomas.” (Littré.) Logo fingir, ou dissimular, deixam intacto o princípio da realidade: a diferença continua a ser clara, está apenas disfarçada, enquanto que a simulação põe em causa   a diferença do “verdadeiro” e do “falso”, do «real» e do « imaginário». O simulador está ou não doente, se produz «verdadeiros» sintomas? Objectivamente não se pode tratá- lo nem como doente nem como não-doente. A psicologia e a medicina detém-se aí perante uma verdade da doença que já não pode ser encontrada. Pois se qualquer sintoma pode ser «produzido» e já não pode ser aceite corno um facto da natureza, então toda a doença pode ser considerada simulável e simulada e a medicina perde o seu sentido, uma vez que só sabe tratar doenças «verdadeiras» pelas suas causas objectivas.

A psicossomática evolui de maneira incerta nos confins do princípio da doença. Quanto à psicanálise, ela devolve o sintoma do domínio   orgânico ao domínio inconsciente: este é de novo suposto ser «verdadeiro», mais verdadeiro que o outro – mas por que é que a simulação se detém às portas do inconsciente? Por que é que o «trabalho  » do inconsciente não há-de poder ser «produzido» do mesmo modo que qualquer sintoma da medicina clássica? Os sonhos já o são.

original

Si nous avons pu prendre pour la plus belle allégorie de la simulation la fable de Borges où les cartographes de l’Empire dressent une carte si détaillée qu’elle finit par recouvrir très exactement le territoire (mais le déclin de l’Empire voit s’effranger peu à peu cette carte et tomber en ruine, quelques lambeaux étant encore repérables dans les déserts — beauté métaphysique de cette abstraction ruinée, témoignant d’un orgueil à la mesure de l’Empire et pourrissant comme une charogne, retournant à la substance du sol, un peu comme le double finit par se confondre avec le réel en vieillissant), cette fable est révolue pour nous, et n’a plus que le charme discret des simulacres du deuxième ordre [1].

Aujourd’hui l’abstraction n’est plus celle de la carte, du double, du miroir ou du concept. La simulation n’est plus celle d’un territoire, d’un être référentiel, d’une substance. Elle est la génération par les modèles d’un réel sans origine ni réalité : hyperréel. Le territoire ne précède plus la carte, ni ne lui survit. C’est désormais la carte qui précède le territoire — précession des simulacres —, c’est elle qui engendre le territoire et, s’il fallait reprendre la fable, c’est aujourd’hui le territoire dont les lambeaux pourrissent lentement sur l’étendue de la carte. C’est le réel, et non la carte, dont des vestiges subsistent çà et là, dans les déserts qui ne sont plus ceux de l’Empire, mais le nôtre. Le désert du réel lui-même.

En fait, même inversée, la fable est inutilisable. Seule subsiste peut-être l’allégorie de l’Empire. Car c’est avec le même impérialisme que les simulateurs actuels tentent de faire coïncider le réel, tout le réel, avec leurs modèles de simulation. Mais il ne s’agit plus ni de carte ni de territoire. Quelque chose a disparu : la différence souveraine, de l’une à l’autre, qui faisait le charme de l’abstraction. Car c’est la différence qui fait la poésie de la carte et le charme du territoire, la magie du concept et le charme du réel. Cet imaginaire de la représentation, qui culmine et à la fois s’abîme dans le projet fou des cartographes d’une coextensivité idéale de la carte et du territoire, disparaît dans la simulation — dont l’opération est nucléaire et génétique, plus du tout spéculaire et discursive. C’est toute la métaphysique qui s’en va. Plus de miroir de l’être et des apparences, du réel et de son concept. Plus de coextensivité imaginaire : c’est la miniaturisation génétique qui est la dimension de la simulation. Le réel est produit à partir de cellules miniaturisées, de matrices et de mémoires, de modèles de commandement — et il peut être reproduit un nombre indéfini de fois à partir de là. Il n’a plus à être rationnel, puisqu’il ne se mesure plus à quelque instance, idéale ou négative. Il n’est plus qu’opérationnel. En fait, ce n’est plus du réel, puis- qu’aucun imaginaire ne l’enveloppe plus. C’est un hyper- réel, produit de synthèse irradiant de modèles combinatoires dans un hyperespace sans atmosphère.

Dans ce passage à un espace dont la courbure n’est plus celle du réel, ni celle de la vérité, l’ère de la simulation s’ouvre donc par une liquidation de tous les référentiels — pire : par leur résurrection artificielle dans les systèmes de signes, matériau plus ductile que le sens, en ce qu’il s’offre à tous les systèmes d’équivalences, à toutes les oppositions binaires, à toute l’algèbre combinatoire. Il ne s’agit plus d’imitation, ni de redoublement, ni même de parodie. Il s’agit d’une substitution au réel des signes du réel, c’est-à-dire d’une opération de dissuasion de tout processus   réel par son double opératoire, machine signalétique métastable, programmatique, impeccable, qui offre tous les signes du réel et en court-circuite toutes les péripéties. Plus jamais le réel n’aura l’occasion de se produire — telle est la fonction vitale du modèle dans un système de mort, ou plutôt de résurrection anticipée qui ne laisse plus aucune chance à l’événement même de la mort. Hyperréel désormais à l’abri de l’imaginaire, et de toute distinction du réel et de l’imaginaire, ne laissant place qu’à la récurrence orbitale des modèles et à la génération simulée des différences.

Dissimuler est feindre de ne pas avoir ce qu’on a. Simuler est feindre d’avoir ce qu’on n’a pas. L’un renvoie à une présence, l’autre à une absence. Mais la chose est plus compliquée, car simuler n’est pas feindre : « Celui qui feint une maladie peut simplement se mettre au lit et faire croire qu’il est malade. Celui qui simule une maladie en détermine en soi quelques symptômes. » (Littré.) Donc, feindre, ou dissimuler, laissent intact le principe de réalité : la différence est toujours claire, elle n’est que masquée. Tandis que la simulation remet en cause la différence du « vrai » et du « faux », du « réel » et de l’ « imaginaire ». Le simulateur est-il malade ou non, puisqu’il produit de « vrais » symptômes ? On ne peut ni le traiter objectivement comme malade, ni comme non-malade. La psychologie et la médecine s’arrêtent là, devant une vérité de la maladie désormais introuvable. Car si n’importe quel symptôme peut être « produit », et ne peut plus être reçu comme un fait de nature, alors toute maladie peut être considérée comme simulable et simulée, et la médecine perd son sens, car elle ne sait traiter que les maladies « vraies » par leurs causes objectives. La psychosomatique évolue d’une façon louche aux confins du principe de maladie. Quant à la psychanalyse, elle renvoie le symptôme de l’ordre organique à l’ordre inconscient : celui-ci de nouveau est censé être « vrai », plus vrai que l’autre — mais pourquoi la simulation s’arrêterait-elle aux portes de l’inconscient ? Pourquoi le « travail » de l’inconscient ne pourrait-il être « produit » de la même façon que n’importe quel symptôme de la médecine classique ? Les rêves le sont déjà.


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[1Cf. J. Baudrillard, L’échange symbolique et la mort, « L’ordre des simulacres », Paris, Gallimard, 1975.