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Crítica da Razão Pura

Kant (CRP) – excertos sobre "eu penso"

segunda-feira 1º de novembro de 2021

Excerto de KANT  , Immanuel. Crítica da Razão Pura. Tr. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

PREFÁCIO DA TRADUÇÃO PORTUGUESA

A Crítica da Razão Pura, de que apresentamos esta tradução em língua portuguesa, é um monumento único na história da filosofia, traduzindo uma verdadeira revolução no pensamento ocidental, e resultado de uma longa e profunda meditação.

Tradicionalmente, divide-se a atividade filosófica de Immanuel Kant   (1724-1804) em duas fases. Na fase inicial, designada por pré-crítica, as reflexões incidem predominantemente sobre problemas da física e, naturalmente, também sobre questões estritamente metafísicas dentro dos cânones racionalistas de Leibniz  -Wolff embora já se note, para o final do período, a influência da leitura de Hume   e, com ela, aflorarem aspectos de uma nova atitude filosófica, por exemplo, em Os sonhos de um visionário explicados pelos sonhos da metafísica (1764) e no artigo Sobre os primeiros princípios das diferenças das regiões no espaço (1768). Mas é na pequena dissertação latina, De mundi sensibilis arque intelligibilis forma et principiis (1770), expressamente elaborada para concorrer à cátedra de lógica e metafísica, que se apresentam nitidamente pontos de vista anunciadores da segunda fase, a época de maturidade, que se inicia com o ’opus magnum’ da Crítica da Razão Pura.

 Prefácio – A razão só entende aquilo que produz...

Quando Galileu   fez rolar no plano? inclinado as esferas, com uma aceleração que ele próprio escolhera, quando Torricelli fez suportar pelo ar? um peso?, que antecipadamente sabia idêntico ao peso conhecido de uma coluna de água, ou quando, mais recentemente, Stahl transformou metais em cal e esta, por sua vez?, em metal, tirando-lhes e restituindo-lhes algo [1], foi uma iluminação para todos os físicos. Compreenderam que a razão só entende aquilo que produz segundo os seus próprios planos; que ela tem que tomar a dianteira com princípios, que determinam os seus juízos segundo leis? constantes e deve forçar a natureza? a responder às suas interrogações em vez de se deixar guiar por esta; de outro modo?, as observações feitas ao acaso?, realizadas sem plano prévio, não se ordenam segundo a lei necessária, que a razão procura e de que necessita. A razão, tendo por um lado os seus princípios, únicos a poderem dar aos fenômenos concordantes a autoridade? de leis e, por outro, a experimentação, que imaginou segundo esses princípios, deve ir ao encontro? da natureza, para ser por esta ensinada, é certo, mas não na qualidade? de aluno que aceita tudo o que o mestre? afirma, antes na de juiz? investido nas suas funções, que obriga as testemunhas a responder aos quesitos que lhes apresenta. Assim, a própria física tem de agradecer a revolução, tão proveitosa,do seu modo de pensar?, unicamente à ideia? de procurar na natureza (e não imaginar), de acordo? com o que a razão nela pôs, o que nela dever?á aprender e que por si só não alcançaria saber?; só assim a física enveredou pelo trilho certo da ciência, após tantos séculos em que foi apenas simples? tateio.

 §16 Apercepção (CRP:B132-B135)

O eu? penso deve poder acompanhar todas as minhas representações; se assim não fosse, algo se [B132] representaria em mim, que não poderia, de modo algum, ser pensado, que o mesmo? é dizer, que a representação ou seria impossível ou pelo menos nada? seria para mim. A representação que pode ser dada antes de qualquer pensamento? chama-se intuição. Portanto, todo o diverso da intuição possui uma relação necessária ao eu penso, no mesmo sujeito? em que esse? diverso se encontra. Esta representação, porém, é um ato? da espontaneidade?, isto é, não pode considerar-se pertencente à sensibilidade?. Dou-lhe o nome? de apercepção pura, para a distinguir? da empírica ou ainda o de apercepção origin?ária, porque é aquela autoconsciência que, ao produzir? a representação eu penso, que tem de poder acompanhar todas as outras, e que é una e idêntica em toda a consciência, não pode ser acompanhada por nenhuma outra. Também chamo à unidade? dessa representação a unidade transcendental? da autoconsciência, para designar a possibilidade? do conhecimento? a priori? a partir dela. Porque as diversas representações, que nos são dadas em determinada intuição, não seriam todas representações minhas se não pertencessem na sua totalidade? a uma autoconsciência; quer dizer, enquanto representações minhas (embora me não aperceba delas enquanto tais), têm de ser necessariamente conformes com a única condição pela qual se podem encontrar reunidas numa autoconsciência geral?, pois não sendo? assim, não [B133] me pertenceriam inteiramente. Desta ligação originária se podem extrair muitas consequências.

Acontece que esta identidade? total da apercepção de um diverso dado? na intuição contém uma síntese das representações e só é possível pela consciência desta síntese. Com efeito?, a consciência empírica que acompanha diferentes representações é em si mesma dispersa e sem referência à identidade do sujeito. Não se estabelece, pois, essa referência só porque acompanho com a consciência toda a representação, mas porque acrescento uma representação a outra e tenho consciência da sua síntese. Só porque posso ligar numa consciência um diverso de representações dadas, posso obter por mim próprio a representação da identidade da consciência nestas representações; isto é, a unidade analítica da apercepção só é possível sob o pressuposto? de qualquer unidade sintéticaA unidade analítica da consciência é inerente a todos os conceitos? comuns enquanto tais; assim, por exemplo?, quando penso o vermelho em geral, tenho a representação de uma qualidade que (enquanto característica) pode encontrar-se? noutra parte? ou ligada a outras representações; portanto, sé mediante uma unidade sintética possível, previamente pensada, posso ter? a representação da unidade analítica. Uma representação, que deve pensar-se como sendo comum? a coisas? diferentes, considera-se como pertencente a coisas que, fora? desta representação, têm ainda em si algo diferente·, por conseguinte, tem de ser previamente pensada em unidade sintética com outras representações (ainda que sejam apenas representações possíveis), antes de se poder pensar nela a unidade analítica da consciência que a eleva a um conceptus communis. E, assim, a unidade sintética da apercepção é o ponto? mais elevado a que se tem de suspender todo o uso? do entendimento?, toda a própria lógica e, de acordo? com esta, a filosofia? transcendental; esta faculdade? é o próprio entendimento.. [B134] O pensamento de que estas representações dadas na intuição me pertencem todas equivale a dizer que eu as uno em uma autoconsciência ou pelo menos posso fazê-lo; e, embora não seja ainda, propriamente, a consciência da síntese das representações, pressupõe pelo menos a possibilidade desta última; isto é, só porque posso abranger o diverso dessas representações numa única consciência chamo a todas, em conjunto, minhas representações. Não sendo assim, teria um eu tão multicolor e diverso quanto tenho representações das quais sou consciente?.

A unidade sintética do diverso das intuições, na medida? em que é dada a priori, é pois o princípio da identidade da própria apercepção, que precede a priori todo o meu pensamento determinado. A ligação não esta, porém, nos objetos?, nem tão-pouco pode ser extraída deles pela percepção e, desse modo, recebida primeiramente no entendimento; é, pelo contrário, unicamente [B135] uma operação do entendimento, o qual não é mais do que a capacidade? de ligar a priori e submeter o diverso das representações à unidade da apercepção. Este é o princípio supremo? de todo o conhecimento humano?.

Este princípio da unidade necessária da apercepção é, na verdade?, em si mesmo, idêntico, por conseguinte uma proposição analítica, mas declara como necessária uma síntese do diverso dado na intuição, síntese sem a qual essa identidade completa da autoconsciência não pode ser pensada. Com efeito, mediante o eu, como simples representação, nada de diverso é dado; só na intuição, que é distinta, pode um diverso ser dado e só pela ligação numa consciência é que pode ser pensado. Um entendimento no qual todo o diverso fosse dado ao mesmo tempo? pela autoconsciência seria intuitivo?-, o nosso só pode pensar e necessita de procurar a intuição nos sentidos?. Sou, pois, consciente de um eu idêntico, por relação ao diverso das representações que me são dadas numa intuição, porque chamo minhas todas as representações em conjunto, que perfazem uma só. Ora isto é o mesmo que dizer que tenho consciência de uma síntese necessária a priori dessas representações, a que se chama unidade sintética originária da apercepção, à qual se encontram submetidas todas as representações [B136] que me são dadas, mas à qual também deverão ser reduzidas mediante uma síntese.

 EU PENSO (CRP:A341/B399)

O paralogismo? lógico consiste na falsidade? de um raciocínio quanto à forma?, seja qual for, de resto, o seu conteúdo.

Mas um paralogismo transcendental tem um fundamento? transcendental, que nos faz concluir?, falsamente, quanto à forma.

Deste modo, tal raciocínio vicioso fundamenta-se na natureza da razão humana e traz consigo uma ilusão inevitável, embora não insolúvel.

Chegamos agora? a um conceito que não foi indicado anteriormente na lista dos conceitos transcendentais, mas que, todavia, tem que lhe ser acrescentado, sem que no entanto se altere, no mínimo que seja, essa tábua ou se declare incompleta. Trata-se do conceito, ou se se prefere, do juízo: eu penso. Facilmente se vê que esse conceito é o veículo de todos os conceitos em geral e, por conseguinte, também dos transcendentais, em que sempre se inclui, sendo portanto transcendental como eles; mas não poderia ter um título particular?, porque apenas serve para apresentar todo o pensamento como pertencente à consciência. No entanto, embora isento de elementos? empíricos (da impressão dos sentidos), serve para distinguir duas? espécies de objetos a partir da natureza da nossa faculdade de representação. Eu sou?, enquanto pensante, objeto do sentido interno e chamo-me alma?. O que é objeto dos sentidos externos chama-se corpo?. Assim, a expressão eu, enquanto ser pensante, indica já o objeto da psicologia, a que se pode chamar ciência racional? da alma, se eu nada mais aspirar a saber acerca desta a não ser o que se pode concluir deste conceito eu, enquanto presente? em todo o pensamento e independentemente de toda a experiência (que me determina mais particularmente e in concreto?).

 A representação eu... (CRP:A346/B404)

[...] a representação eu, representação simples e, por si só, totalmente vazia de conteúdo, [A346] da qual nem sequer se pode dizer que seja um conceito e que é apenas uma mera consciência que acompanha todos os conceitos. Por este "eu", ou "ele", "aquilo" (a coisa?) que pensa, nada mais se representa além de um sujeito transcendental dos pensamentos = X, que apenas se conhece pelos pensamentos, que são seus predicados? e do qual não podemos ter, isoladamente, o menor conceito; movemo-nos aqui, portanto, num círculo perpétuo, visto? que sempre necessitamos, previamente, da representação do eu para formular? sobre ele qualquer juízo; inconveniente que lhe é inseparável, pois que a consciência, em si mesma, não é tanto uma representação que distingue determinado objeto particular, mas uma forma da representação em geral, na medida em que deva chamar-se conhecimento, pois que só dela posso dizer que penso qualquer coisa por seu intermédio.


Ver online : Crítica da Razão Pura (Fundação Calouste)


[1Não sigo aqui, rigorosamente, o fio da história do método experimental, cujos primórdios não são, de resto, bem conhecidos.