Página inicial > Filosofia da Ciência e da Técnica > Francis Bacon – homem intérprete da natureza e seus ídolos

Novum Organum

Francis Bacon – homem intérprete da natureza e seus ídolos

segunda-feira 1º de novembro de 2021

Excerto de BACON, Francis. Novum Organum. Tradução e notas de José Aluysio Reis de Andrade. São Paulo: Acrópolis, 2002. (epub)

Novum Organum?, I, 1  -4

O homem?, ministro e intérprete da natureza?, só faz e entende na medida? em que observou, pela experiência ou pela reflexão, a ordem? da natureza; nada? mais sabe ou pode além disso.

Nem a mão nua nem o entendimento? abandonado a si mesmo? podem muito; a coisa? aperfeiçoa-se com instrumentos e auxílios, que não são menos necessários para o entendimento que para a mão. E assim como os instrumentos da mão excitam ou regem seu movimento?, os instrumentos da mente? impulsionam o entendimento ou fazem-no cauteloso.

A ciência e a potência humana coincidem no mesmo, porque a ignorância da causa priva do efeito?. Pois só se vence a natureza obedecendo-a; e no que na contemplação corresponde à causa, na operação correspondente à regra?.

Para obrar?, não pode o homem fazer? outra coisa que acercar-se dos corpos? naturais e separá-los; o demais, o faz a natureza no interior?.


XXXVIII

Os ídolos e noções falsas que ora ocupam o intelecto? humano e nele se acham implantados não somente o obstruem a ponto? de ser difícil o acesso? da verdade?, como, mesmo depois de seu pórtico logrado e descerrado, poder?ão ressurgir como obstáculo à própria instauração das ciências, a não ser que os homens, já precavidos contra eles, se cuidem o mais que possam.

XXXIX

São de quatro? gêneros os ídolos que bloqueiam a mente humana. Para melhor apresentá-los, lhes assinamos nomes, a saber?: Ídolos da Tribo; Ídolos da Caverna; Ídolos do Foro e Ídolos do Teatro?.

XL

A forma?ção de noções e axiomas pela verdadeira indução é, sem dúvida?, o remédio apropriado? para afastar e repelir os ídolos. Será, contudo, de grande préstimo indicar no que consistem, posto que a doutrina dos ídolos tem a ver? com a interpretação da natureza o mesmo que a doutrina dos elencos sofísticos com a dialética vulgar?.

XLI

Os ídolos da tribo estão fundados na própria natureza humana, na própria tribo ou espécie humana. E falsa a asserção de que os sentidos? do homem são a medida das coisas?. Muito ao contrário, todas as percepções, tanto dos sentidos como da mente, guardam analogia? com a natureza humana e não com o universo?. O intelecto humano é semelhante? a um espelho que reflete desigualmente os raios das coisas e, dessa forma, as distorce e corrompe.

XLII

Os ídolos da caverna são os dos homens enquanto indivíduos. Pois, cada um — além das aberrações próprias da natureza humana em geral? — tem uma caverna ou uma cova que intercepta e corrompe a luz? da natureza: seja devido à natureza própria e singular? de cada um; seja devido à educação ou conversação com os outros?; seja pela leitura dos livros ou pela autoridade? daqueles que se respeitam e admiram; seja pela diferença de impressões, segundo ocorram em ânimo preocupado e predisposto ou em ânimo equânime e tranquilo; de tal forma que o espírito? humano — tal como se acha disposto em cada um — é coisa vária, sujeita a múltiplas perturbações, e até certo ponto sujeita ao acaso?. Por isso, bem proclamou Heráclito que os homens buscam em seus pequenos mundos e não no grande ou universal?.

XLIII

Há também os ídolos provenientes, de certa forma, do intercurso e da associação recíproca dos indivíduos do gênero humano entre si, a que chamamos de ídolos do foro devido ao comércio e consórcio entre os homens. Com efeito, os homens se associam graças ao discurso?, e as palavras? são cunhadas pelo vulgo. E as palavras, impostas de maneira imprópria e inepta, bloqueiam espantosamente o intelecto. Nem as definições, nem as explicações com que os homens doutos se munem e se defendem, em certos domínios, restituem as coisas ao seu lugar. Ao contrário, as palavras forçam o intelecto e o perturbam por completo. E os homens são, assim, arrastados a inúmeras e inúteis controvérsias e fantasias?.

XLIV

Há, por fim?, ídolos que imigraram para o espírito dos homens por meio? das diversas doutrinas filosóficas e também pelas regras viciosas da demonstração. São os ídolos do teatro: por parecer que as filosofias? adotadas ou inventadas são outras tantas fábulas, produzidas e representadas, que figuram mundos fictícios e teatrais. Não nos referimos apenas às que ora existem ou às filosofias e seitas dos antigos. Inúmeras fábulas do mesmo teor se podem reunir e compor, por que as causas? dos erros? mais diversos são quase sempre as mesmas. Ademais, não pensamos apenas nos sistemas? filosóficos, na universalidade, mas também nos numerosos princípios e axiomas das ciências que entraram em vigor?, mercê da tradição, da credulidade e da negligência. Contudo, falaremos de forma mais ampla e precisa de cada gênero de ídolo, para que o intelecto humano esteja acautelado.


Ver online : Delphi Collected Works of Francis Bacon