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O TEMA DO HOMEM

Francis Bacon – o ser humano

Excerto de Julián Mariás

segunda-feira 1º de novembro de 2021

De dignitate et augmentis scientiarum, lib. IV, cap. I

De Sapientia Veterum, XXVI: Prometheus

De dignitate et augmentis scientiarum, lib. IV, cap. I

A ciência? do homem? tem duas? partes, pois o considera ou isolado ou congregado e em sociedade?. A uma, chamo filosofia? da humanidade?; a outra, filosofia civil. A filosofia da humanidade compõe-se de partes semelhantes àquelas de que se compõe o homem; isto é, de conhecimentos referentes ao corpo? e de conhecimentos que se referem à alma?. Mas antes de prosseguir as divisões particulares, constituamos uma ciência geral? referente? à natureza? e ao estado? do homem; um tema? que certamente merece tornar-se independente? e formar uma ciência por si mesmo?. Compõe-se das coisas? que são comuns, tanto ao corpo como à alma; e pode-se dividir em duas partes, uma referente à natureza indivisa do homem, e outra ao vínculo e conexão entre a alma e o corpo; à primeira? chamarei doutrina da pessoa? humana; à segunda, doutrina da aliança. (...)

A doutrina da pessoa humana considera dois temas principais: as misérias do gênero? humano e as prerrogativas ou excelências do mesmo. A respeito? das misérias humanas, muitos lamentaram elegante e profusamente, tanto em escritos filosóficos como teológicos, e é um gênero ao mesmo tempo? grato e saudável. Mas aquele outro tema das prerrogativas do homem, parece-me merecer um lugar entre os desiderato. (...) Porém, para não insistir demasiado sobre este ponto?, o que pretendo dizer é suficientemente claro: a saber?, que se reúnam em um volume? os milagres da natureza humana e suas potências? e virtudes mais altas, da alma e do corpo, o que serviria de registro dos triunfos do homem. (...)

Quanto à doutrina da aliança ou vínculo comum? entre a alma e o corpo, divide-se em duas partes. Pois como em todas as alianças e amizades?? inteligência? mútua e serviços mútuos, a descrição? desta aliança da alma e do corpo compõe-se igualmente de duas partes, a saber, como estas duas coisas (isto é, a alma e o corpo) se descobrem reciprocamente, e como atuam um sobre outro: por conhecimento? ou indicação e por impressão?. (...) Entre as doutrinas referentes à aliança ou às concordâncias entre a alma e o corpo, nenhuma é mais necessária que a investigação? das sedes e domicílios próprios que as diferentes faculdades? da alma ocupam no corpo e seus órgãos?.


De Sapientia Veterum, XXVI: Prometheus

Pensavam os antigos que a formação? e a constituição? do homem era? a obra? mais própria da Divindade?, a mais digna dela, e é a única que atribuíram à divina Providência?; opinião? que tem por base? duas verdades incontestáveis. Em primeiro lugar, a natureza humana (o homem) está em parte? composta de um espírito? e de um entendimento?, que é a sede própria da providência (da previsão?); seria absurdo? e incrível supor? que elementos? brutos tenham podido ser o princípio? de uma razão? e uma inteligência; pelo que é mister concluir? que a providência da alma humana tem como modelo?, princípio e fim uma Providência suprema. Em segundo lugar, o homem é como o centro do mundo?, pelo menos quanto às causas? finais, pois se o homem pudesse ser suprimido do Universo?, todo o resto nada? mais faria senão errar vagamente e flutuar no espaço? sem objeto? nem fim; em uma palavra?, para servir-me de uma expressão? recebida e inclusive trivial, o mundo? nada mais seria que uma espécie? de vassoura desfeita e cujas palhas se dispersariam por falta? de um fio que as atasse. Com efeito?, tudo parece destinado e subordinado ao homem, pois só ele sabe tornar tudo apropriado? e de tudo tirar partido. Os movimentos periódicos e as revoluções dos astros servem-lhe para distinguir? e medir os tempos ou para determinar a situação dos lugares?. Os meteoros proporcionam-lhes prognósticos para prever as estações, a temperatura ou outros meteoros. Os ventos propiciam-lhe uma força? motriz para a navegação, para os moinhos e para infinidade? de outras máquinas; as plantas? e os animais de todas as espécies, materiais? para o alojamento e o vestiário, alimentos, remédios?, instrumentos e meios para facilitar, abreviar e aperfeiçoar? todos seus trabalhos?; em uma palavra, uma infinidade de coisas necessárias, cômodas ou agradáveis, de sorte? que todos os seres que o rodeiam parecem esquecer?-se de si mesmos e trabalhar só para ele. E não é por acaso? que o poeta?, inventor desta ficção?, acrescente que, naquela massa destinada a formar o homem, Prometeu misturou e combinou com o barro partículas tiradas de diferentes animais. Com efeito, de todos os entes que o universo encerra em sua imensidão?, não há nenhum mais composto e mais heterogêneo que o homem. Assim, não sem razão o qualificaram os antigos de mundo pequeno, de microcosmo?, considerando-o como um resumo do mundo inteiro. Apesar dos químicos que abusaram desta palavra microcosmo, tendo alterado sua significação? por tomá-la literalmente, haverem destruído toda sua elegância e toda sua verdadeira força, quando afirmaram que todos os minerais e todos os vegetais, ou substâncias? muito análogas, se encontram no corpo humano, este ridículo exagero não destrói de modo? algum o que acabamos de dizer, e não por isso é menos certo que, de todos os corpos conhecidos, é o que apresenta uma mescla maior e mais substâncias diferentes e partes distintas;, complicação à qual é natural atribuir as propriedades e as admiráveis faculdades de que está dotado, pois os corpos muito simples? só têm um número? pequeníssimo de forças ou de propriedades, cujo efeito é rápido e seguro, porque não se acham compensadas por outras que possam debilitá-las e atenuá-las, como ocorre nos corpos mais compostos. Porém, a multidão? das propriedades e a excelência das faculdades dependem da composição? e de uma diversidade? maior nas partes constitutivas. No entanto, em sua origem?, o homem parece estar? nu? e inerme; durante muito tempo não pode valer?-se a si mesmo; é carente de tudo. Por isto Prometeu apressou-se a roubar o fogo? do céu?, que é tão necessário? ao homem para satisfazer a maioria de suas necessidades ou de seus caprichos. Porque se a alma pode chamar-se a forma? por excelência, e a mão o primeiro de todos os instrumentos, pode-se considerar o fogo como o mais poderoso de todos os auxílios e o mais eficaz de todos os recursos.


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