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O TEMA DO HOMEM

Francis Bacon – alma (suas faculdades) e corpo

Excertos de Julián Mariás

segunda-feira 1º de novembro de 2021

De dignitate et augmentis scientiarum

De dignitate et augmentis scientiarum, lib. II, cap. I

A melhor divisão da ciência humana é a que se deriva das três faculdades? da alma? racional?, que é a sede da ciência. A história refere-se à memória; a poesia?, à imaginação, e a filosofia?, à razão. (...)

Que as coisas? são assim, pode-se ver? facilmente observando a origem? do processo? intelectual?. Os sentidos?, que são a porta do entendimento?, só são afetados pelos indivíduos. As imagens? desses indivíduos — isto é, as impressões que fazem nos sentidos — fixam-se na memória e nela se alojam, inteiras e tais como chegam. A seguir a mente? humana passa a revisá-las e ruminá-las; e, por último, ou simplesmente as repete, ou faz delas imitações caprichosas, ou as analisa e classifica. Portanto, destas três fontes: memória, imaginação e razão, fluem estas três emanações: história, poesia e filosofia; e não pode haver? outras, pois considero que a história e a experiência são a mesma coisa?, do mesmo? modo? que a filosofia e as ciências.


De dignitate et augmentis scientiarum, lib. IV, cap. II-III

A doutrina concernente ao corpo? do homem? recebe a mesma divisão que os bens? do corpo humano, ao que se refere. Os bens do corpo humano são de quatro? classes: saúde, beleza?, força e prazer?. Os conhecimentos, portanto, são no mesmo número: medicina, cosmética, atlética e ciência do prazer, que Tácito denomina um luxo sábio. (...)

De todas as substâncias que a natureza? produziu, o corpo humano é a mais complexa. Pois vemos que as ervas e plantas? se nutrem de terra? e água; a maioria dos animais, de ervas e frutas; o homem, porém, da carne? desses animais (quadrúpedes, aves e peixes), e também de ervas, grãos, frutas, sumos e líquidos de várias classes; e não sem múltiplas misturas,’condimentos e preparações desses diversos corpos, antes de que se convertam em sua nutrição e alimento. Acrescente-se a isto que os animais têm um modo de vida? muito mais simples?, e sobre seus corpos atuam menos afecções, e estas de um modo muito uniforme? em suas operações; ao passo que o homem, em seus lugares? de residência, exercícios, paixões, sono e vigília, está submetido a infinitas variações; de tal modo que na verdade? o corpo do homem é a massa? mais fermentada e composta de todas as coisas. A alma, pelo contrário, é a mais simples de todas as substâncias. (...)

Esta variável e sutil composição e estrutura? do corpo humano fez dele, por assim dizer, como que um instrumento? musical de muito e estranho trabalho? e que facilmente desafina. E por isto os poetas uniram a música e a medicina em Apolo?; porque os gênios destas duas? artes? são quase o mesmo, pois a missão do médico não consiste em outra coisa que em saber? temperar e afinar essa lira que é o corpo humano, de modo que sua harmonia? não tenha dissonância nem desentoe. (...)

Passemos agora? à doutrina da alma humana, de cujos tesouros decorrem as demais doutrinas. Tem duas partes: uma trata da alma racional, que é divina; a outra da irracional, que é comum? com os brutos. Mencionei pouco antes (ao falar? das formas?) as duas diferentes emanações de almas que aparecem na primeira? criação delas: uma que procede do alento? de Deus?; a outra do seio dos elementos?.’Pois acerca da primeira geração da alma racional, diz a Escritura: "Formou o homem.de limo da terra, e insuflou em sua face um sopro de vida"; ao passo que a geração da alma irracional, ou seja a dos brutos, foi realizada mediante as palavras?: "Que a água produza, que a terra produza". Ora, esta alma (tal como existe no homem) é somente o instrumento da alma racional, e tem sua origem, como a dos brutos, no limo da terra. Pois não se disse que "fez o corpo do homem do limo da terra", mas que "fez o homem"; isto é, o homem inteiro, exceto unicamente o sopro de vida. Assim, a esta primeira parte? da doutrina da alma humana denominarei doutrina do sopro vital, e à segunda, doutrina da alma sensível ou produzida. Não obstante, como até agora só trato de filosofia (pois coloquei a sagrada? teologia? no final da obra?), não teria tomado esta divisão da teologia se não estivesse também de acordo? com os princípios da filosofia. Pois a alma humana tem uma infinidade? de excelências sobre as almas dos brutos," manifestas inclusive para os que filosofam segundo os sentidos. (...)

A doutrina do sopro vital, que não difere em nada? daquela da alma racional, compreende as seguintes indagações acerca de sua natureza: se é nativa ou adventícia, separável ou inseparável, mortal? ou imortal?, até que ponto? está ligada às leis? da matéria e até que ponto está isenta delas, e outras questões semelhantes. Porém, mesmo sendo? todas estas questões susceptíveis, em filosofia que o seja, de uma investigação mais exata e profunda que a que receberam até agora, creio, não obstante, que no final ter-se-á que confiar à religião que as determine e as defina; de outro modo estar?ão expostas a muitos erros? e ilusões dos sentidos. Com efeito?, posto que a substância da alma em sua criação não foi extraída ou produzida da massa do céu e da terra, mas foi inspirada imediatamente por Deus, e posto que as leis do céu e da terra são os temas? próprios da filosofia, como podemos esperar obter da filosofia o conhecimento? da substância da alma racional? Tem que se derivar da mesma inspiração divina da qual essa substância foi originada.

A doutrina da alma sensível ou produzida é um tema adequado? de investigação, inclusive no que se refere a sua substância; mas tal indagação me parece deficiente. Pois de que servem termos como ato? último, forma do corpo e bagatelas lógicas semelhantes para a doutrina "da substância da alma? Porque a alma sensível — a alma dos brutos — deve ser considerada claramente como uma substância corpórea, atenuada e feita invisível pelo calor; um fluido, quero dizer, composto? das naturezas da chama e do ar?, que tem a suavidade do ar para receber? impressões e a atividade? do fogo? para propagar sua ação; nutrido em parte de substâncias oleosas e em parte aquosas; envolto no corpo e alojado, nos animais perfeitos, principalmente na cabeça, que flui ao longo dos nervos e se refresca e repõe mediante o sangue? espirituoso das artérias, segundo sustentaram Bernardino Telésio e seu discípulo Agostinho   Donio, em parte não sem alguma utilidade. (...) Esta alma é nos brutos a alma principal, e o corpo do bruto é seu instrumento, ao passo que no homem ela mesma não é mais que o instrumento da alma racional, e se a pode denominar mais adequadamente espírito? e não alma. E basta, quanto ao que se refere à substâncias da alma.


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