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O Rio da Consciência

Oliver Sacks (RC) – rio da consciência

domingo 31 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

SACKS, Oliver. O Rio da Consciência. Tr. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Companhia das Letras, 2017 (epub)

      

“O tempo   é a substância   de que sou   feito”, disse Jorge Luis Borges. “O tempo é um rio que me leva embora, mas eu sou o rio.” Nossos movimentos, nossas ações estendem-se no tempo, assim como as nossas percepções, os pensamentos, os conteúdos da consciência  . Vivemos no tempo, organizamos o tempo, somos inteiramente criaturas do tempo. Mas será que o tempo em que vivemos, ou segundo o qual vivemos, é contínuo   como o rio de Borges? Ou será mais comparável a uma sucessão de momentos descontínuos, como as contas de um colar?

David   Hume  , no século VIII, defendia a ideia de momentos descontínuos, e para ele a mente   nada mais era do que “um pacote ou coleção   de percepções distintas, que sucedem umas às outras com uma rapidez inconcebível e estão perpetuamente em fluxo e movimento  ”.

William James   escreveu em 1890, nos seus Princípios de psicologia, que a “visão   humiana”, como ele a chamava, era ao mesmo tempo eloquente e exasperante. Para começar, ela parecia contrariar a intuição  . Em seu famoso capítulo sobre o “fluxo de pensamento”, James observou que a consciência, para seu dono, parece ser sempre contínua, “sem ruptura, brecha ou divisão  ”, jamais “cortada em pedacinhos”. O conteúdo da consciência pode estar sempre em mudança  , porém nós passamos sem solavancos de um pensamento a outro, de um percepto a outro, sem interrupções, sem pausas. Para James, o pensamento fluía, daí sua introdução do termo “fluxo de consciência”. Mas ele se perguntava: “Será que a consciência realmente é descontínua? […] Será que apenas parece contínua a si mesma, por uma ilusão   análoga à do zootrópio?”.

Antes de 1830, aproximadamente, não tínhamos como fazer representações ou imagens dotadas de movimento (exceto produzindo um modelo com o funcionamento   real  ). Tampouco ocorreria à maioria das pessoas que uma sensação ou ilusão de movimento pudesse ser transmitida por imagens estáticas. Como é que imagens poderiam denotar movimento sendo imóveis? A própria ideia era paradoxal, uma contradição. Mas o zootrópio provou que era possível combinar imagens individuais no cérebro   para obter a ilusão de movimento contínuo.

O zootrópio (e muitos outros aparelhos semelhantes, com uma variedade de nomes) era bastante popular na época de James, e dificilmente faltava em um lar de classe média vitoriana. Esses instrumentos possuíam um tambor ou disco no qual eram pintados ou colados desenhos em sequência — “quadros congelados” de animais em movimento, jogos de bola, acrobatas em ação, plantas crescendo. Girava-se o tambor ou disco, e os desenhos separados eram vistos em rápida sucessão; a uma velocidade crítica, de repente isso gerava a percepção de uma imagem única a mover-se constantemente. Embora os zootrópios fossem muito procurados como brinquedos, originalmente foram projetados (em geral, por cientistas ou filósofos) com um propósito muito sério  : esclarecer os mecanismos do movimento animal   e da própria visão.

Se James tivesse escrito alguns anos mais tarde, poderia ter usado a analogia   com o cinema. Um filme, com seu fluxo conciso de imagens ligadas tematicamente, sua narrativa visual integrada pelo ponto de vista e valores de seu diretor, é uma boa metáfora para o fluxo de consciência. Os recursos técnicos e conceituais do cinema — zoom, fading, dissolução, omissão, alusão e justaposição de todo tipo — imitam bem e de muitos modos   os fluxos e guinadas da consciência.

Henri Bergson   usou essa analogia em seu livro de 1907, A evolução criadora, no qual toda uma seção trata do “mecanismo cinematográfico do pensamento e a ilusão mecanicista”. Porém, quando Bergson falava em “cinematografia” como um mecanismo elementar do cérebro e da mente  , ele se referia a um tipo muito especial de cinematografia, no qual os “instantâneos” não eram isoláveis uns dos outros, e sim ligados organicamente. Em Tempo e livre-arbítrio  , ele escreveu que esses momentos de percepção “permeiam-se uns aos outros”, “fundem-se” uns nos outros, como as notas de uma composição musical (em contraste com “as batidas vazias e sucessivas de um metrônomo”).

James também escreveu sobre conectividade e articulação, e para ele esses momentos são ligados por toda a trajetória e tema de uma vida:

O conhecimento de alguma outra parte do fluxo, passada ou futura, próxima ou remota, sempre se mistura ao nosso conhecimento do presente  .

[…] Essas remanescências de velhos objetos, essas chegadas de novos, são os germes da memória e da expectativa  , o senso retrospectivo e prospectivo de tempo. Fornecem à consciência aquela continuidade sem a qual ela não poderia ser chamada de fluxo.

No mesmo capítulo, sobre a percepção do tempo, James cita uma fascinante conjectura   de James Mill (o pai   de John Stuart Mill), sobre como poderia ser a consciência se ela fosse descontínua, um colar de contas de sensações e imagens separadas: “Nunca poderíamos ter conhecimento algum exceto o do instante presente. Cada uma das nossas sensações, no momento em que cessasse, desapareceria para sempre, e nós seríamos como se nunca tivéssemos sido. […] Seríamos absolutamente   incapazes de adquirir experiência”.

James se pergunta se a existência poderia realmente ser possível nessas circunstâncias  , com a consciência reduzida a um “lampejo de vagalume […] [com] tudo além dele na escuridão total”. Essa é exatamente a condição de uma pessoa   com amnésia, embora neste caso o “momento” possa ser medido em apenas alguns segundos. Quando descrevi meu paciente amnésico Jimmie, o “Marinheiro Perdido” de O homem   que confundiu sua mulher   com um chapéu, escrevi: “Ele está […] isolado em um único momento da existência, rodeado por um fosso ou lacuna de esquecimento  . […] É um homem sem um passado (ou futuro), encalhado em um momento sem significado que muda constantemente”.


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