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Nietzsche e a Filosofia.

Deleuze (NF): para que serve a filosofia?

15. NOVA IMAGEM DO PENSAMENTO

sábado 30 de outubro de 2021

DELEUZE  , Gilles. Nietzsche e a Filosofia. Tr. Edmundo Fernandes Dias e Ruth Joffily Dias. Rio de Janeiro: Editora Rio, 1976

português

O conceito? de verdade? só se determina em função de uma tipologia? pluralista. E a tipologia começa por uma topologia. Trata-se de saber? a que região pertencem tais erros? e tais verdades, qual é o seu tipo, quem os formula? e os concebe. Submeter o verdadeiro? à prova? do baixo, mas também submeter o falso à prova do alto é a tarefa? realmente crítica e o único meio? de reconhecer-se na “verdade”. Quando alguém pergunta? para que serve a filosofia?, a resposta deve ser agressiva?, visto? que a pergunta pretende-se irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado? nem à Igreja que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder? estabelecido. A filosofia serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não contraria ninguém não é uma filosofia. Ela serve para prejudicar a tolice, faz da tolice algo de vergonhoso? [1]. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a baixeza do pensamento? sob todas as suas formas?. Existe alguma disciplina?, fora? da filosofia, que se proponha a criticar todas as mistificações, quaisquer que sejam sua fonte? e seu objetivo?? Denunciar todas as ficções sem as quais as forças reativas não prevaleceriam. Denunciar, na mistificação, essa mistura? de baixeza e tolice que forma tão bem? a espantosa cumplicidade das vítimas e dos autores. Fazer? enfim do pensamento algo agressivo, ativo, afirmativo. Fazer homens livres?, isto é, homens que não confundam os fins? da cultura? com o projeto? do Estado, da moral? ou da religião. Vencer o negativo? e seus falsos prestígios. Quem tem interesse? em tudo isso a não ser a filosofia? A filosofia como crítica nos mostra o mais positivo? de si mesma: obra? de desmistificação. E que não se apressem em proclamar o fracasso da filosofia a esse? respeito?. A tolice e a bizarria por maiores que sejam, seriam ainda maiores se não subsistisse um pouco de filosofia que as impedisse, em cada época, de ir tão longe? quanto desejariam, que lhes proibisse, mesmo? que fosse por ouvir-dizer, de serem tão tola e tão baixa quanto cada uma desejaria por sua conta?. Alguns excessos lhes são proibidos, mas quem lhes proíbe a não ser a filosofia? Quem as força a se mascararem, a assumirem ares nobres e inteligentes, ares de pensador? Certamente existe uma mistificação propriamente filosófica; a imagem? dogmática do pensamento e a caricatura da crítica são testemunhos disso. Mas a mistificação da filosofia começa a partir do momento? em que esta renuncia a seu papel?... desmistificador e faz o jogo? dos poderes estabelecidos, quando renuncia a contrariar a tolice, a denunciar a baixeza. É verdade, diz Nietzsche  , que os filósofos de hoje tornaram-se cometas [2]. Mas de Lucrécio   aos filósofos do século XVIII, devemos observar? esses cometas, segui-los se possível, reencontrar seu caminho? fantástico. Os filósofos-cometas souberam fazer do pluralismo? uma arte? de pensar?, uma arte crítica. Souberam dizer aos homens o que a má consciência e o ressentimento? deles escondiam. Souberam opor aos valores? e aos poderes estabelecidos pelo menos a imagem de um homem? livre. Após Lucrécio  , como é possível perguntar ainda: para que serve a filosofia?

É possível fazer essa pergunta porque a imagem do filósofo é constantemente obscurecida. Faz-se dele um sábio; ele que é apenas o amigo? da sabedoria?, amigo num sentido? ambíguo, isto é, o anti-sábio, aquele que deve mascarar-se com a sabedoria para sobreviver. Faz-se dele um amigo da verdade, ele que faz o verdadeiro enfrentar a mais dura prova; da qual a verdade sai tão desmembrada quanto Dionísio, a praia do sentido e do valor. A imagem do filósofo é obscurecida por todos os seus disfarces necessários, mas também por todas as traições que fazem dele o filósofo da religião, o filósofo do Estado, o colecionador dos valores em curso, o funcionário da história. A imagem autêntica do filósofo não sobrevive àquele que soube encarná-la por algum tempo?, em sua época. É preciso que ela seja retomada, reanimada, que encontre um novo campo? de atividade? na época seguinte. Se a tarefa crítica da filosofia não é ativamente retomada em cada época, a filosofia morre e com ela a imagem do filósofo e a imagem do homem livre. A tolice e a baixeza são sempre as de nosso tempo, de nossos contemporâneos, nossa tolice e nossa baixeza [3], Diferentemente do conceito intemporal de erro, a baixeza não se separa do tempo, isto é, dessa transposição do presente?, dessa atualidade na qual se encarna e se move. Por isso a filosofia tem uma relação essencial? com o tempo: sempre contra seu tempo, crítico do mundo? atual, o filósofo forma conceitos que não são nem eternos nem históricos, mas intempestivos e sem atualidade. A oposição na qual a filosofia se realiza é a do intempestivo com o atual, do intempestivo com nosso tempo [4]. E no intempestivo há verdades mais duráveis do que as verdades históricas e eternas reunidas: as verdades do tempo por vir. Pensar ativamente é “agir? de maneira intempestiva, portanto contra o tempo e por isso mesmo sobre o tempo, em favor (eu? o espero) de um tempo por vir” [5]. A corrente dos filósofos não é a corrente eterna dos sábios?, ainda menos o encadeamento da história, mas uma corrente quebrada, a sucessão dos cometas: sua descontinuidade e sua repetição não se reduzem nem à eternidade? do céu que eles atravessavam nem à historicidade? da terra? que sobrevoam. Nem há filosofia eterna, nem filosofia histórica. A eternidade, assim como a historicidade da filosofia reduzem-se ao seguinte: a filosofia, sempre intempestiva, intempestiva em cada época.

francês

Le concept de vérité ne se détermine qu’en fonction? d’une typologie pluraliste. Et la typologie commence par? une topologie. Il s’agit de savoir à quelle région appartiennent telles erreurs et telles vérités, quel est leur type, qui les formule et les conçoit. Soumettre le vrai à l’épreuve du bas, mais aussi soumettre le faux à l’épreuve du haut : c’est la tâche réellement critique? et le seul moyen de s’y reconnaître dans la « vérité ». Lorsque quelqu’un demande à quoi sert la philosophie, la réponse doit être agressive, puisque la question? se veut ironique et mordante. La philosophie ne sert pas à l’État ni à l’Église, qui ont d’autres soucis. Elle ne sert aucune puissance établie. La philosophie sert à attrister. Une philosophie qui n’attriste personne? et ne contrarie personne n’est pas une philosophie. Elle sert à nuire à la bêtise, elle fait de la bêtise quelque chose? de honteux. Elle n’a pas d’autre usage que celui-ci : dénoncer la bassesse de pensée sous toutes ses formes. Y a-t-il une discipline, hors la philosophie, qui se propose la critique de toutes les mystifications, quels qu’en soient la source et le but ? Dénoncer toutes les fictions sans lesquelles les forces réactives ne l’emporteraient pas. Dénoncer dans la mystification? ce mélange de bassesse et de bêtise, qui forme aussi bien l’étonnante complicité des victimes et des auteurs. Faire enfin de la pensée quelque chose d’agressif, d’actif et d’affirmatif. Faire des hommes libres, c’est-à-dire des hommes qui ne confondent pas les fins de la culture avec le profit de l’État, de la morale ou de la religion?. Combattre le ressentiment, la mauvaise conscience? qui nous tiennent lieu? de pensée. Vaincre le négatif et ses faux prestiges. Qui a intérêt à tout cela, sauf la philosophie ? La philosophie comme critique nous dit? le plus positif d’elle-même : entreprise de démystification. Et qu’on ne se hâte pas de proclamer à cet égard l’échec de la philosophie. Si grandes qu’elles soient, la bêtise et la bassesse seraient encore plus grandes, si ne subsistait un peu de philosophie qui les empêche à chaque époque d’aller aussi loin qu’elles voudraient, qui leur interdit respectivement, ne serait-ce que par ouï-dire, d’être aussi bête et aussi basse que chacune le souhaiterait pour son compte. Certains excès leur sont interdits, mais qui leur interdit sauf la philosophie ? Qui les force à se masquer, à prendre des airs nobles et intelligents, des airs de penseur ? Certes, il existe une mystification proprement philosophique ; l’image dogmatique de la pensée et la caricature de la critique en témoignent. Mais la mystification de la philosophie commence à partir du moment où celle-ci renonce à son rôle… démystificateur, et fait la part des puissances établies : quand elle renonce à nuire à la bêtise, à dénoncer la bassesse. C’est vrai, dit Nietzsche  , que les philosophes aujourd’hui sont devenus des comètes. Mais, de Lucrèce aux philosophes du XVIIIe, nous devons observer ces comètes, les suivre si possible, en retrouver le chemin fantastique. Les philosophes-comètes surent faire du pluralisme un art de penser, un art critique. Ils ont su dire aux hommes ce que cachaient leur mauvaise conscience et leur ressentiment. Ils ont su opposer aux valeurs et aux puissances établies ne fût-ce que l’image d’un homme libre. Après Lucrèce, comment est-il possible de demander encore : à quoi sert la philosophie ?

Il est possible de le demander parce que l’image du philosophe est constamment obscurcie. On en fait un sage?, lui qui est seulement l’ami de la sagesse, ami en un sens ambigu, c’est-à-dire l’anti-sage, celui qui doit se masquer de sagesse pour survivre. On en fait un ami de la vérité, lui qui fait subir au vrai l’épreuve la plus dure, dont la vérité sort aussi démembrée que Dionysos : l’épreuve du sens et de la valeur. L’image du philosophe est obscurcie par tous ses déguisements nécessaires, mais aussi par toutes les trahisons qui font de lui le philosophe de la religion, le philosophe de l’État, le collectionneur des valeurs en cours, le fonctionnaire de l’histoire. L’image authentique du philosophe ne survit pas à celui qui sut l’incarner pour un temps, à son époque. Il faut qu’elle soit reprise, réanimée, qu’elle trouve un nouveau champ d’activité à l’époque suivante. Si la besogne critique de la philosophie n’est pas activement reprise à chaque époque, la philosophie meurt, et avec elle l’image du philosophe et l’image de l’homme libre. La bêtise et la bassesse ne finissent pas de former des alliages nouveaux. La bêtise et la bassesse sont toujours celles de notre temps, de nos contemporains, notre bêtise et notre bassesse. A la différence du concept intemporel d’erreur, la bassesse ne se sépare pas du temps, c’est-à-dire de ce transport du présent, de cette actualité dans laquelle elle s’incarne et se meut. C’est pourquoi la philosophie a, avec le temps, un rapport essentiel : toujours contre son temps, critique du monde actuel, le philosophe forme des concepts qui ne sont ni éternels ni historiques, mais intempestifs et inactuels. L’opposition dans laquelle la philosophie se réalise est celle de l’inactuel avec l’actuel, de l’intempestif avec notre temps. Et dans l’intempestif, il y a des vérités plus durables que les vérités historiques et éternelles réunies : les vérités du temps à venir. Penser activement, c’est « agir d’une façon inactuelle, donc contre le temps, et par là même sur le temps, en faveur (je l’espère) d’un temps à venir ». La chaîne des philosophes n’est pas la chaîne éternelle des sages, encore moins l’enchaînement de l’histoire, mais une chaîne brisée, la succession des comètes, leur discontinuité et leur répétition qui ne se ramènent ni à l’éternité du ciel? qu’elles traversent, ni à l’historicité de la terre qu’elles survolent. Il n’y a pas de philosophie éternelle, ni de philosophie historique. L’éternité comme l’historicité de la philosophie se ramènent à ceci : la philosophie, toujours intempestive, intempestive à chaque époque.


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[1Co. In., II, “Schopenhauer educador”, 8: “Diógenes objetou, quando louvaram um filósofo diante dele: O que ele tem de grandioso para mostrar, ele que se dedicou tanto tempo à filosofia sem nunca entristecer ninguém? Com efeito, seria preciso colocar como epitáfio sobre o túmulo da filosofia universitária: Ela não entristeceu ninguém.” — GC, 328: os filósofos antigos fizeram um sermão contra a tolice, “não nos perguntemos aqui se esse sermão é melhor fundamentado do que o sermão contra o egoísmo; o que é certo é que ele despojou a tolice de sua boa consciência: esses filósofos prejudicaram a tolice.”

[2NF — Co. In., II, “Schopenhauer educador”, 7: “A natureza envia o filósofo à humanidade como uma flecha; ela não mira, mas espera que a flecha prenda em algum lugar.”

[3AC, 38: “Tal como todos os clarividentes eu sou de grande tolerância para com o passado, isto é, generosamente domino a mim mesmo... Mas meu sentimento se modifica, explode, a partir do momento em que entro no tempo moderno, em nosso tempo.”

[4Co. In., I. “Da utilidade e do inconveniente dos estudos históricos”, Prefácio.

[5Co. In., II. “Schopenhauer educador”, 3-4.