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Conversações 1972-1990

Deleuze (C72-90:14-15) – falar em nome próprio

sábado 30 de outubro de 2021

[DELEUZE  , Gilles. Conversações 1972-1990. Tr. Peter Pál Pelbart. São Paulo: Editora 34, 1992, p. 14-15]

Chego então à sua primeira? crítica, onde você diz e repete com todas as letras: você está cercado, você está acuado, [13] confessa. Procurador geral?! Não confesso nada?. Já que se trata por sua culpa? de um livro sobre mim, gostaria de explicar? como vejo o que escrevi. Sou de uma geração, uma das últimas gerações que foram mais ou menos assassinadas com a história da filosofia?. A história da filosofia exerce em filosofia uma função repressora evidente, é o Édipo propriamente filosófico: “Você não vai se atrever a falar? em seu nome? enquanto não tiver lido isto e aquilo, e aquilo sobre isto, e isto sobre aquilo.” Na minha geração muitos não escaparam disso, outros sim, inventando seus próprios métodos e novas regras, um novo tom. Quanto a mim, “fiz” por muito tempo? história da filosofia, li? livros sobre tal ou qual autor. Mas eu? me compensava de várias maneiras. Primeiro, gostando dos autores que se opunham à tradição racionalista dessa história (e entre Lucrécio  , Hume  , Espinosa  , Nietzsche  , há para mim um vínculo secreto constituído pela crítica do negativo?, pela cultura? da alegria?, o ódio à interioridade?, a exterioridade? das forças e das relações, a denúncia do poder..., etc.). O que eu mais detestava era? o hegelianismo? e a dialética. Meu livro sobre Kant   é diferente, gosto? dele, eu o fiz como um livro sobre um inimigo, procurando mostrar como ele funciona, com que engrenagens — tribunal da Razão, uso? comedido das faculdades?, submissão tanto mais hipócrita quanto nos confere o título de legisladores. Mas minha principal maneira de me safar nessa época foi concebendo a história da filosofia como uma espécie de enrabada, ou, o que dá no mesmo?, de imaculada concepção. Eu me imaginava chegando pelas costas de um autor e lhe fazendo um filho, que seria seu, e no entanto seria monstruoso. Que fosse seu era muito importante, porque o autor precisava efetivamente ter? dito? tudo aquilo que eu lhe fazia dizer. Mas que o filho fosse monstruoso também representava uma necessidade?, porque era preciso passar por toda espécie de descentramentos, deslizes, quebras, emissões secretas que me deram muito prazer?. Meu livro sobre Bergson   me parece exemplar? nesse gênero. E hoje tem gente que [14] morre de rir acusando-me por eu ter escrito até sobre Bergson  . É que eles não conhecem o suficiente de história. Não sabem o tanto de ódio que Bergson   no início pôde concentrar na Universidade francesa, e como ele serviu — querendo ou não, pouco importa — para aglutinar todo tipo? de loucos? e marginais, mundanos? ou não.

Foi Nietzsche  , que li tarde, quem me tirou disso tudo. Pois é impossível submetê-lo ao mesmo tratamento. Filhos pelas costas é ele quem faz. Ele dá um gosto perverso (que nem Marx   nem Freud   jamais deram a ninguém, ao contrário): o gosto para cada um de dizer coisas? simples? em nome próprio, de falar por afectos, intensidades, experiências, experimentações. Dizer algo em nome próprio é muito curioso, pois não é em absoluto? quando nos tomamos por um eu, por uma pessoa? ou um sujeito? que falamos em nosso nome. Ao contrário, um indivíduo? adquire um verdadeiro? nome próprio ao cabo do mais severo exercício de despersonalização, quando se abre às multiplicidades que o atravessam de ponta a ponta, às intensidades que o percorrem. O nome como apreensão instantânea de uma tal multiplicidade? intensiva é o oposto da despersonalização operada pela história da filosofia, uma despersonalização de amor? e não de submissão. Falamos do fundo daquilo que não sabemos, do fundo de nosso próprio subdesenvolvimento. Tornamo-nos um conjunto de singularidades soltas, de nomes, sobrenomes, unhas, animais, pequenos acontecimentos: o contrário de uma vedete. Comecei então a fazer? dois livros nesse sentido? vagabundo, Diferença e repetição, Lógica do sentido. Não tenho ilusões: ainda estão cheios de um aparato universitário, são pesados, mas tento sacudir algo, fazer com que alguma coisa? em mim se mexa, tratar a escrita? como um fluxo, não como um código. E há páginas de que gosto em Diferença e repetição, aquelas sobre a fadiga? e a contemplação, por exemplo, porque são da ordem? do vivido? bem vivo, apesar das aparências. Não fui muito longe?, mas já era um começo.


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