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Da essência da informática

de Castro: premissas filosóficas nos fundamentos da informática?

sábado 30 de outubro de 2021

Reflexão feita a partir de leituras do filósofo Jacob Needleman e Pierre Lévy   e premissas consideradas na obra de Wittgenstein   (WITTGENSTEIN  , Ludwig. Tractatus Logico-Philosophicus [TLP]. Tr. Luiz Henrique Lopes dos Santos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001. (original em alemão-inglês na tradução de Bertrand Russell))

Reflexões

Em alguns círculos de estudiosos do pensamento? de Wittgenstein  , o meio? cultural? onde nasceu e se educou, a Viena do início do século, a Viena de Schoenberg, Adolph Loos, Sigmund Freud  , deve ser devidamente ponderada. Nesta Viena tão bem? retratada por , o conceito? de “fato?”, a ideia? de “fato”, a invenção do “fato” é central.

A ela se associa a crença que o mundo? e as coisas? no mundo são completamente neutras com respeito? a significado? e valor?. A mente? humana pode impor tais significados e valores no mundo externo?, lá fora, mas, em si mesmos, o mundo e as coisas do mundo simplesmente existem sem qualquer finalidades ou qualidades? de bom, mau?, belo?, de consciência ou significação.

Essa visão tem seus precedentes na história, mas na Viena do início do século XX foi aderida à crença que as verdades sobre o mundo natural? podem ser afirmadas pela percepção sensorial?, refinada, ajudada pela inferência lógica. Enfatiza-se assim a crença de que simplesmente conhecendo os fatos sobre o mundo, um homem? será capaz de orientar?-se com respeito a sua conduta na vida?. Pode-se chegar a fatos com enorme valor, atribuído subjetivamente, mas não se pode deixar de lado que valores não são fatos.

Por trás desta visão, pressupõe-se que o homem pode observar? a realidade? livre? da influência de suas emoções e condicionamentos. Esta observação é justamente capaz, de assim feita, dar lugar a “fatos”. A representação mais clara desse mito? do “fato” é o jornalismo. Um fato vale mil interpretações. A ciência moderna? também pode assim ser considerada como um modo? de jornalismo.

Cabe aí um destaque especial para Karl Kraus com seu “anti-jornal” querendo expor camada sobre camada de corrupção e de hipocrisia que via na sociedade? a sua volta. Crítica a mistura? de valores e fatos no “feuilleton”.

A resultante de todo este movimento? é a distinção de mundo de valores de mundo de fatos, onde o primeiro? não deve ser falado como se fala? do segundo, mas somente mostrado e encarnado nas artes? ou na vida. Este mundo de valores não é o reino? do gosto? não gosto, das reações emocionais, preferências, atrações e repulsas ego?ísticas, opiniões e inclinações. É um reino de escala imensa, mas exatamente o que e onde?

O obra? de Wittgenstein   surge assim como uma possível resposta. Ele procura separar os dois? mundos pela atenção na linguagem? – para ele idêntica ao pensamento e até certo ponto? ao comportamento? no mundo. Wittgeistein elabora inclusive uma distinção entre mundo da linguagem e mundo do silêncio.

Wittgenstein   mostra ao homem científico tanto a estrutura? lógica do mundo ideal? que sua linguagem científica construiu para ele, quanto a vida fragmentada e desconectada que sua linguagem ordinária verdadeiramente vive para ele.

Wittgenstein   destrói a ilusão de que as questões fundamentais de significado e finalidade? podem ser resolvidas pelo intelecto? ordinário, demonstrando que os problemas? da filosofia? estão enraizados em confusões de linguagem, ou seja misturando níveis de realidade.

Sua primeira obra, Tractatus Logico-Philosophicus, incorpora a ideia do mundo numenal?, por meio de uma sequência de proposições aparentemente lógico-científicas sobre o instrumento? pelo qual o homem conhece o mundo fenomenal?. O que é este instrumento? É a linguagem, considerada como pensar?. A essência da linguagem é pensamento. E pensamento é a mesma coisa? que lógica. Mas a lógica é um conjunto de regras, uma estrutura toda transparente a si mesma – constituída por si mesma. Através da linguagem, a mente organiza-se e também arregimenta os dados? trazidos pela observação científica. Tornando claro para nós mesmos a estrutura lógica da linguagem, podemos ver? a estrutura lógica de nosso mundo e nos libertarmos do sofrimento? desnecessário nascido pelas confusões causados pelo que denominamos “problemas filosóficos fundamentais”. O intelecto – lógica e sua manifestação em linguagem – não tem nada? a ver com felicidade?, perfeição de si, experiência do significado da vida, relação com Deus?.

Wittgenstein   demonstra que a lógica estrutura o mundo que vivemos e que a lógica estrutura o intelecto ele mesmo?. A ciência leva a observações que tomam a forma? de fatos, e todos os fatos obedecem regras lógicas, pois tudo que é conhecido é por definição estruturado pela lógica.

A lógica não nos diz nada sobre o mundo. São apenas as regras pelas quais podemos conhecer? o mundo – regras pelas quais organizamos as observações trazidas pelos sentidos?. Conhecimento? existe na forma de proposições, afirmações, que têm uma forma inevitavelmente lógica e que funcionam como uma espécie de figura? ou modelo? do mundo.

Diferentemente de Kant  , para quem os objetos? aparecem no espaço, e o espaço é a forma geral? pela qual devem aparecer? os objetos. Wittgestein propõe o espaço lógico, fora do qual não há significado para qualquer coisa, tornando assim os problemas filosóficos como fantasmas?. “Tudo que pode ser pensado pode ser pensado claramente. Tudo que pode ser dito? pode ser dito claramente...”. Assim a meta da autêntica filosofia é “significar o indizível pela apresentação clara do dizível”.

Indiretamente a mensagem? de Wittgenstein   pode ser também: tudo que chamamos pensamento pode ser feito por uma máquina. Para experimentar o mundo atrás das aparências devemos aprender a ver com outra mente! Pensar com outra mente!

Para Pierre? Lévy  , estabelecem-se assim as premissas filosóficas que vão guiar a constituição e a instituição da informática: Pensar os fenômenos com base? em novas categorias?: lógica, cálculo, comunicação e informação.

Wittgenstein   expõe a nova configuração ontológica que responde a este novo pensamento científico: o mundo posto como sendo? “tudo que acontece”, onde a teoria? da informação pode se aplicar universalmente e resolver ou dissolver o problema da união da alma? e do corpo?, do valor e do fato.

Para Wittgenstein   como para os cibernéticos (Norbert Wiener  , Herbert Simon, etc), a lógica é muito mais que a ciência do justo raciocínio: “A lógica não é uma teoria mas uma imagem? refletida do mundo. A lógica é transcendental?”.

O mundo só pode ser percebido através da lógica. Lógica = a essência da comunicabilidade.

Assim temos: objeto = símbolo; estado? de coisas = expressão bem formada; mundo ou totalidade? dos estados das coisas existentes = linguagem formal?. Paralelamente: estados das coisas ou fatos || proposições, donde as noções: processo? = cálculo.

“O mundo é tudo o que acontece, o mundo é o conjunto de fatos, não de coisas”. O mundo é aquele da teoria da informação...

“Indicar a essência da proposição, é indicar a essência de toda descrição, portanto a essência do mundo”. A essência do mundo é aquela de toda descrição: lógica, diríamos informacional.

Tudo repousa sobre um mesmo plano?, não há hierarquias nem transcendência interna ao universo? lógico e descritível. Não há sujeito? pensante capaz de representação, que poderia introduzir uma distinção de essência ente as coisas e sua representação.

Mistério da psicologia calculante da cibernética: quem enuncia as proposições em trânsito na rede neuronal? quem as recebe? quem as utiliza?

Wittgenstein   não vê sujeito metafísico no mundo mas o estabelece nos limites? do mundo: “Eu sou? meu próprio mundo”.

Estudo? dos mecanismos circulares: auto-reprodução, auto-referência e auto-organização. A noção de informação não tem sentido a não ser no interior? do mundo do sujeito.

Segunda grande diferença entre Wittgenstein   e os cibernéticos e os defensores da IA, no tocante ao indizível: “Aquilo que pode ser mostrado não pode ser dito” (nem codificado?!).

Um quadro pode representar? cada realidade da qual ele tem a forma. No entanto o quadro não poderia representar sua própria forma de representação”ele nada mais faz que a representar.

A mídia, graças a qual se dá a representação, é inexprimível, irrepresentável...

Assim o mundo de “tudo que acontece”, o do “que pode ser dito”, exclui por baixo nosso “meio” de vida: o espaço, as cores, os sons, as línguas formando a mídia para eventuais mensagens, e finalmente toda a espessura sensível do mundo. Exclui pelo alto, por sua vez?, aquilo porque vivemos e todas as significações em geral. O elemento “místico” inexprimível é portanto extremamente vasto. O mundo estritamente calcul?ável e comunicável se reduz a uma fina película do ser, a dos eventos (fatos), percorrida pelo jogo? das operações e das traduções.

Premissas

  • 6.13 A lógica não é uma teoria, mas uma imagem especular do mundo. A lógica é transcendental.?>
  • 5.61 A lógica preenche o mundo; os limites do mundo são também seus limites.
    Na lógica, portanto, não podemos dizer; há no mundo isso e isso, aquilo não.
    Isso aparentemente pressuporia que excluímos certas possibilidades, o que não pode ser o caso, pois, do contrário, a lógica deveria ultrapassar os limites do mundo; como se pudesse observar esses limites também do outro lado.
    O que não podemos pensar, não podemos pensar; portanto, tampouco podemos dizer o que não podemos pensar.
  • 5.551 Nosso princípio básico é que toda questão que se possa decidir por meio da lógica deve poder?-se decidir de imediato?.
    (E se chegamos à situação de ter? que olhar? o mundo para solucionar um tal problema, isso mostra que seguimos uma trilha errada por princípio.)
  • 3.032 Representar na linguagem algo que “contradiga as leis? lógicas” é tão pouco possível quanto representar na geometria?, por meio de suas coordenadas, uma figura que contradiga as leis do espaço; ou dar as coordenadas de um ponto que não exista.
  • 3.03 Não podemos pensar nada de ilógico, porque, do contrário, dever?íamos pensar ilogicamente.
  • 3.031 Já foi dito que Deus poderia criar tudo, salvo o que contrariasse as leis lógicas. - É que não seríamos capazes de dizer como parecería um mundo “ilógico".
  • 3.343 Definições são regras de tradução de uma linguagem para outra. Cada nota?ção correta deve poder traduzir-se em cada uma das demais segundo tais regras: é isso que todas elas têm em comum?.
  • 4.014 O disco gramofônico, a ideia musical, a escrita? musical, as ondas sonoras, todos mantem entre si a mesma relação interna afiguradora que existe entre a linguagem e o mundo.
    A construção lógica é comum a todos.
    (Como, no conto?, os dois jovens, seus dois cavalos e seus lírios. Todos são, em certo sentido, um só.)
  • 5.4711 Especificar a essência da proposição significa especificar a essência de toda descrição e, portanto, a essência do mundo.
  • 5.631 O sujeito que pensa, representa, não existe.
    Se eu escrevesse um livro O Mundo tal como o Encontro?, nele teria que incluir também um relato? sobre meu corpo, e dizer quais membros se submetem à minha vontade? e quais não, etc. - este é bem um método para isolar? o sujeito, ou melhor, para mostrar que, num sentido importante, não há sujeito algum: só dele não se poderia falar? neste livro.
  • 5.633 Onde no mundo se há de notar um sujeito metafísico?
    Você diz que tudo se passa aqui como no caso do olho e do campo? visual Mas o olho você realmente não vê.
    E nada no campo visual permite concluir? que é visto a partir de um olho
  • 5.63 Eu sou meu mundo. (O microcosmos.)
  • 6.522 Há por certo o inefável. Isso se mostra, é o Místico.
  • 4.1212 O que pode ser mostrado não pode ser dito.
  • 2.171 A figuração pode afigurar toda realidade cuja forma ela tenha.
    A figuração espacial, tudo que seja espacial; a colorida, tudo que seja colorido, etc.
  • 2.172 Sua forma de afiguração, porém, a figuração não pode afigurar; ela a exibe.
  • 6.4 Todas as proposições têm igual? valor.