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A Filosofia de William James

William James (FWJ:8-9) – O caos original

Seleção das suas obras principais

sexta-feira 29 de outubro de 2021

JAMES, William. A Filosofia de William James  . Seleção das suas obras principais. Tr. Antonio Ruas. São Paulo: Companhia Editorial Nacional, 1943, p. 8-9

O conteúdo do mundo? é-nos dado? a cada um de nós numa ordem? tão alheia aos nossos interesses? subjetivos que mal? podemos por um esforço? de imaginação?, representar?-nos a nós próprios o seu quadro. Nós temos de quebrar completamente essa ordem, — e colhendo dela os itens que nos interessam e ligando-os com outros muito distantes, que nós dizemos “pertencerem-lhes”, poderemos construir os nossos fios definidos de sequência? e tendência?; para prever percalços especiais e aprontarmo-nos para eles; e para gozar a simplicidade? e harmonia?, em lugar do que era? caos?. Não é a soma? da vossa atual? experiência?, tomada neste momento? e imparcialmente conjugada, um perfeito? caos? O tom da minha voz, as luzes e as sombras? dentro? e fora? do aposento, o murmúrio do vento, o tique taque do relógio, as várias sensações? orgânicas? que a gente possua individualmente, formará isto, na verdade?, um todo? Não é a única condição? da vossa sanidade mental no meio? de tudo isto, que a maior parte? destas manifestações se tornem não existentes para vós e que algumas outras — os sons, espero-o, que eu? estou emitindo — evoquem, de lugares? na vossa memória? que nada? têm com esta cena, associações de ideias? próprias para se combinarem com elas naquilo que chamamos uma teia racional? de pensamento? — racional, porque leva a uma conclusão? para a apreciação da qual devemos ter? algum órgão?? Nós não temos órgão ou faculdade? para apreciar a ordem simplesmente dada. O [9] mundo real?, como é dado objetivamente neste momento, é a soma total de todos os seus seres e acontecimentos agora?. Mas podemos nós pensar? em tal soma? Podemos nós compreender?, por um instante?, o que seria um quadro concatenado de toda a existência? num espaço? definido de tempo?? Enquanto eu falo e as moscas zumbem, uma gaivota agarra um peixe na embocadura do Amazonas, uma arvore cai nas montanhas Adirondack, um homem? espirra na Alemanha, um cavalo morre na Tartária, e dois? gêmeos nascem na França. Que significa isso? A contemporaneidade destes acontecimentos uns com outros e com um milhão de outros disseminados formará um laço racional entre eles e uni-los-á em qualquer coisa? que signifique para nós um mundo? Contudo, precisamente uma tal contemporaneidade colateral, e nada mais, é que é a ordem real do mundo. É uma ordem com a qual nós nada temos a fazer? exceto fugir? dela, o mais breve possível?. Como eu disse, nós quebramo-la: partimo-la em histórias?, partimo-la em artes?, e partimo-la em ciências?; e depois começamos a sentir-nos à vontade?. Nós fazemos dela mil ordens seriadas e separadas, e sobre qualquer destas nós reagimos como se as outras não existissem. Nós descobrimos entre as suas várias partes ligações a que nunca se deu sentido? algum (relações? matemáticas, tangentes, quadrados e raízes e funções? logarítmicas), e de entre um número? infinito? destas, nós chamamos, a uma determinada quantidade?, essenciais? e legiferas, e ignoramos o resto. Essenciais nos são essas relações; mas apenas para o nosso desígnio, sendo? as outras relações justamente tão reais e presentes como elas; e o nosso desígnio é conceber? simplesmente e prever. Não são essas relações, mas apenas para o nosso desígnio, sendo e simples? Estes são os fins? daquilo a que chamamos ciência e o milagre? dos milagres, milagre ainda não exaustivamente esclarecido por qualquer filosofia?, isto é, que a ordem dada oferece-se ela própria à remodelação. Mostra-se plástica a muitos dos nossos desígnios científicos, a muitos dos nossos desígnios estéticos, a muitos dos nossos desígnios e fins práticos.