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A BAGAGEM DO VIAJANTE

Saramago (BV) – o fala-só

sexta-feira 29 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

Hoje, apesar do céu descoberto e do sol quente  , não me sinto para festas. Há dias assim. E um homem   não tem obrigação nenhuma de mostrar aqui um sorriso de boas-vindas quando sabe que ninguém está para chegar. Mais vale aceitar   (ou assumir, como é inteligente dizer-se agora) as boas e as más horas do espírito  , porque atrás de uma vêm outras, e nada está seguro, etc., etc. Desta fatalidade poderia até tirar matéria para a crónica, se mesmo agora me não tivesse passado   na lembrança um homem mal enroupado que eu conheci, tonto de seu juízo  , o qual homem levava o triste dia a andar para baixo e para cima na rua principal lá da aldeia. Chamavam-lhe evidentemente o Tonho Maluco, uma espécie de bobo fácil dos adultos e de besta   sofredora das crianças. Estas coisas são assim e no fundo não é por mal, se o Tonho morresse toda a gente tinha um grande desgosto, pois claro.

Das malícias do tonto não falo: eram muitas, e nem todas para pôr por escrito. Mas honestíssimas donas de sua casa   rompiam aos gritos e empurravam o Tonho para fora dos quintais onde ele se introduzia, silencioso e ágil como um gineto. Adiante. O que me impressionava então e hoje recordo era aquela cisma que o Tonho tinha de falar durante todo o santo dia, ora em altas vozes contra as portas e os prudentes habitantes que atrás se escondiam, ora em estranhos murmúrios com o rosto apoiado numa árvore, ora quase suspirando enquanto a água das bicas lhe ia correndo para a concha das mãos. Além dos seus outros nomes, apelidos e alcunhas, o Tonho era o Fala-Só.

Passaram prodigamente os anos, eu cresci, o Tonho envelheceu e morreu, e eu não morri, mas envelheci. Estas coisas também são assim, e no fundo ninguém nos quer mal, a culpa   é do tempo   que passa, e quando eu morrer   as pessoas também vão ter muita pena  . A ver.

Depois de eu ter crescido, soube que também aos poetas davam o nome de fala-só, porque se achava que a poesia era uma forma de loucura nem sempre mansa, e porque alguns abusavam do privilégio de falar alto à lua   ou de se lançarem em solilóquios mesmo quando em companhia. Bem sei que tudo isto vinha de uma noção   incuravelmente romântica do que seja poeta e poesia. Mas as pessoas, vendo bem, gostam dos loucos, e, quando os não têm, inventam-nos.

Num mundo assim organizado todos tinham o seu lugar: loucos, poetas e sãos de espírito  , e todos estavam cientes dos seus direitos e obrigações. Ninguém se misturava. Mas decerto não era assim, porque havia sãos de espírito que passavam a loucos e a poetas, e começavam a falar sozinhos, perdidos para a sociedade da gente normal. Um delgado fio   é a fronteira  , e parte-se, e gasta-se, e é logo outro mundo.

Quero eu dizer na minha que estas crónicas são também os dizeres de um fala-só. Que esta continuada comunicação tem qualquer coisa de insensato, porque é uma voz cega lançada para um espaço imenso onde outras vozes monologam, e tudo é abafado por um silêncio   espesso e mole que nos rodeia e faz de cada um de nós uma ilha de angústia  . E isto é tão verdade  , que o leitor vai interromper aqui mesmo a leitura, baixa o livro, levanta os olhos vagos e profere as palavras da sua dor   ou da sua alegria, di-las em voz alta, a ver se o mundo o ouve e se, pela magia   do esconjuro involuntário  , começa, enfim a compreendê-lo, a si, leitor, a quem ninguém compreende e a quem ninguém ajuda  .

De modo que fala-sós somos todos: os loucos, que começaram, os poetas, por gosto   e imitação  , e os outros, todos os outros, por causa desta comum solidão   que nenhuma palavra é capaz de remediar e que tantas vezes agrava.


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