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Contra o Método

Feyerabend (CM:461-463) – o conhecimento está ao fim de caminhos múltiplos

sexta-feira 29 de outubro de 2021

Feyerabend  , Paul. Contra o Método. Tr. de Octanny S. da Mata Leonidas Hegenberg. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977, p. 461-463

Ainda hoje, a ciência pode tirar e tira vantagem da consideração de elementos? não-científicos. Exemplo? examinado acima, no capítulo IV, é a revivescência da medicina tradicional? na China comunista. Quando os comunistas, na década de 1950, forçaram os hospitais e escolas de medicina a transmitir as ideias? e métodos registrados no Manual? de Medicina interna do imperador Amarelo e a aplicá-las no tratamento dos pacientes, muitos especialistas ocidentais (entre eles, Eccles, um dos ‘Cavaleiros de Popper  ’) se horrorizaram e predisseram a derrocada da medicina chinesa. Ocorreu exatamente o oposto. A acupuntura, a moxa, o diagnóstico pelo pulso conduziram a novas percepções, novos métodos de tratamento e colocaram novos problemas?, tanto para o médico ocidental quanto para o chinês. E os que não apreciam ver? o Estado? imiscuir-se em questões científicas devem lembrar-se do acentuado chauvinismo da ciência: para a maioria dos dentistas, a frase? ‘liberdade? para a ciência’ significa liberdade para doutrinar não apenas os que resolveram acompanhá-los, mas também resto da sociedade?. [461] Claro está que nem toda combinação de elementos científicos e não científicos alcança êxito (exemplo: Lysenko). Todavia, também a ciência nem sempre é bem sucedida. Se importa evitar as misturas porque às vezes? falham, também a ciência pura (se é que ela existe) há de ser evitada. (No caso Lysenko, o condenável não é a interferência do Estado, mas a interferência totalitária, que destrói o oponente em vez de permitir-lhe seguir o próprio caminho?.)

Combinando essa observação com a percepção de que a ciência não dispõe de método especial, chegamos à conclusão de que a separação entre? ciência e não-ciência não é apenas artificial, mas perniciosa para o avanço do saber?. Se desejamos compreender? a natureza?, se desejamos dominar a circunstância física, devemos recorrer a todas as ideias, todos os métodos e não apenas a reduzido número deles. Assim, a asserção de que não há conhecimento? fora? da ciência — extra scientiam nulla salus — nada? mais é que outro e convenien-tíssimo conto? de fadas. As tribos primitivas faziam classificações de animais e plantas? mais minuciosas que as da zoologia e da botânica de nosso tempo?; conheciam remédios cuja eficácia espanta os médicos (e a indústria farmacêutica já aqui fareja uma nova fonte? de lucros); dispunham de meios de influir sobre os membros do grupo? que a ciência por longo tempo considerou inexistentes (vodu); resolviam difíceis problemas por meios ainda não perfeitamente entendidos (construção de pirâmides, viagem dos polinésios). Havia, na Idade da Pedra?, uma astronomia? altamente desenvolvida e internacionalmente conhecida, astronomia que era? factualmente adequada? e emocionalmente satisfatória, dando solução a problemas tanto sociais quanto físicos (o mesmo? não se pode dizer a respeito? da astronomia moderna?) e que foi submetida a testes por meios muito simples? e engenhosos (observatórios de pedra na Inglaterra e no Pacifico Sul; escolas astronômicas na Polinésia). (Para tratamento mais aprofundado e referências mais precisas, no que toca a todas essas afirmativas, cf. meu Einfuhrung in die Naturphilosophie.) [462] Houve a domesticação de animais, a criação da agricultura rotativa, novos tipos? de plantas foram desenvolvidas e conservados puros? graças a evitar-se cuidadosamente a fertilização cruzada, surgiram invenções químicas, ‘desenvolveu-se uma arte? surpreendente, suscetível de ser comparada às melhores manifestações da arte contemporânea. Por certo que não houve excursões coletivas à Lua, mas indivíduos isolados, desprezando grandes perigos que lhes ameaçavam a alma? e a sanidade mental elevaram-se de esfera? a esfera e finalmente encararam Deus? em todo Seu esplendor?, enquanto outros homens se transformavam em animais para depois readquirir figura? humana (capítulo XVI, notas 20 e 21). Em todos os tempos, o homem? enfrentou a circunstância de olhos? abertos, com inteligência viva; em todos os tempos, realizou descobertas incríveis; em todos os tempos, há ensinamento a colher em suas ideias.


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