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Ciência e política: duas vocações.

Weber (CP) – profissão "cientista"

sexta-feira 29 de outubro de 2021, por Cardoso de Castro

      

WEBER  , Max. Ciência e política: duas vocações. Tr. Leonidas Hegenberg e Octany Silveira da Mota. São Paulo: Cultrix, 2011 (ebook)

      

Em nossos dias e referida à organização científica, essa vocação é determinada, antes de tudo, pelo fato de que a ciência atingiu um estágio de especialização que ela outrora não conhecia e no qual, ao que nos é dado julgar, se manterá para sempre. A afirmação   tem sentido não apenas em relação   às condições externas do trabalho   científico, mas também em relação às disposições interiores do próprio   cientista, pois jamais um indivíduo   poderá ter a certeza   de alcançar qualquer coisa de valor   verdadeiro no domínio   da ciência, sem possuir uma rigorosa especialização. Todos os trabalhos que se estendem para o campo   de especialidades vizinhas — é experiência que nós, economistas, temos de tempos em tempos e que os sociólogos têm constante e necessariamente — levam a marca   de um resignado reconhecimento: podemos propor aos especialistas de disciplinas afins perguntas úteis, que eles não teriam formulado tão facilmente se partissem de seu próprio ponto de vista, mas, em contrapartida, nosso trabalho pessoal permanecerá inevitavelmente incompleto. Só a especialização estrita permitirá que o trabalhador científico experimente por uma vez, e certamente não mais que por uma vez, a satisfação de dizer a si mesmo  : desta vez, consegui algo que permanecerá. Em nosso tempo  , obra verdadeiramente definitiva e importante é sempre obra de especialista. Consequentemente, todo aquele que se julgue incapaz de, por assim dizer, usar antolhos ou de se apegar à ideia de que o destino de sua alma   depende de ele formular determinada conjetura e precisamente essa, a tal altura de tal manuscrito, fará melhor em permanecer alheio ao trabalho científico. Ele jamais sentirá o que se pode chamar a “experiência” viva da ciência. Sem essa embriaguez   singular, de que zombam todos os que se mantêm afastados da ciência, sem essa paixão, sem essa certeza de que “milhares de anos se escoaram antes de você ter acesso à vida e milhares se escoarão em silêncio  ” se você não for capaz de formular aquela conjetura; sem isso, você não possuirá jamais a vocação de cientista e melhor será que se dedique a outra atividade  . Com efeito, para o homem  , enquanto homem, nada tem valor a menos que ele possa fazê-lo com paixão.

Outra coisa, entretanto, é igualmente certa: por mais intensa que seja essa paixão, por mais sincera e mais profunda, ela não bastará, absolutamente  , para assegurar que se alcance êxito. Em verdade  , essa paixão não passa de requisito da “inspiração  ”, que é o único fator decisivo. Hoje em dia, acha-se largamente disseminada, nos meios da juventude  , a ideia de que a ciência se teria transformado numa operação de cálculo, que se realizaria em laboratórios e escritórios de estatística, não com toda a “alma”, porém apenas com o auxílio do entendimento frio  , à semelhança   do trabalho em uma fábrica. Ao que se deve desde logo responder que os que assim se manifestam não têm, frequentemente, nenhuma ideia clara acerca do que se passa numa fábrica ou num laboratório. Com efeito, tanto num caso como no outro, é preciso que algo ocorra ao espírito   do trabalhador — e precisamente a ideia exata — pois, de outra forma, ele nunca será capaz de produzir algo que encerre valor. Essa inspiração não pode ser forçada. Ela nada tem em comum com o cálculo frio. Claro está que, por si mesma, ela não passa também de um requisito. Nenhum sociólogo pode, por exemplo, acreditar-se desobrigado de executar, mesmo em seus anos mais avançados e, talvez, durante meses a fio  , operações triviais. Quando se quer atingir um resultado, não se pode impunemente, fazer com que o trabalho seja executado por meios mecânicos — ainda que esse resultado seja, frequentes vezes, de significação reduzida. Contudo, se não nos acudir ao espírito   uma “ideia” precisa, que oriente a formulação de hipóteses, e se, enquanto nos entregamos a nossas conjeturas, não nos ocorre uma “ideia” relativa ao alcance dos resultados parciais obtidos, não chegaremos nem mesmo a alcançar aquele mínimo. Normalmente, a inspiração só ocorre após esforço profundo. Não há dúvida de que nem sempre é assim. No campo das ciências, a intuição   do diletante pode ter significado tão grande quanto a do especialista e, por vezes, maior. Devemos, aliás, muitas das hipóteses mais frutíferas e dos conhecimentos de maior alcance a diletantes. Estes não se distinguem dos especialistas — conforme o juízo   de Helmholtz a respeito de Robert Mayer — senão por ausência   de segurança no método de trabalho e, amiudadamente, em consequência, pela incapacidade de verificar, apreciar e explorar o significado da própria intuição. Se a inspiração não substitui o trabalho, este, por seu lado, não pode substituir  , nem forçar o surgimento da intuição, o que a paixão também não pode fazer. Mas o trabalho e a paixão fazem com que surja a intuição, especialmente quando ambos atuam ao mesmo tempo. Apesar disso, a intuição não se manifesta quando nós a queremos, mas quando ela quer. Certo é que as melhores ideias nos ocorrem, segundo a observação   de Ihering, quando nos encontramos sentados em uma poltrona e fumando um charuto ou, ainda, segundo o que Helmholtz observa a respeito de si mesmo, com precisão quase científica, quando passeamos por uma estrada que apresente ligeiro aclive ou quando ocorram circunstâncias   semelhantes. Seja como for, as ideias nos acodem quando não as esperamos e não quando, sentados à nossa mesa de trabalho, fatigamos o cérebro   a procurá-las. É verdade entretanto, que elas não nos ocorreriam se, anteriormente, não houvéssemos refletido longamente em nossa mesa de estudos e não houvéssemos, com devoção apaixonada, buscado uma resposta  . De qualquer modo, o estudioso está compelido a contar com o acaso, sempre presente   em todo trabalho científico: ocorrerá ou não ocorrerá a inspiração? Pode dar-se que alguém seja trabalhador notável, sem que jamais lhe ocorra uma inspiração. Cometer-se-ia, aliás, erro   grave, se se imaginasse que tão somente no campo das ciências é que as coisas se passam de tal modo e que num escritório comercial elas se apresentam de maneira inteiramente diversa do modo como se apresentam em um laboratório. Um comerciante ou um grande industrial que não tenham “imaginação   comercial”, isto é, que não tenham inspiração, que não tenham intuições geniais, não passarão nunca de homens que teriam feito melhor se houvessem permanecido na condição de funcionários ou de técnicos: jamais criarão formas novas de organização. A intuição, ao contrário do que julgam os pedantes, não desempenha, em ciência, papel mais importante do que o papel que lhe toca no campo dos problemas da vida prática, que o empreendedor moderno se empenha em resolver. De outra parte — e é ponto também frequentemente esquecido — o papel da intuição não é menos importante em ciência do que em arte. É pueril acreditar que um matemático, preso a sua mesa de trabalho, pudesse atingir resultado cientificamente útil   por meio do simples manejo de uma régua ou de um instrumento mecânico, tal como a máquina   de calcular  . A imaginação matemática de um Weierstrass é, quanto a seu sentido e resultado, orientada de maneira inteiramente diversa da maneira como se orienta a imaginação de um artista, da qual se distingue também, e radicalmente, do ponto de vista da qualidade; mas o processo psicológico é idêntico em ambos os casos. Ambos equivalem à embriaguez (“mania  ”, no sentido de Platão) e à “inspiração”.

As intuições científicas que nos podem ocorrer dependem, portanto, de fatores e “dons” que são por nós ignorados. Essa verdade incontestável serve de pretexto, aos olhos de certa mentalidade popular (disseminada, o que é compreensível, especialmente entre os jovens), para levar à devoção ídolos, cujo culto, hoje em dia, se faz ostensivamente, em todas as esquinas e em todos os jornais. Esses ídolos são os da “personalidade” e da “experiência pessoal”. Há, entre esses ídolos, ligações estreitas, pois, um pouco por toda a parte, predomina a ideia de que a experiência pessoal constituiria a personalidade e se incluiria em sua essência. Tortura-se o espírito para fabricar “experiências pessoais”, na convicção de que isso constitui atitude digna de uma personalidade e, quando não se alcança resultado, pode-se, ao menos, assumir o ar de possuir essa graça  . Outrora, em língua alemã, a “experiência pessoal” era chamada “sensação”. E creio que, naquela época, tinha-se ideia mais clara do que seja a personalidade e do que ela significa.

Senhoras e senhores! Só aquele que se coloca pura e simplesmente ao serviço de sua causa   possui, no mundo da ciência, “personalidade”. E não é somente nessa esfera   que assim acontece. Não conheço grande artista que haja feito outra coisa que não o colocar-se ao serviço da causa da arte e dela apenas. Mesmo uma personalidade da estatura de Goethe  , na medida em que sua arte está em pauta, teve de expiar a liberdade que tomou de fazer de sua “vida” uma obra de arte. Os que ponham em dúvida essa afirmativa admitirão, não obstante, que era necessário ser um Goethe para poder permitir-se tentativa semelhante e ninguém contestará que mesmo uma personalidade de seu tipo, que só aparece uma vez a cada mil anos, não teve condição de assumir essa atitude impunemente. Coisa diversa não acontece no domínio da política, mas hoje, não abordaremos esse tema. No mundo da ciência, é absolutamente impossível considerar como uma “personalidade” o indivíduo que não passa de empresário da causa a que deveria dedicar-se, que se lança à cena com a esperança   de se justificar por uma “experiência pessoal” e que só é capaz de indagar: “Como poderia eu provar que sou   coisa diversa de um simples especialista? Como poderia eu proceder para afirmar, na forma e no fundo, algo jamais dito por pessoa   alguma?” Trata-se de fenômeno que, em nossos dias, assume proporções desmesuradas, embora só produza resultados desprezíveis, para não mencionar que diminui quem propõe aquele gênero   de pergunta. Em oposição a isso, aquele que põe todo o coração   em sua obra, e só nela, eleva-se à altura e à dignidade da causa que deseja servir. E para o artista o problema se coloca de maneira perfeitamente idêntica.

A despeito dessas condições prévias, que são comuns à ciência e à arte, outras existem que fazem com que nosso trabalho seja profundamente diverso do trabalho do artista. O trabalho científico está ligado ao curso do progresso. No domínio da arte, ao contrário, não existe progresso no mesmo sentido. Não é verdade que uma obra de arte de época determinada, por empregar recursos técnicos novos ou novas leis, como a da perspectiva, seja, por tais razões, artisticamente superior a uma outra obra de arte elaborada com ignorância daqueles meios e leis, com a condição, evidentemente, de que sua matéria e forma respeitem as leis mesmas da arte, o que equivale a dizer: com a condição de que seu objeto haja sido escolhido e trabalhado segundo a essência mesma da arte, ainda que não recorrendo aos meios que hão de ser evocados. Uma obra de arte verdadeiramente “acabada” não será ultrapassada jamais, nem jamais envelhecerá. Cada um dos que a contemplem apreciará, talvez diversamente, a sua significação, mas nunca poderá alguém dizer de uma obra verdadeiramente “acabada” que ela foi “ultrapassada” por uma outra igualmente “acabada”. No domínio da ciência, entretanto, todos sabem que a obra construída terá envelhecido dentro de dez  , vinte ou cinquenta anos. Qual é, em verdade, o destino ou, melhor, a significação, em sentido muito especial, de que está revestido todo trabalho científico, tal como, aliás, todos os outros elementos   da civilização sujeitos à mesma lei? É o de que toda obra científica “acabada” não tem outro sentido senão o de fazer surgirem novas “indagações”: ela pede, portanto, que seja “ultrapassada” e envelheça. Quem pretenda servir à ciência deve resignar-se a tal destino. É indubitável que trabalhos científicos podem conservar importância duradoura, a título de “fruição”, em virtude   de qualidade estética ou como instrumento pedagógico de iniciação   à pesquisa. Repito, entretanto, que na esfera da ciência, não só nosso destino, mas também nosso objetivo é o de nos vermos, um dia, ultrapassados. Não nos é possível concluir um trabalho sem esperar, ao mesmo tempo, que outros avancem ainda mais. E, em princípio, esse progresso se prolongará ao infinito  .