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FILOSOFIA E PRÁXIS CIENTÍFICA

Ladrière (FPC) – A ideia diretriz da ciência

quinta-feira 28 de outubro de 2021

Ladrière, Jean. FILOSOFIA E PRÁXIS CIENTÍFICA. Org. Olinto Pegoraro. Tr. Maria José J. G. de Almeida. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1978


O presente estudo sobre filosofia e ciência é o texto de uma conferência pronunciada diante do Philosophy Club da Universidade de Saint Louis, nos Estados Unidos, a 19 de abril de 1958. O texto foi originalmente escrito em francês e depois traduzido para o inglês. Foi o texto inglês que serviu de base à tradução em português que aqui se publica.

Se nos voltarmos agora? para a ciência? — ainda compreendida no sentido? da ciência positiva — veremos que, por um lado, a ciência visa sempre um domínio? particular?. A ciência é ciência da vida?, ou da natureza?, ou da sociedade? e assim por diante. Por outro lado, a ciência atinge apenas generalidades. Ela se afasta, pois, ao mesmo? tempo? da totalidade? e da singularidade?, a fim? de se estabelecer na zona intermediária da generalidade abstrata?. E, no entanto, olhemos mais de perto para ela. Não haverá na ciência uma certa presença? tanto da totalidade quanto da concretude singular??

A ciência apoia-se na ideia? de uma unidade? do saber?. Certamente, ela nos aparece concretamente sob a forma? de uma multiplicidade? de ciências, mas essa multiplicidade não é considerada como a última palavra?. A ciência visa, através da multiplicidade, uma unidade virtual?, que seria o conhecimento? do mundo? como um e o mesmo mundo. A ciência é pelo menos virtualmente, enquanto ciência, um saber sistemático? do mundo.

Por outro lado, através de suas proposições? gerais, a ciência visa o concreto?, o singular. As proposições gerais são sempre consideradas do ponto? de vista? de suas aplicações concretas, de tal maneira que há? sempre uma referência? ao singular. Além? disso, a própria linguagem? matemática? faz uso? de variáveis, e uma variável representa o papel? de um indivíduo? enquanto indivíduo. A variável, contudo, não se esgota nesse papel, papel que só pode ser completamente compreendido em conjunção com os indivíduos possíveis — que têm que ser indivíduos concretos — e que podem ser representados com o auxílio dessa variável. Em outras palavras, a ciência tem a ambição de um saber real?, e o saber real é um saber do real. A ciência não é o sonho? de um matemático. Ela sempre se desenvolve visando uma realidade? que está sempre dada de antemão, que já está sempre aí. E as proposições da ciência só têm significado? na medida? em que indicam essa realidade. A realidade em questão? é um mundo de indivíduos, um mundo concreto, de tal maneira que a ciência visa realmente a concretude.

Devemos acrescentar também que a ciência visa a concretude na medida mesma em que visa a totalidade. Sua pressuposição? fundamental é que há um mundo, e é a unidade desse mundo que inspira suas operações próprias. Esse? mundo não é um mundo ideal?, é um mundo concreto. E é seu caráter? concreto que inspira as operações próprias da ciência. Ela visa, pois, e tem que visar, ao mesmo tempo a unidade, a totalidade e a concretude. Ela não pode atingir a totalidade a não ser assumindo o concreto, que é a própria matéria? dessa totalidade. E não pode atingir a concretude a não ser assumindo a totalidade, porque o concreto que é plenamente concreto não é apenas este singular, mas este singular com todas as relações? que o unem a todos os singulares que o cercam e, de maneira gradual e cada vez? mais próxima?, com todos os singulares que constituem, na totalidade de suas relações mútuas, este mundo uno e único? sobre o qual estamos meditando.